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Início arrow Anteriores arrow Ano II, nº 12, agosto de 2003 arrow Outro grupo fascista do USA se infiltra no Brasil
Outro grupo fascista do USA se infiltra no Brasil PDF Imprimir E-mail
Rosana Bond   

A chamada organização LaRouche, da extrema direita norte-americana, está trabalhando ativamente no Brasil, seduzindo parlamentares, intelectuais, membros do setor nuclear e até apoiando um candidato à Presidência da República.

O grupo, acusado de assassinar o primeiro ministro sueco Olof Palme em 1986 (Relatório do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Porto Alegre, 1999) é comandado pelo economista e ex-agente secreto, Lyndon LaRouche, cujas teses aparentemente delirantes fazem com que a imprensa do USA o considere excêntrico e louco.

Mas a figura não é um demente, adverte o jornalista Dennis King, autor do livro Lyndon LaRouche e o novo fascismo americano, que aponta seus vínculos com a CIA. King informa que LaRouche trabalhou com o governo Reagan e foi o idealizador do Sistema de Defesa Estratégica (SDI) e do programa Guerra nas Estrelas adotados por aquele presidente nos anos 80.

O esquema larouchista, que começou a penetrar no Brasil em 1984, domina hoje boa parte das cabeças pensantes do setor nuclear nacional. A denúncia é do ex-diretor da Nuclen, engenheiro Mário Sérgio Paranhos de Lima Porto, que também foi cooptado pela organização, mas conseguiu libertar-se dela.

A ligação com o setor nuclear

No artigo A organização LaRouche e o setor nuclear brasileiro, constante do site www.shopping.com.br/~mporto/larouche.htm, ele afirma: "(...) os contatos da referida organização (LaRouche) com o Setor Nuclear Brasileiro iniciaram-se em 1985, mas se limitavam a relacionamentos individuais entre os representantes da organização e técnicos do Setor, não caracterizavam de nenhuma forma uma relação institucional. Pelo menos até 1991. No entanto, é com surpresa que podemos constatar que em 2000 este relacionamento se estreitou (grifo da Redação), agora pode ser claramente classificado como institucional. Fica notório que membros da comunidade nuclear, que naqueles tempos se relacionavam com a organização LaRouche de uma forma não integral, isto é, aceitando com restrições as teses por ela defendidas, para em contrapartida obter proveito da maciça e ardorosa veiculação da defesa da opção nuclear manifestada pela organização, aceitaram passar desta posição cautelosa para uma ostensiva identidade de pensamento com a organização, refletindo isto nos seus boletins e periódicos. Aparentemente, até perderam o receio de identificar-se com LaRouche."

Mário Porto diz que um dos indícios da ligação dos larouchistas com a área nuclear brasileira é o fato de a revista Brasil Nuclear estar abrindo espaço para nomes vinculados à organização: "O número 22 da revista Brasil Nuclear Jan-Mar 2001, pp. 4-7, editada pela ABEN (Associação Brasileira de Energia Nuclear), cujos editores são todos do setor nuclear, sendo alguns dos primeiros escalões, apresenta uma entrevista com Jonatham Tennenbaum, um dos líderes intelectuais e científicos do Movimento LaRouche. (...) Este vínculo é mais evidente e contundente na publicação do anúncio na página 26, da mesma edição, versando sobre o livro, Máfia Verde, escrito pela equipe brasileira de analistas da revista Executive Intelligence Review (EIR) porta-voz da política e da estratégia de atuação do grupo LaRouche."

Quem é Lyndon LaRouche

Considerado guru por alguns, neo-nazista, ególatra e demente por outros, o economista, filósofo, de formação trotskista e quatro vezes candidato à presidência da República Lyndon Hermyle LaRouche Jr. não é um louco que professa teses delirantes — diz o jornalista Dennis King. O jornalista publicou em 1990, pela editora Doubleday, uma alentada biografia do personagem sob o título Lyndon LaRouche e o novo fascismo americano.

