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Página 1 de 4 Quatrocentos soldados de tropas regulares e especiais da Polícia Militar do estado do Pará, envolvendo tropa de choque Comando de Missões Especiais (CME), Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal e Exército, 40 viaturas, quatro helicópteros e um avião. Prisões de camponeses e posseiros, mulheres e crianças, tortura e ameaças de morte. Esta é a descrição da atual situação do sul do Pará, mais precisamente na área de mais de 20 mil hectares onde em, 22 de setembro último, camponeses pobres tomaram a fazenda Forkilha. Uma verdadeira operação de guerra ordenada pela governadora Ana Júlia Carepa — PT que resultou na prisão de centenas de camponeses e perseguição de lideranças populares.
Foto: Claudio Santos/Ag. Pará
Na madrugada de segunda-feira, 19 de novembro, os camponeses foram surpreendidos em seus barracos por uma verdadeira operação de guerra. Muitas famílias ainda dormiam quando as tropas do Exército fecharam a rodovia BR-158, entre Redenção e Santa Maria das Barreiras , no sul do Pará, e os efetivos das Polícias Militar, Civil e Rodoviária e Exército, fortemente armados, de forma truculenta invadiram a área da Fazenda Forkilha.
A operação, que foi cinicamente definida pelo governo como "Paz no Campo", é a aplicação da política de terror contra os pobres do campo promovida pelo Estado burguês-latifundiário no Pará. Os barracos dos camponeses foram invadidos, seus ocupantes tomaram tapas no rosto, coronhadas no peito e foram postos para fora aos empurrões, sob insultos e ameaçados por armas de grosso calibre apontadas para suas cabeças.
Mais de 200 camponeses foram brutalmente agredidos e presos, colocados em uma sinistra fila indiana e conduzidos para um descampado, onde foram mantidos sob guarda de soldados armados de fuzis, escopetas e metralhadoras. Basta observar as fotografias para concluir que se tratavam de trabalhadores, posseiros, tratava-se da gente simples da região que cansada de esperar pelo cumprimento das promessas do governo decidiram conquistar com suas próprias mãos seu sagrado direito à terra.
Desrespeitados e humilhados, agredidos diante de seus filhos, uma cena revoltante. Impossível não recordar Canudos, mil vezes difamada pelas hostes e porta-vozes da semifeudalidade, que com sua gente simples e brava impôs fragorosas derrotas às tropas assassinas do Exército da ainda mais velha república, tratados como bandidos, fanáticos, da mesma forma agredidos e desrespeitados.
Mandantes, porta-vozes e executores
A operação de guerra contra o povo pobre do Pará foi precedida por uma campanha histérica e caluniosa promovida pelo monopólio da imprensa. Particularmente nos editoriais e artigos da Folha de São Paulo e revista Veja, lugar-comum para as proclamações dos grupos de poder desde os gorilas do regime militar até à arqui-reacionária UDR, os latifundiários fizeram transbordar todo o seu ódio e temor da luta das massas camponesas. Uma série de artigos atacou e acusou sem uma prova sequer.
O latifúndio do Pará enviava um recado claro à governadora Ana Júlia Carepa — PT, cuja gerência reprimia insuficientemente o povo do Pará para assegurar a sua tranquilidade. Bastou a primeira série de artigos venais publicados, para a governadora dar a ordem para a execução da operação "paz no campo".
Aplicando à risca a máxima fascista de repetir uma mentira dita 100 vezes pretendendo que ela venha se tornar uma verdade, o latifúndio e seus asseclas tentam imputar à luta pela terra o selo de ato criminoso. Este artifício não é mérito dos serviços de segurança e repressão nacionais. Os mais velhos e reacionários manuais de repressão das classes dominantes já apontavam que para lançar a opinião pública contra os lutadores do povo, devia-se primeiramente descaracterizá-lo, difamá-lo, criminalizá-lo para depois desatar a mais feroz repressão.
Armas de guerra dos latifundiários
Manipulando as informações, as publicações encomendadas pelo latifúndio prosseguem tratando os camponeses e posseiros do sul do Pará por "bandidos" e "bandoleiros". Logo após a operação policial contra os camponeses na Fazenda Forkilha, foi noticiada a apreensão de um arsenal de armas pesadas (fuzis FAL, M-16 e Ruger, pistolas automáticas e escopetas, etc.) encontrado na Fazenda Estrela de Maceió, de propriedade da família de P. C. Farias, onde fazendeiros treinavam jagunços (chamados pela imprensa de ‘seguranças contratados’), mas toda a ligação com este fato, inclusive a foto do arsenal, foi colocada na matéria que falava da Liga dos Camponeses Pobres e da operação "paz no campo".
NAP acusa "Tropa de elite" do latifúndio
Assim que tomaram conhecimento dos fatos, uma comissão de advogados mobilizada pelo Núcleo dos Advogados do Povo deslocou-se para o Pará com o intuito de investigar as agressões contra os camponeses e prestar apoio jurídico aos detidos.
Os advogados colheram depoimentos que vieram sob forma de desabafos revoltantes e denúncias contundentes das torturas aplicadas contra adultos, idosos e crianças. A comissão de advogados foi acompanhada pessoalmente pelo Ouvidor Agrário Nacional, Gercino José da Silva Filho, de um representante regional da Defensoria Pública e de vários membros do INCRA-SR-27 (Marabá), entre eles o representante oficial da superintendência regional daquele órgão.
