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Início arrow Anteriores arrow Ano I, nº 3, outubro de 2002 arrow Vanja Orico: A arte de defender o povo
Vanja Orico: A arte de defender o povo PDF Imprimir E-mail
Rosa Minine   

Estreando no cinema ao lado de Lattuada e Fellini, a atriz, cantora, diretora de cinema e ativista política, Vanja Orico, teve seu nome gravado nas mentes e corações de inúmeras pessoas no mundo inteiro. Sendo uma figura bem brasileira, mesmo quando fazia personagens em filmes italianos, alemães ou franceses, Vanja foi premiada em festivais como o de Cannes e Karlovivary. Cantando “Sodade Meu Bem Sodade”, de Zé do Norte, no premiado O Cangaceiro, de Lima Barreto, divulgou nossa música popular pelo mundo afora, sendo a primeira brasileira a enfrentar a censura e cantar no Leste europeu.


Vanja detêm ataque dos militares aos estudantes em 7 de novembro de 1968

Além da vida artística, Vanja Orico ficou conhecida como uma brasileira que lutou contra a ditadura militar e em 07 de novembro de 1968, durante o enterro do estudante Édson Luiz, morto pela repressão, apareceu em uma cena marcante que ficaria na memória de inúmeros brasileiros: de joelhos, lencinho branco na mão, se pôs defronte aos carros do exército aos gritos de “Não atirem, somos todos brasileiros”.

Morou em diversos países da Europa, por ser filha de um diplomata, o escritor e imortal Oswaldo Orico.

Entre os filmes mais importantes está Mulheres e Luzes, o seu primeiro trabalho, aos 16 anos, enquanto estudava em Roma, na Itália. Sob a direção de Federico Fellini e Alberto Lattuada, apareceu no papel de uma ciganinha e lançou a música Meu Limão Meu Limoeiro. Também compôs Coplas, canção inspirada em refrão de Garcia Lorca. Logo em seguida, já no Brasil, no papel de Maria Clódia, participou do premiadíssimo O Cangaceiro. Além de Sodade Meu Bem Sodade, Vanja canta Mulé Rendêra. Um Clássico do cinema nacional e duplamente premiado no festival internacional de Cannes, além de vários outros prêmios. Na época, foi assistido por um quarto da população brasileira.


Presa e espancada após deter massacre iminente

Em 1955, Vanja aparece na pele de uma índia Carajá, em Yalis, a Flor das Selvas, uma produção italiana, rodada em Roma e no Rio Araguaia, contando a trajetória de uma índia levada para a civilização. Esse filme a consagra como cantora e dançarina.

Eu creio no nosso cinema.
No momento temos muita gente boa
fazendo filmes e até bem jovens

No ano seguinte atuou como Conchita, no filme Conchita, Under Iugenieur, uma produção alemã com direção de Franz Eishore. No elenco estava o também brasileiro Grande Otelo, Robert Freitag e Cyl Farney. Conchita é uma mestiça, de um país da América Latina, que se apaixona por um engenheiro alemão e, como não é retribuída, por vingança, incendeia os poços de petróleo.

Falando cinco idiomas, ficava fácil para ela trabalhar em qualquer país. Entre 1956/57 fez Rosa dos Ventos, um filme em cinco episódios, cada qual representando um país: URSS, China, Brasil, Itália e França. O capítulo brasileiro é baseado em uma história de Jorge Amado. Sob a direção de Alex Vianny, Vanja viveu Ana e o filme foi premiado no festival Tcheco de Karlovivary.


Cartaz do filme Yalis, a Flor das Selvas

Atuou ao lado de Rui Guerra, Fábio Sabag e Eduardo Coutinho, em Os Mendigos, 1964, a primeira comédia do cinema novo. Ainda neste ano, interpretou Maria Bonita, no filme de Carlos Coimbra e Massaini, Lampião Rei do Cangaço.

Em 1993, dirigida por Nelson Pereira dos Santos, apareceu como uma parteira do conto de Guimarães Rosa A Terceira Margem do Rio. Vanja participou em mais de 15 filmes premiados fora do Brasil. O seu último filme foi Impérios, com direção de Joel Barcelos. As Filmagens terminaram recentemente e ainda falta editar. “São três horas de projeção, que conta uma história muito curiosa que se passa entre a China e o Brasil” apresenta a artista.

Além de atriz, Vanja Orico é argumentarista para cinema, e Ele o Boto, filme dirigido por Walter Lima Júnior, em 1986, é produção sua. A artista também teve o prazer de trabalhar, recentemente, sob a direção de seu filho único, o cineasta e produtor de televisão, Adolpho Rosenthal, no média-metragem Maria das Graças, que ainda não foi projetado.

Personalidade forte e desejo de um Brasil mais justo e sem dominação cultural

Para Adolpho é complicado falar de sua mãe mantendo um distanciamento, para poder enxergar a pessoa independente de filho, mas é um esforço que faz, até porque considera Vanja uma pessoa especial, diferente da maioria, principalmente por sua forte personalidade e seu jeito diferente de ser.

Ele atribui a esse jeito diferente a causa de se tornar a Vanja com destaque no campo artístico não só nacional, mas com projeção internacional, e também como participante ativa de movimentos políticos, na luta pelos direitos humanos, no momento da ditadura. Segundo Adolpho, a maior característica de Vanja, é ser uma pessoa idealista, sempre projetando um futuro melhor. “Ela sempre teve um ideal político muito coerente e está sempre engajada em algum projeto que busca uma melhoria de vida, um Brasil melhor e mais justo. No sentido artístico, planeja realizar um novo Cd e filme, sendo que sua grande luta sempre foi pela valorização da cultura nacional, através de um trabalho sério em cima do popular e folclórico”, fala com orgulho.

O público tem que ter consciência
de que existe cinema brasileiro
e se identificar com o que é nosso

Atualmente Vanja está engajada na questão da preservação da língua portuguesa, para tentar evitar a entrada de termos ingleses no Brasil, e também em outros movimentos, sempre em prol da preservação da cultura e identidade nacional. Sempre com uma proposta nova de cultura popular, durante três anos a artista desenvolveu o projeto Rio Boa Praça, espetáculos de música que aconteciam nas praças do Rio. “Fazíamos apresentações quinzenais, com o apoio da Petrobrás, em toda parte da cidade. Entre outros, participaram o João do Valle e Zé Kéti. Estava dando certo, mas, com uma mudança de governo, foi cortado”, lamenta Vanja.



 
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