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Preparo físico no esporte de alto rendimento

Durante os seus 112 anos de existência, o basquete, tanto quanto o futebol, passou por diversas transformações. Sendo o Brasil um dos primeiros países a ser apresentado ao basquete, não é de se estranhar que aqui o esporte tenha construído uma grande história. O norte-americano Augusto Shaw foi quem, em 1894, trouxe para cá o recém-criado "esporte coletivo". Assim que chegou ao país, a nova modalidade foi aprovada pelas desportistas brasileiras, mas teve a sua difusão inicial entre os homens um pouco emperrada, em parte, pela concepção —mais atrasada da que vigora hoje sobre matrimônio, família e o papel da mulher na sociedade —, tendente a negar prerrogativas e direitos atribuídos aos homens. Outro grande concorrente ao basquete foi o futebol que chegou ao país, no mesmo ano, trazido pelo inglês Charles Miller e se tornou mania entre os homens.

Em 1896, apesar de tanta resistência masculina, formou-se a primeira equipe de basquete do Colégio Mackenzie, de São Paulo. Mas o grande boom do esporte aconteceu em 1913, quando foi introduzido no América Futebol Clube, o primeiro clube carioca a adotar o basquete. As regras foram traduzidas para o português só no ano de 1915, a partir de então as transformações na modalidade foram diversas.

Assim como em outros esportes, desde o seu nascimento, o basquete vem passando por grandes evoluções, tanto na sua maneira de jogar, com nas suas regras. Sem dúvida, as modificações mais importantes aconteceram na parte física dos atletas que praticam o esporte.

Considerado um dos mais importantes jogadores do basquete brasileiro, Zenny de Azevedo, mais conhecido como Algodão, aponta muitas alterações no esporte há cinquenta anos.

"Antigamente a gente jogava por amor. Na minha época, um jogador com 1,85m tinha condições de jogar em qualquer equipe. Hoje os clubes só aceitam atletas com mais de 1,90m" — afirmou Algodão, que apesar de ter conquistado onze títulos estaduais, três brasileiros e um pan-americano, não fez fortuna e ganha a vida atualmente dando aula de basquete em uma faculdade no Rio de Janeiro.

Agora, tudo é levado em consideração na preparação de um jogador de basquete. O que era simples no passado tornou-se uma engrenagem altamente complexa. Para entendermos melhor esse novo sistema adotado, é preciso conhecer uma característica muito importante na estrutura de todo e qualquer esporte. Essa característica é a impetuosa busca de recordes e a superação de limites, aliadas, agora, à intensificação das cargas de treinamento e de competição. Como consequência desse aumento da intensidade dos treinamentos é cada vez maior a procura de jovens capazes de suportar cargas máximas na prática do esporte.

Na tentativa de alcançar um rendimento superior passou a ser adotado o treinamento de longo prazo, onde todos os detalhes possíveis são levados em consideração na preparação do atleta. Inúmeros são os aspectos analisados: desde a herança genética, passando pelo rendimento em quadra, até o lado psicológico de cada jogador. Quem acompanha o esporte das arquibancadas não imagina como é feita a preparação de um jogador. No basquete, o atleta corre no máximo a quadra inteira e as atividades se concentram na explosão de velocidade e de força, mais do que de resistência aeróbica, que também é exigida. Esse treinamento de resistência aeróbica depende de dois ciclos: o macro e o micro. Doutor Ricardo Minur Nahas, membro da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, explica que durante o ano inteiro em que uma equipe treina com o objetivo de disputar a final de um campeonato passa pelo macro ciclo da preparação física. Já os períodos das competições são os micros ciclos, onde o objetivo é a manutenção da parte física do atleta.

Inúmeros são os aspectos analisados:
desde a herança genética,
passando pelo rendimento em quadra,
até o lado psicológico de cada jogador


Nos períodos que antecedem as competições, o treinamento é realizado com base nos fundamentos do esporte, como a velocidade e a precisão de arremessos, sem ainda se preocupar com possíveis esquemas de jogo, objetivando apenas proporcionar condições para o corpo do atleta resistir durante a disputa dos jogos. Quando chega a época de competições, o trabalho físico consiste apenas em treinos táticos com bola. Nesse momento, podemos notar uma preocupação que não se tinha no passado: o equilíbrio entre a parte técnica e física. Hoje está comprovado que a partir do momento em que o condicionamento físico diminui, a técnica aumenta, evitando assim uma sobrecarga de trabalho no corpo do jogador.

