Há cem anos teria início um dos processos revolucionários
mais importantes da América Latina. A Revolução Mexicana
tem sido alvo de inúmeros mitos e estigmas, em geral associados à própria
imagem do país, aos seus costumes e à luta de seu povo por liberdade
e justiça.

Pancho Villa, no Norte, e Emiliano Zapata, no Sul, jamais aceitaram depor suas
armas,
unem seus exércitos populares e tomam a capital
Muitos se lembrarão dos desenhos animados, geralmente
estadunidenses, onde aparecem caricatos mexicanos, com ar de bandoleiros, bandidos
exploradores ou arruaceiros. Quem não se lembra do Ligeirinho, do Panchito
ou do burrico Babalu? Quantas vezes vemos nos diversos meios de comunicação
referências debochadas aos cantores populares — os mariachis — ou
mesmo algum tipo de ridicularização de outro costume mexicano,
como às tortillas ou ao sombreiro? Ao fim temos uma equivocada
impressão
sobre a cultura mexicana, impressão que na maioria das vezes se estende
a História de luta do povo mexicano.
Especificamente sobre a Revolução Mexicana existe uma imagem
estigmatizada, relacionando-a a uma bárbara violência, ao atraso
e a uma "ignorância camponesa", muitas vezes apresentando Zapata e Pancho
Villa como ladrões, bêbados analfabetos, delinquentes, arruaceiros
ou simplesmente "bandidos sociais" em uma acepção pretensamente
mais intelectualizada.
Como grande parte das informações que recebemos sobre a América
Latina pela imprensa vem filtrada pelas grandes corporações imperialistas
de comunicação, não é de se estranhar que todas
as imagens que temos do México estejam carregadas de inúmeros
preconceitos.
A mentalidade colonizada de parte da intelectualidade brasileira sempre privilegiou
os acontecimentos europeus. Geralmente a história que conhecemos nos
livros escolares está tão desinteressada pela história
dos outros países que nos rodeiam que parecem mirar seus olhos na Europa
e nos USA dando as costas para a América Latina.
Afora toda a propaganda e preconceito colonialista, a Revolução
Mexicana foi um daqueles momentos que revelam muitas questões de fundo
para a história. De início poderíamos destacar o papel
dos camponeses nas revoluções da América Latina, seu potencial
revolucionário e os limites da burguesia no continente. Por outro lado,
revela fatos importantes sobre a opressão imperialista no século
XX. Por ser o país latino-americano de maior fronteira com os USA, sofreu
desde o princípio de sua história o peso do imperialismo ianque
nos destinos de sua política nacional.
Uma pequena introdução
Como aconteceu em outras partes da América Latina, a Independência
Mexicana (1821) não significou mudanças para a maioria da população.
Manteve-se sobre novas formas a estrutura social herdada do vice-reinado espanhol.
Com o crescimento do USA, seu nascente imperialismo usurparia metade do território
mexicano, onde hoje estão o Texas, Novo México, Califórnia,
Utah, Arizona, Nevada e parte do Colorado. No restante do país, o USA
exerceria — em aliança com os latifundiários nacionais
(terratenientes)
e a burguesia mexicana — influência sobre a produção
de milho, algodão, petróleo, açúcar, etc.
O imperialismo ianque não traria prosperidade e progresso para o povo
mexicano, mas ao contrário, desenvolveria a exploração
e a opressão em que viviam os camponeses, aprofundando a tendência
de concentração agrária, atacando as terras dos pequenos
camponeses e as tradicionais terras de uso coletivo das comunidades indígenas.
Entre o final do século XIX e início do século XX, as
terras mexicanas haviam sofrido uma enorme concentração, aumentando
a quantidade de camponeses sem-terra e alargando a extensão das fazendas
de cana de açúcar e algodão. Tanto o regime de Porfírio
Diaz, no poder por mais de 30 anos e em seu sétimo mandato, mas principalmente
a usurpação das terras dos pequenos agricultores geraram o pano
de fundo para a rebelião.