De acordo com King, as idéias "excêntricas" de LaRouche (ele diz, por exemplo, que a Casa Real da Inglaterra é uma das gerenciadoras do tráfico de drogas no mundo e que Henry Kissinger é um agente comunista) foram geralmente posições falsas, adotadas para confundir e distrair a atenção enquanto ele forjava vínculos e compromissos com a administração de Ronald Reagan, com a CIA, com o Conselho de Segurança Nacional, Ku Klux Klan, e outros grupos que pregam a supremacia branca, sem falar dos caminhoneiros (donos de empresas transportadoras), chefes do crime organizado, entre outros.

Em seu livro, King acusa a maior parte da imprensa norte-americana de olhar para o outro lado, adotando a postura do "fingir que não vê", o que permitiu que a organização LaRouche crescesse e prosperasse.

Em alguns anos os larouchistas levantaram mais 200 milhões de dólares em empréstimos e doações públicas, a despeito de pertencerem a aquilo que Dennis King descreve como "uma seita de ideologia fascista clássica, anti-semítica, lavadora de cérebros, que usa táticas difamatórias e deu fanático apoio ao sistema de defesa Guerra nas Estrelas e a seu desenvolvimento militar."

Agente secreto

Apresentamos, a seguir, um resumo da biografia de LaRouche e da história de seu grupo, baseado no livro de Dennis King e no relatório A atuação da extrema direita no Brasil — Ideologia, organização e práticas dos larouchistas, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Porto Alegre, outubro de 1999 (site: http://planeta.terra.com.br/noticias/mjdh/tela7_larouche.html)

Lyndon Hermyle LaRouche Jr. nasceu em 1922, em Rochester, New Hampshire, USA. Casado três vezes, desde 1977, sua mulher é a alemã Helga Zepp-LaRouche. Desde 1983 vive em Loundon County, Virgínia, numa propriedade de 174 acres, cercada de segurança, cães e guardas armados espalhados pelo bosque que circunda a casa.

Estudou na Northeastern University (Boston). Na Segunda Guerra Mundial, serviu no serviço secreto do Exército do USA na Índia. Desligou-se do Exército em 1947 e entre 1948 e 1972 trabalhou como consultor de empresas de transporte e vestuário.

Aproximou-se do Partido Comunista do USA, infiltrado pelo FBI, mas logo transferiu-se para o SWP (Socialist Workers Party) — trotskista —, onde permaneceu por quase toda a década de 60. Ao deixar o SWP, tornou-se um dos líderes do Labor Caucus of the Students for a Democratic Society (SDS). Foi expulso do SDS em 1969 por tentar obter o controle total sobre a organização estudantil, muito ativa durante os protestos contra a presença do USA no Vietnã.

Com o pseudônimo de Lyn Marcus ("homenagem" a Lênin e Marx), criou o National Caucus of Labor Comittees (NCLC). Em 1973, o NCLC passou por uma reviravolta. LaRouche desejava estabelecer sua hegemonia junto à esquerda e passou a defender a tese de que a "industrialização acelerada para a construção de uma classe operária dependia de uma aliança tática dos revolucionários com a classe operária e o capital industrial contra o capital financeiro." Paralelamente começou a desenvolver uma postura autoritária, com a glorificação da sua missão histórica. Para a imprensa, ele afirmava ser o único capaz de realizar a revolução e o socialismo no USA.

Agressões físicas aos comunistas

Em 1972, sua vida pessoal sofre um abalo. Sua segunda mulher, Carol Scnhitzer, o deixa por Christopher White, um militante inglês do NCLC. Para LaRouche, o golpe se repetia: sua primeira mulher, Janice, também o abandonara por outro, dez anos antes, levando com ela seu único filho.

Segundo ex-colaboradores, o abandono da mulher provocou-lhe uma crise nervosa brutal, fazendo com que procurasse refúgio na Europa. Ao retornar, em 1973, Lyndon LaRouche é denunciado como neonazista, depois de uma série de ataques físicos que seu grupo, o NCLC, realiza contra militantes comunistas.

