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Muito mais que uma simples enxada

A manhã ainda não chegara quando seu Antônio, dona Josefa e os meninos acordaram. Como de hábito, todos se puseram a executar as tarefas cotidianas. Enquanto os meninos tiravam água do poço, contemplavam o sol, que principiava a se mostrar, colorindo todo o nascente de vermelho e laranja, seu Antônio já está no curral e as poucas, mas bem tratadas, vacas da família, mugem, ansiosas pelas mãos que lhes irão quase esgotar o alimento de seus filhos. Mas o leite que flui de suas tetas generosas é suficiente para todos. Dona Josefa aplica força ao moinho e dali extrai o cheiroso pó de café, que irá tonificar e aquecer toda família em breve.

O sítio é pequeno, mas há muito serviço a ser feito. Organizar toda a produção, manutenção das instalações e negociar os produtos da terra. Tudo isso requer bastante força e braços, mas seu Antônio e sua família fazem isso sozinhos. Sempre fizeram.

O café está pronto. Para acompanhar, pão assado na véspera. À farinha de trigo comprada na cidade, dona Josefa adiciona um pouco de fubá feito ali mesmo, para não gastar muito. Todos se alimentam, já pensando no trabalho a ser feito. As crianças andam à cata das enxadas que irão empunhar hoje. Não irão à escola, já estão grandes (8 e 9 anos), e o pai precisa de sua ajuda para capinar o arroz, que se afoga em meio à erva daninha. Vão brincando pelo caminho, correndo, matando bichos imaginários com uma espingarda também imaginária e troçando um do outro, sob os olhos atentos de seu Antônio, que não se conforma de precisar do trabalho dos pequenos, uma vez que tanto lutou para que tivessem melhor infância que a dele.

Dona Josefa permanecerá. A seu cargo ficam a arrumação da casa, o trato dos pequenos animais, a rega da pequena horta e o preparo do almoço, que ela mesma fará chegar aos seus. Toda vida fora assim, e ela se lembra do tempo em que era filha e fazia as mesmas coisas na casa paterna. Sonhando, se casou e pensava se livrar ou amenizar o castigo, mas a vida seguiu o mesmo rumo em nova família. Quando chegam ao arrozal, seu Antônio e os meninos contemplam a roça. A olhos desabituados, as folhas da erva se confundem com as do arroz, mas os olhos experimentados de seu Antônio distinguem bem uma e outra. Olhando assim, de cima, a roça é plana, verde e uniforme qual um tapete, mas esconde os tocos das árvores derrubadas, que atravancam os caminhos e têm que ser pulados pelos camponeses durante o dia todo, aumentando o esforço e diminuindo o rendimento do trabalho. Era muito caro mecanizar a terra e a saída foi recorrer ao método antigo: roçada, derrubada e fogo. Se tivesse sorte, restaria pouca coisa para estorvar o trabalho. Não teve.

Divididos, começam a capina e seu Antônio pensa que sempre foi assim. Toda sua vida labutara na terra. Começara ainda criança, assim como seus filhos, que agora observa com zelo e orgulho. Trabalhando em terra dos outros conhecera vários tipos de exploração: as meias, as terças, os arrendamentos mais extorsivos haviam literalmente arrancado seu sangue — como da vez em que se cortou na perna com a moto-serra e ficou 60 dias sem trabalhar e, lógico, sem receber.

Agora vive e trabalha em terra sua, conquistada de um latifúndio. À tomada da terra, sobreveio uma alegria e euforia nunca sentidas. Teriam, enfim, algo seu no qual produzir.

Será uma grande colheita. O arroz viceja e começa a soltar os cachos, que anunciam ser grandes em breve.

Arqueados sobre a enxada, os três trabalham rápidos, quase sincronizados e aos poucos o mato se deita sob os golpes certeiros, que nunca precisam ser desferidos no mesmo lugar, mas sempre em frente. Depois de ceifado, o mato é enrodilhado na enxada e deita em pequenos montes, já livres da terra e com as raízes para cima, para evitar a rebrota. Esse movimento complexo é executado como se a enxada fosse uma extensão do braço dos camponeses, e realmente é. As crianças faziam isso há pouco tempo, ao contrário do pai, mas já achavam a posição e o movimento natural — se acostumaram a ele, é o mais produtivo.

Já atingiam um terço da tarefa quando chegaram os visitantes. Uma comissão multidisciplinar, composta de médicos ortopedistas, educadores físicos e fisioterapeutas, desenvolvera uma pesquisa sobre ergonomia. Os técnicos haviam sido convidados pela associação dos pequenos produtores rurais do município e se apresentaram para aplicar seus estudos. Entre outras atividades, haviam pesquisado a posição e os movimentos em que os camponeses usavam suas ferramentas, principalmente a enxada, e ansiavam por transmitir seus conhecimentos, numa tentativa de levar a ciência aos camponeses.

Seu Antônio os recebeu com muita simpatia e alguma reserva. Os técnicos pediram que seu Antônio continuasse a trabalhar para ser observado e os três se puseram a capinar como se não houvesse mais ninguém ali. Quando pararam, ouviram atenta e pacientemente os técnicos, que lhes diziam ser a posição em que manejavam a enxada prejudicial à saúde. Diziam isso honestamente e sem má fé. A coluna cervical é a mais afetada pela posição, que a obriga a ficar em forma de arco, podendo desenvolver uma cifose, que é o desvio da coluna para frente. De fato, seu Antônio sofria de uma dorzinha enjoada há muitos anos. Enquanto ouvia isso, seu Antônio pensava nesse e nos outros trabalhos que tinha que fazer. Dali a alguns dias, o arroz iria ser colhido manualmente, As hastes da planta seriam cortados por cutelos afiados que obrigariam a família a trabalhar ainda mais curvada. Depois de seco nos tocos da roça, os feixes seriam batidos em um tipo de mesa feita de varas para soltarem os grãos. Aparados em um pano, os grãos seriam ensacados e transportados nas costas de seu Antônio até a estrada. O educador físico explicava a seu Antônio que seria melhor que eles usassem uma enxada com o cabo mais longo e que fizessem movimentos mais largos, de modo a permanecer com as costas mais eretas, corrigindo a postura.

Seu Antônio parecia concordar com um movimento de cabeça e pediu a palavra. Começou dizendo que era verdade o que os técnicos diziam quanto à posição, que realmente lhe fazia mal, mas que toda sua vida fora obrigado a trabalhar assim. Trabalhar como queriam os pesquisadores exigiria dele um esforço ainda maior e mesmo assim não conseguiria fazer tanto quanto fazia da maneira tradicional. Fora assim quando era empregado e meeiro e era assim agora, na sua terra. Os meninos se entreolhavam, como a indagar quem convenceria quem, e achavam curioso que seu pai, em geral afetuoso, mas calado, debatesse tão acaloradamente com aqueles estranhos.

Seu Antônio se esforçava, com seu jeito simples, por convencer a comissão de que queria que seu sítio fosse mais produtivo, que queria se libertar da “dorzinha”, que sua mulher não trabalhasse tanto, que seus filhos estudassem, mas não tinha jeito, as condições materiais de sua vida eram aquelas.

Os técnicos insistiam, dizendo que para todos os trabalhos existiam posições mais adequadas e que diminuiriam as dores provocadas por posturas erradas. A resposta de seu Antônio foi direta:

— Vocês não estão entendendo. O que eu preciso não é trabalhar em outra posição ou de uma enxada melhor, eu preciso é de um trator.

E todos caíram na gargalhada. 

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