Conseguindo reunir as frações da classe dominante descontentes
com o governo de Porfírio Diaz em torno de um programa de reforma liberal
e renovação política, Francisco Madero promete restituir
as terras aos indígenas e camponeses pobres obtendo apoio de um numeroso
contingente popular para a eleição presidencial de 1910. Madero é perseguido
e a eleição é fraudada. Consumada a impossibilidade de
transição pacífica, Madero convoca a população à luta
armada. Diversos grupos respondem ao chamado de Madero, Diaz renuncia e são
convocadas novas eleições em 1911, onde Madero consegue 98% dos
votos. Entre os que atendem ao chamado às armas de Madero estão
dois generais revolucionários que ficariam conhecidos em todo mundo,
Emiliano Zapata e Francisco Pancho Villa.
Derrubado Porfírio Diaz, Madero não cumpre as promessas de "tierra
y liberdad" reivindicadas pelo programa de revolução agrária
zapatista. Novamente os exércitos camponeses se levantam em armas, desta
vez contra Madero. Nesse ínterim Madero é assassinado no episódio
que ficaria conhecido como La Decena Trágica (1913).
O general Huerta assume a presidência. O governador de Coahuila, eleito
durante a presidência de Madero, Venustiano Carranza centraliza o movimento
contra Huerta, formando o constitucionalismo. As forças constitucionalistas
estavam divididas entre os exércitos do Noroeste, comandados por Obregón,
do Nordeste por Pablo González Garza e a Divisão Norte, comandada
por Pancho Villa. Carranza, como primeiro-chefe, centraliza o movimento, reinvindicando
a volta da constitucionalidade, usurpada por Huerta. Independente das forças
constitucionalistas, o Exército do Sul, liderado por Emiliano Zapata
controla regiões do Centro-Sul, exigindo o cumprimento do Plano de Ayala,
o programa zapatista de Revolução Agrária.
A tomada da capital
Os revolucionários avançam em direção à capital
mexicana derrotando as forças federais do governo. Entre os constitucionalistas
existiam muitas diferenças sobre os rumos da revolução.
Enquanto para Carranza o importante era o restabelecimento da lei e da ordem,
para Villa era importante que as lutas contra o governo Huerta significassem
mudanças sociais, particularmente a distribuição de terras
aos camponeses.
Como aconteceu em diversos momentos revolucionários da história,
os primeiros estalos da Revolução nasceram de disputas entre
as classes dominantes. Para engrossarem seus exércitos com contingentes
populares necessitavam fazer algumas concessões e elaborar algumas promessas
de mudanças sociais. Chegada a hora da conquista do poder, os chefes
burgueses colocam primazia na "governabilidade", abandonam as promessas,
desarmam as forças populares e passam a repressão.
Durante a Revolução Mexicana por diversos momentos as coisas
pareceram caminhar nesse sentido, à diferença que Villa e Zapata
jamais aceitaram depor suas armas, e particularmente Zapata jamais aceitou
negociar ou abrandar o conteúdo revolucionário do Plano
de Ayala .
Sem um consenso programático entre as diversas forças revolucionárias, é acertada
uma convenção na cidade de Aguascalientes, às portas da
Cidade do México, a fim de definir um programa comum. Carranza abandona
a convenção, Zapata e Villa selam uma esperada união entre
seus exércitos populares e tomam a capital. Esse é o momento
de auge da Revolução Mexicana, expresso nas palavras de Gilly
da seguinte maneira:
"A ocupação da Cidade do México
pelos exércitos
camponeses é um dos episódios mais belos e comovedores de
toda a Revolução Mexicana, expressão precoce, violenta
e ordenada da potência das massas que têm deixado até hoje
sua marca no país, e um dos alicerces históricos onde se
afirmam, sem que reveses, traições, nem contrastes possam
remover o orgulho e a altivez do campesinato mexicano ." | (GILLY, 1980,
p. 141)
Zapata e Villa representavam as forças camponesas da revolução,
Villa a força militar mais importante, que avançando desde o
norte havia destroçado o exército federal. Zapata conquistara
uma importante parte do país, região de forte tradição
camponesa, antigo território asteca e sustentava o cumprimento rigoroso
de uma revolução agrária. O encontro entre os dois era
muito aguardado e significava o avanço dos interesses populares no processo
revolucionário.
