Césio 137 Ainda faz vítimas em Goiânia

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ADefesa Civil levou os moradores de toda a área para o Estádio Olímpico
Novos casos de câncer aparecem em Goiânia em consequência do acidente ocorrido em setembro de 1987, quando catadores de papel violaram a cápsula de césio 137 de um aparelho “esquecido” pelos proprietários do Instituto Goiano de Radiologia (IGR) ao transferirem sua empresa de uma área antes ocupada pela Santa Casa da Misericórdia.

Desde então, o Tesouro goiano paga pensão a dezenas de famílias atingidas pelo acidente, mas agora se avolumam os requerimentos dos descendentes das vítimas originais, mulheres que estavam grávidas, crianças nas quais a doença tardou a se manifestar, policiais militares e bombeiros que participaram de operações de triagem. A “despesa” aumenta, o governo estadual estrila; o federal silencia.

Físicos da Universidade Federal Fluminense (UFF) constataram que hoje os níveis de césio, em Goiânia, permanecem abaixo do limite máximo ao que um ser humano pode se expor à radiação. Entretanto, em 2001, eles localizaram duas goiabeiras contaminadas, com índices acima do considerado normal para plantas e pediram à Comissão Nacional de Energia Nuclear a retirada das árvores. Isso significa que o césio contaminou a árvore quando do acidente e, ao percorrê-la pela seiva, foi se depositando até chegar às folhas. As goiabeiras foram arrancadas em outubro daquele ano.

Já em setembro de 2002, pesquisa realizada pelo jornal O Popular revelou que, em 100 pessoas envolvidas de alguma forma com aquele acidente, 92 apresentavam doenças relacionadas à radiação. A deputada estadual Carla Santillo, filha do então governador do estado, Henrique Santillo, já falecido, acusa o governo federal de total omissão no socorro financeiro às famílias e ao estado, afirmando ainda que durante todo esse tempo a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnem) limitou-se a depositar o lixo radiativo em Abadia de Goiás, um município próximo à capital goiana, e permanece despreparada para agir com eficácia se as circunstâncias se repetirem.

Uma nota técnica da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), datada de 19 de dezembro de 2001, informava que, até aquele momento, 621 pessoas tinham sido “caracterizadas como expostas ao césio 137. Destas, 104 foram vítimas diretas do acidente e outras 517 sofreram exposição posterior”, e destacava: “Estima-se que, a partir do próximo ano (2002), quando completam 15 anos de acidente, haja um crescimento da taxa de incidência de câncer nessa população”. É o que parece estar acontecendo.

O cientista injustiçado

O homem que evitou um mal maior — o geólogo mineiro Sebastião Maia, à época gerente da Nuclebrás — só agora teve seus méritos reconhecidos, com a aprovação, pela Assembléia Legislativa, de projeto de lei que lhe concede o título de Cidadão Goiano. Mas, quando era o único a dispor de um medidor de radiação capaz de provar a gravidade do acidente e ajudar os médicos na formulação do diagnóstico (os sintomas se assemelhavam aos da intoxicação por alimentos), foi punido com afastamento do cargo e disponibilidade por ter usado os instrumentos de medição sem autorização das autoridades militares e civis.

O semanário Opção, que circula em Goiânia, fez recentemente um balanço das sequelas do acidente, concluindo que, entre mortos e feridos, alguns se deram bem, a exemplo de José Júlio Rosenthal (o diretor da Cnen que deveria vigiar a cápsula de césio), bastante aplaudido na Assembléia Legislativa, ao finalizar emocionado discurso, logo depois de virar Cidadão Goiano e contribuir para a punição de seu subordinado, Sebastião Maia.

Aviso prévio

Duas instituições — a Cnen e o Tribunal de Justiça de Goiás — sabiam que o IGR estava transferindo seus equipamentos. O Opção apurou agora que, dois anos antes do acidente, os proprietários do Instituto Goiano de Radioterapia comunicaram ao superintendente de fiscalização daquela Comissão, José Júlio Rozenthal, que estavam mudando de endereço e pediam autorização para substituir a bomba de césio por outra, de cobalto. A responsabilidade pela fiscalização de equipamentos radioativos é da Cnen, levando em conta que a atividade nuclear no Brasil é monopólio da União. Havia também uma pendência judicial entre o IGR e a Conferência São Vicente de Paula, ligada à Santa Casa, então proprietária do terreno, assim como o Ipasgo (Instituto de Previdência e Assistência Social do Estado de Goiás). Ao saber que um dos donos do Instituto Goiano de Radioterapia, médico Carlos Figueiredo de Bezerril, iria retirar objetos daquele local, em maio de 1987 a diretora administrativa do Ipasgo, Saura Taniguti, recorreu à Justiça para impedi-lo através de força policial.

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Como nada aconteceu, no dia 6 de setembro de 1987, um domingo, os catadores de sucata Roberto Santos Alves e Wagner Motta pegaram o equipamento abandonado, abriram a golpes de machado a cápsula de césio e o mundo desabou sobre Goiânia.

A dupla deu tanta pancada na cápsula que dela saiu um pó esverdeado. Uma hora depois, Roberto começou a perceber que alguma coisa estava errada. Suas vistas se embaralharam e ele teve náuseas. Wagner começou a sentir os efeitos aos poucos. Eles vieram e em grande quantidade. Só que ele achava que tudo tinha uma explicação. No dia 13 de setembro, oito dias depois de seu primeiro contato com o césio, por exemplo, ele vomitou, mas já tinha um diagnóstico: comera manga com coco, e estava com intoxicação alimentar.

As autoridades sanitárias se defrontaram com a verdade quando a dona de casa Maria Gabriela, integrante da família dos catadores, levou uma garrafa de Coca-Cola irradiada ao Serviço de Vigilância Sanitária de Alimentos, e informou ao médico Paulo Roberto Monteiro que “todo o povo lá de casa estava ficando doente”. Desconfiado de que havia intoxicação demais, o médico procurou seu velho amigo e vizinho, Sebastião Maia, pedindo-lhe para levar o medidor de radiatividade à sua sala. Não foi necessário ao geólogo, entretanto, nem se levantar da cadeira. Bastou ligar o equipamento para comprovar que Paulo Roberto Monteiro já apresentava sinais de irradiação pelo césio. Disse-lhe para ir para casa, tomar um bom banho com sabão neutro, jogar as roupas fora, e voltar.

Com o retorno do médico, a dupla foi de carro para o Serviço de Vigilância Sanitária. Conta Sebastião: “Já a cerca de três quadras do local todos os alarmes soaram. Não havia dúvida que a irradiação estava se espalhando por toda a área.”

Avisado, o secretário de Saúde, