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Ano I, nº 5, dezembro de 2002
O vôo de Thereza | O vôo de Thereza |
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| Luíza Nascimento | |||
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Página 1 de 2 "Há 14 anos, dois anos antes de sua morte, eu lhe prometi que não deixaria que sua história se apagasse". E não se trata de uma história qualquer, mas da brava história de Thereza de Marzo, jovem de 19 anos de idade que, em plena década de vinte, em oposição a uma série de valores retrógrados, tornou-se a primeira mulher a voar sozinha no Brasil, abrindo o caminho que, logo em seguida, seria trilhado por muitas outras.
Quem conta a história é Lucy Lúpia, mulher que também escreveu seu nome nos anais da aviação, tornando-se a primeira piloto de linha aérea do país. Hoje, Lucy se dedica a divulgar essa história, tendo se empenhado, até agora, na feitura de três livros — verdadeiros documentos que se propõem a registrar o que de mais importante testemunhou em sua carreira: Eu quero voar, Vôo proibido e Sobrevivente. A história de Thereza
Filha de imigrantes italianos em Nápoles, Thereza de Marzo nasceu em São Paulo, a 4 de agosto de 1903. Já aos 17 anos, enquanto observava os céus da cidade, decidiu se tornar piloto. Determinada, não relutou em partilhar sua decisão com a família, o que causou um grande constrangimento. Era inaceitável, naquela época, que uma mulher se dedicasse a outra tarefa que não fosse o binômio casamento e filhos. E Thereza, sem dúvida, ousou, indo de encontro a uma série de tabus que permeavam a acanhada sociedade dos anos vinte. Sem o auxílio financeiro dos pais, Thereza conseguiu, rifando uma vitrola, levantar fundos para se matricular na escola de aviação dos irmãos João e Enrico Robba, ex-aviadores da 1ª Guerra Mundial. Ali, de posse de um Caudron G-3, começou a pôr em prática tudo aquilo que, no Brasil, ainda estava destinado aos homens. Dessa forma, acabou por conhecer o instrutor Fritz Roeler, alemão com quem mais tarde viria a se casar. Foi ele quem a preparou para seu primeiro vôo solo, em 17 de março de 1922. O casamento
Se por um lado Fritz Roeler impulsionou a carreira de Thereza ao instruí-la e apóia-la, por outro, foi uma pedra em seu sapato, desestimulando-a. Até os registros de Thereza foram sabotados por Fritz: "Thereza registrou oficialmente 350 horas de vôo. Só que acumulou muito mais. No entanto, Fritz achou tolice registrá-las" — coloca Lucy, ao falar do casamento da aviadora com o seu instrutor, em 25 de setembro de 1926. Fritz Roeler e a VASP
Fritz se destacou em diversos ramos da aviação, tendo contribuído muito para a evolução do vôo no Brasil. Piloto e engenheiro mecânico, construiu os primeiros planadores do país. Projetou oYpiranguinha que, em seguida, deu origem ao CAP-4 (Paulistinha), o avião que mais formou pilotos no país, até hoje. O pioneirismo de AnésiaJá há algum tempo, Lucy Lúpia trabalha para esclarecer a polêmica existente no que diz respeito ao pioneirismo na aviação feminina. Basta dar uma navegada pela Internet para verificar que, na maioria das páginas sobre aviação, história ou feminismo, é dado a Anésia o título de primeira aviadora do Brasil, e não à Thereza que, segundo Lucy, é quem de fato merece. Aspectos da história referentes a Thereza são atribuídos aAnésia que, conforme relatos da escritora, forjou um sem número de provas com o intuito de se estabelecer na posição de pioneira. "Pegaram dados de Thereza e incorporaram à biografia de Anésia. Puseram que quem solou no dia 17 de março foi ela. Mas como o número do brevê da Thereza é 76, e o da Anésia é 77, ninguém nada pode contestar." — coloca Lucy. Polêmicas à parte, o que mais importa na história dessas mulheres é que, independentemente da questão do pioneirismo, elas se colocaram numa posição avessa aos valores dominantes da época — foram vanguarda na história da aviação no Brasil.
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| Nº 49, janeiro de 2009 |
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