Derrota e repressão
Embora tivessem tomado o poder, não conseguiram erguer um novo. Carranza
e os outros generais constitucionalistas conseguem aproveitar a situação
nas regiões onde ainda mantinham o controle. Estabeleceram o reconhecimento
do Governo de Carranza pelo USA, aproveitaram o período da 1ª Guerra
Mundial para desenvolver a exportação e conseguir recursos, ampliaram
alianças com os latifundiários que temiam os exércitos
camponeses e prometeram algumas medidas populares como 8 horas de trabalho,
sufrágio universal e reforma agrária. Depois de algumas batalhas,
o general constitucionalista Obregón consegue vencer os exércitos
da Convenção dirigidos por Villa. A partir de 1915 a correlação
de forças muda, Villa é derrotado em Bajio e fracassa em tomar
a cidade petrolífera de Tampico, retornando a Chihuahua, no norte do
país, para manter a resistência e as forças zapatistas
são obrigadas a retroceder a Morelos.
Sob o governo de Carranza, em 1917 é promulgada uma constituição
reformista e o governo concentra seus esforços na repressão aos
movimentos camponeses. Zapata seria emboscado e assassinado em 1919 e Villa
morreria anos depois.
As aspirações de transformação social radical
seriam reprimidas ao longo de inúmeros governos que oscilaram entre
repressão e política populista, reestruturando o velho Estado
mexicano sob novas formas, mantendo a desigualdade, a pobreza e a subjugação
do país aos interesses do latifúndio e do imperialismo ianque.
A Revolução Mexicana não alcançou a palavra de
ordem zapatista de "tierra y liberdad" e muito menos o socialismo, que triunfaria
pela primeira vez no mundo com a Revolução Bolchevique de 1917.
Mas longe de ter significado uma rebelião de bandidos ou de atrasados
camponeses, foi a primeira revolução do século XX, com
um avançado programa de Revolução Agrária, o Plano
de Ayala, aplicado nas regiões controladas pelos revolucionários
camponeses enquanto conseguiram manter o poder.
Seu legado é enorme, inspira a rebeldia de seus compatriotas, nos demonstra
a capacidade dos camponeses latino-americanos de armas em punho de defender
seus direitos e apresenta os limites que uma Revolução Agrária
pode ter sem uma aliança com o proletariado.
O historiador argentino Adolfo Gilly, em seu livro A revolução
interrompida, nos apresenta uma visão do processo mexicano
ao encontro das aspirações socialistas que se concretizavam
em 1917 na Rússia, mas que seria interrompida pela traição
da burguesia mexicana em aliança com o governo do USA, bem como pelos
limites programáticos e a direção regionalista camponesa.
A ligação entre os acontecimentos do México e a Revolução
Russa foi feita pelo próprio Zapata, que não teve a oportunidade
de conhecer a experiência soviética por mais de um par de anos,
mas claramente manifestou simpatias pelos revolucionários russos em
uma carta ao General Genaro de 1918:
"Muito ganharíamos, muito ganharia a humanidade
e a justiça,
se todos os povos da América e todas as nações da velha
Europa compreendessem que a causa do México Revolucionário
e a causa da Rússia são e representam a causa da humanidade,
o interesse supremo de todos os povos oprimidos. (...) Aqui como lá,
existem grandes senhores, desumanos, gananciosos e cruéis que vêm
explorando de pais a filhos até a tortura as grandes massas camponesas.
E aqui como lá os homens escravizados, os homens de consciência
adormecida, começam a despertar, a sacudir-se, a agitar-se, a castigar.
(...) Não é de se estranhar, pelo mesmo, que o proletariado
mundial aplauda e admire a Revolução Russa, do mesmo modo que
outorgará toda a sua adesão, sua simpatia e seu apoio a esta
Revolução Mexicana, ao dar-se cabal conta de seus fins" | (Carta
de Emiliano Zapata ao General Genaro Amescua, Tlaltizapán, Morelos,
em 14 de fevereiro de 1918).
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Referências :
BORQUEZ, Rodolfo Bustos (org.). Revolução Mexicana:
Antecedentes, desenvolvimento e consequencias , São Paulo: Expressão
Popular, 2008.
CHÁVEZ, Alicia Hernandez. México, Breve Historia Contemporánea ,
México, D.F.: FCE, 2000.
GILLY, Adolfo. La Revolución Interrumpida: México,
1910-1920: Una guerra campesina por la tierra y el poder , Mexico, D.F., El
Caballito, 1980.
HERZOG, Jesús Silva, Breve Historia de la Revolución
Mexicana ,
México, D.F.: FCE, 1960.
_____. El agrarismo y la reforma agraria: Exposición y critica, México,
D.F: FCE, 1959.
REED, Jonh. México Rebelde , Rio de janeiro: Civilização
Brasileira, 1968.
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