Ainda em 1973 funda o U.S. Labor Party (USLP — Partido Operário do USA). Suas idéias transformaram-se numa mescla bizarra, que reunia teorias conspiratórias, economia "pós-marxista" e uma doutrina "psicossexual sobre a organização política". O editorial do jornal Campaigner, órgão oficial do NCLC, em setembro de 1973, acusa as mulheres dos trabalhadores de "refrearem as aspirações revolucionárias do proletariado". Ao mesmo tempo, desenvolve uma fantasia febril sobre a sua importância na História.

Idealiza então um primeiro "plano de conquista", a Operação Mop-Up (Limpeza). Entre maio e setembro de 1973, seus seguidores recebem ordens de atacar brutalmente os rivais do Partido Comunista e do SWP. Os brutamontes do NCLC usam porretes, correntes e instrumentos de artes marciais.

Vítima de um "complô"

O restante do ano de 1973, LaRouche passou obcecado pela traição de sua mulher, disseram ex-membros do grupo. A explicação para o abandono foi divulgada em dezembro, pelo Campaigner: Christopher White infiltrara-se no NCLC para roubar sua mulher, sob ordens da KGB e do M15 britânico (?!). Num complô esdrúxulo, as duas agências secretas também pretenderiam assassiná-lo, em represália pela Operação Mop-Up e pelos ataques ao Partido Comunista (de orientação soviética) — afirmou o jornal.

Os larouchistas diziam também que a CIA, frustrada por ter sido surpreendida por revelações de LaRouche, teria tentado sequestrá-lo para extrair os seus segredos, ou mesmo matá-lo, como forma de evitar que informações valiosas caíssem em mãos soviéticas.

Em 1974, LaRouche inicia uma "desprogramação soviética" do NCLC, encarcerando membros, fazendo interrogatórios, expurgos, etc. — como revela seu discurso no The New Solidarity de 3 de janeiro. O terrorismo interno ocasionou a saída de centenas de militantes do grupo.

Em 1974, LaRouche também inicia seus contatos com grupos anti-semitas e extremistas de direita, numa tentativa de forjar uma aliança tática para se opor ao imperialismo e aos banqueiros internacionais (aos Rockfeller em particular). O NCLC declara, no entanto, que o grupo permanece "marxista", estando apenas interessado numa aliança temporária com industriais progressistas.

Com a CIA e a KKK

Pelo US Labor Party — braço eleitoral do NCLC -, LaRouche organiza sua primeira campanha para a presidência, em 1976. Obteve pouco mais de 40 mil votos, mas a campanha viabilizou a aproximação mais organizada com a extrema direita. Apesar de seu programa "marxista", o NCLC penetra cada vez mais em grupos como a Ku Klux Klan (KKK), a American Conservative Union, o John Birch Society, o Young Americans for Freedom e o Liberty Lobby.

A partir do final de 1976, acerta com Mitchell WerBell III (ex-funcionário da CIA) o fornecimento de segurança e treinamento de defesa para militantes do NCLC num centro de treinamento para-militar em Powder Springs, Georgia. WerBell III introduz LaRouche em uma rede de espiões, mercenários e agentes de inteligência, e o aproxima definitivamente de líderes extremistas.

O NCLC começa a armazenar informações e a disseminar serviços de inteligência para vários grupos. Suas publicações anunciam a venda de serviços para agências governamentais estrangeiras e aliados internos. Contatos deste nível foram, inclusive, mantidos entre o NCLC e a CIA com casos comprovados de cooperação (material do NCLC sobre terrorismo e subversão foi utilizado por agentes americanos).

A organização passa a empregar racistas conhecidos e a colaborar com técnicos em conspiração da KKK, do Liberty Lobby e da Nação do Islã, grupo segregacionista negro.



 
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