Após esta primeira missão de investigação e solidariedade aos camponeses, uma nova comissão de advogados retornou ao sul do Pará, desta vez indo a Redenção e Conceição do Araguaia. Os advogados do NAP conseguiram visitar todos 22 camponeses que continuam presos e constatar todas as denúncias de torturas, maus tratos, humilhações e toda sorte de abusos praticados pelos integrantes da operação contra aquelas famílias de trabalhadores. O Núcleo dos Advogados do Povo publicou relatórios sobre as atrocidades cometidas contra o povo pobre do sul do Pará. Reproduzimos alguns trechos destes relatórios na página 9.
Cabeça a prêmio
R$ 120 mil reais. Os relatos de vários camponeses, colhidos por nosso correspondente, dão conta de que foi este o preço fixado pelos latifundiários para que seus jagunços eliminem os dirigentes da Liga dos Camponeses Pobres. Entre estes está o companheiro Luiz Lopes, histórica liderança camponesa da região e um dos coordenadores da LCP (veja entrevista com ele nesta edição). O que não foi obtido à custa da violência contra o povo pobre, das torturas, perseguições e tormento para milhares de famílias, se transformou em um leilão macabro, onde latifundiários dão lances altos para tentar eliminar a organização combativa dos camponeses do Pará.
Há pouco mais de um ano, a Liga dos Camponeses Pobres realizou seu congresso de fundação no estado de Pará e abriu uma modesta sede na cidade de Conceição do Araguaia. Os camponeses organizados na Liga realizaram durante todo o ano dezenas de manifestações públicas, passeatas, panfletagens e encontros.
Através do seu trabalho sério e persistente a Liga adquiriu a confiança e respeito dos camponeses pobres da região. Suas atividades e reuniões realizadas são abertas e públicas, pois correspondem aos interesses da gigantesca massa de camponeses pobres que luta contra o latifúndio e contra toda a sorte de crimes praticados pelo Estado.
A mobilização para a tomada da Forkilha, principalmente em Redenção, foi intensa (ver AND 38: A luta camponesa faz-se ouvir) e contou com a participação e apoio de inúmeras organizações, sindicatos, democratas de toda a região.
Mas o ódio dos latifundiários, o temor da organização dos camponeses pobres, e contra a LCP está bem explicado no último manifesto distribuído pela Liga após a operação de terror no campo:
"O que o latifúndio não aceita é a independência da Liga dos Camponeses Pobres. Eles não se conformam de não sermos uma organização do esquema do governo, que dependa e sobreviva das verbas públicas e que por isto pudesse ser chantageada e controlada.
As milhares de famílias que sonham e lutam por um pedaço de terra distinguem quem é quem na luta contra o latifúndio. Separam os combativos dos oportunistas e bandidos."
Bandidos escravocratas
Enquanto o povo pobre do Pará é alvo de perseguições e todo tipo de violência por parte do Estado e camponeses permanecem detidos, os bandidos escravocratas, latifundiários e torturadores permanecem em liberdade e cometendo outra série de crimes.
Após a campanha de perseguições e a operação militar na Forkilha, surgiram na cidade de Redenção dezenas de outdoors encomendados por latifundiários agradecendo a governadora Ana Júlia Carepa — PT pela ação violenta contra os camponeses pobres.
A Governadora Ana Julia Carepa, ao contrário do que brandiram os órgãos do monopólio da imprensa antes da operação militar na Forkilha, governa para o latifúndio e para a grande burguesia. Sua campanha marchou à reboque do populismo de Luiz Inácio e aplicação de suas políticas de "bolsa-esmola" junto à população pobre do interior do país, que garantiu sua vitória eleitoral sobre o desgastado PSDB após 12 anos de gerência no governo do estado.
Mas ela também contou com um importante aliado: o deputado federal Jader Barbalho — PMDB, que além de possuir estreita ligação com os assuntos da "segurança pública" do Pará, é um legítimo representante do latifúndio na região, um autêntico senhor feudal, com extensa folha corrida na justiça por desvio de dinheiro público, e diversas vezes denunciado por beneficiar latifundiários correligionários que cometiam crimes de exploração de trabalho escravo.
Defendendo seu legado, a governadora Ana Júlia ordenou a ação militar na fazenda Forkilha, cujas terras eram reivindicadas como propriedade, mas de fato griladas pelo escravocrata Jairo Andrade, fundador da criminosa e arquireacionária UDR — União Democrática Ruralista.
Jairo Andrade participou da trama da morte do advogado e ex-deputado estadual Paulo Fonteles, executado em 17 de junho de 1987, por sua luta em defesa dos posseiros do sul e sudeste do Pará. Dezenas de vezes denunciado pela prática de trabalho escravo, foi um dos grandes responsáveis pela derrubada da floresta na região para transformá-la em grandes pastagens para gado.
A operação militar contra os camponeses pobres do Pará, a maior após a repressão à Guerrilha do Araguaia, não tinha como objetivo sequer cumprir uma reintegração de posse. Ainda assim, caso tivesse este fim, ela seria conduzida pela Vara de Conflitos Agrários. Esta operação de guerra foi realizada para cumprir "mandados de busca e apreensão".
Irônica e propositalmente, exatamente no mesmo dia em que ordenou a operação militar na fazenda Forkilha, a governadora empossou uma "Comissão de Erradicação do Trabalho Escravo".
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