Safra e aperfeiçoamento

O aperfeiçoamento da técnica contribuiu para que várias concepções sobre preparação física dos atletas fossem derrubadas. Entre elas está a diferenciação no treinamento de homens e mulheres. O doutor Nahas explica que não há diferença alguma na preparação física de atletas de sexo diferente. Os métodos utilizados são os mesmos, havendo alteração somente no que se refere à fisiologia de cada sexo.

Mas a grande diferença que se acentua no basquete é a condição física. Com o seu desenvolvimento, veio também a profissionalização do esporte e uma enorme procura de jovens atletas em busca de remuneração e sucesso. De tempos em tempos, uma nova safra e novos métodos, maior desempenho e técnicas sofisticadas. Essa procura intensa fez com que os clubes adotassem o sistema de testes para selecionar os seus futuros jogadores, denominado pelos desportistas de "peneira". Técnicos mais experientes afirmam que as peneiras passaram a ser realizadas há uns dez anos no Brasil e alertam que para ser aprovado nesse verdadeiro vestibular, o jovem atleta depende tanto de suas habilidades com a bola, quanto de sua estrutura física. Além disso, para ser um bom jogador é preciso trazer algumas características especiais: altura, habilidade, espírito de trabalho em grupo e perseverança. A peneira consiste em uma avaliação biométrica, onde são analisados o peso e a altura do candidato. Depois, é realizado um treino com bola para o candidato mostrar suas habilidades e grau de conhecimento do esporte. Quem é aprovado, logo começa a participar dos treinamentos com a equipe do clube.

O aperfeiçoamento da técnica contribuiu para que várias concepções s
obre preparação física dos atletas fossem derrubados.
Entre elas está a diferenciação no treinamento de homens e mulheres


Todo esse desejo dos jovens em começar logo uma carreira como jogador de basquete fez com que os especialistas em medicina esportiva passassem a se preocupar ainda mais com a idade certa para se iniciar no esporte. Muitos médicos consideram que a idade ideal para se iniciar uma atividade física é antes da adolescência.Neste período a criança passaria apenas pelo aprendizado motor, tendo seu primeiro contato com a bola, aprendendo como arremessar e correr. A especialização, em qualquer esporte, deve acontecer somente na adolescência.

Uma especialização prematura faz com que o atleta adquira vícios de movimentos repetitivos, que futuramente podem prejudicar outras coordenações motoras. Muitos clubes ainda não se importam com o trabalho realizado nas suas divisões de base. As crianças de 12 ou 13 anos que iniciam sua vida esportiva nos clubes devem primeiramente aprender os movimentos básicos do esporte e não dar tanta importância ao condicionamento físico. Em outras palavras, é o momento da criança ter contato com a parte técnica e prática do basquete, fazendo com que seja aprimorada a habilidade com a bola e o arremesso. A preparação física deve ser específica para a sua idade, deixando as altas cargas físicas para mais tarde.

Todas essas preocupações com a estrutura física dos jogadores, mesmo no início de suas carreiras, são uma prova evidente de que houve um gigantesco progresso no esporte. Muitas vezes esse progresso não é percebido por quem não acompanha o esporte e sua história, mas fica claro dentro das quadras. Para o ex-jogador Vicente França as mudanças são muito significativas, desde que iniciou sua carreira há 50 anos. O ex-armador do Palmeiras lembra que quando começou a praticar, o esporte não tinha nenhum tipo de remuneração. Nessa época, o jogador recebia da prefeitura de São Paulo um emprego, onde tinha seu horário de treinamento estabelecido, mas somente os jogadores que necessitavam eram remunerados. Outro ponto marcante na carreira de Vicente França é a preparação física da época: "Antes dos jogos só treinávamos a parte tática, não se tinha nenhuma preocupação com fundamentos. Antes de um jogo era treinado o esquema tático que seria usado contra o adversário e mais nada. Nesta época nem havia o cargo do preparador físico, sendo o próprio técnico que se ocupava disso."

Essa diferença apontada por Vicente França é uma entre as milhares que existem. Como relatou Vicente, podemos perceber que na sua época um preparador físico não era importante para a equipe. Ao contrário do passado, hoje além do preparador físico, outros profissionais fazem parte dessa estrutura.
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