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| Prudência é saber antecipar as consequências |
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| Rui Nogueira* | |||
Gostoso é viver Coca!
Concluímos pela generalização do uso da palavra coca na divulgação do refrigerante, no instante em que havia uma geladeira das grandes com porta de vidro cheia de sucos e bebidas com a sua lateral com enorme letreiro: Gostoso é Coca! A publicidade sempre visa inundar as mentes das pessoas com nomes curtos, de fácil memorização, acoplados a frases de forte apelo emocional. Isto automatiza as decisões das pessoas que escolherão os produtos de consumo em função das emoções agradáveis que foram registradas na memória, junto com a propaganda. "Coca" é uma palavra forte, com fonemas vigorosos, portanto, com amplas condições de ser gravada solidamente nas memórias. Será que estão fazendo um "balão de ensaio", experiência para testar o efeito, a repercussão e a reação da sociedade ante a substituição da tradicional propaganda Coca-cola por um vocábulo mais curto e mais vigoroso? Numa época em que o mundo se preocupa com o problema das drogas, sendo a cocaína — coca -uma das mais preocupantes, há que se fazer uma reflexão sobre o uso da expressão "coca" num refrigerante tão aceito e usado pelas crianças. A conotação dúbia que a palavra — coca — adquire, uma comercial e outra extremamente perigosa, ambas envolvendo a juventude, é preocupante. Num olhar desavisado isto pode não parecer importante, mas é necessário recordar algumas situações do dia-a-dia para análise. Uma sorridente criança de três anos se alegra com a aproximação de uma tia querida. Quer coca ?, pergunta à criança. "Coca" é oferecida como delícia das delícias, prêmio e cortesia para agradar à criança. Há uma evidente simpatia. As emoções que envolvem a criança são agradáveis, prazerosas. Vem a festa de aniversário e a mãe, toda alegre, exclama: Quem quer coca? No fim de semana o almoço é sempre na casa da avó. Alegria geral, os primos brincando. Meninada, quem vai querer coca? No ouvido interno (memória) de todos nós estão gravadas as vibrações que representam a palavra, envolvidas pelas auréolas de prazer ou desprazer dos momentos em que se fixaram. As vibrações que representam a palavra "pancada" em geral trazem conotações de dor, "limão" traz um sentido subjacente de azedo, "abraço" se liga a ternura e amizade. Desta forma, "coca" está na memória da criança com o sentido subjacente de coisa boa. Assim, a palavra vai estimulando o uso crescente da coca. Agora, as propagandas ressaltam: Coca é viver bem! Gostoso é Coca! Hoje, criança, amanhã será adolescente! Que reações serão criadas no subconsciente do agora adolescente ao chegar em sua memória do ouvido interno uma oferta de "coca" que não é o refrigerante? Por que, para agradar as crianças, não oferecem leite ou uma fruta? Isto não acontece habitualmente e não há trabalho educativo porque a intensa propaganda desvia a atenção dos alimentos saudáveis para o consumo supérfluo. Há distorções dos valores das coisas. Uma mistura de água, gás e um xarope misterioso, não pode ser "prêmio" para uma criança, no lugar dos esquecidos sucos e frutas que seriam mais naturais e saudáveis. Por que permitimos que as nossas crianças e jovens fiquem com uma memorização de refrigerante que possibilita a aceitação de droga perigosa — coca? Além disso, haveria a economia de muitos milhões de dólares que são remetidos para o exterior em lucros, direitos de uso da marca e outros artifícios, por um produto que não contribui para a saúde humana. Prudência é saber antecipar as consequências. *Rui Nogueira é médico e escritor. Autor de Servos da moeda; Nação do sol; Amazônia, império das águas e Petrobrás, orgulho de ser brasileira.
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| Nº 89, maio de 2012 |
| Edición en español |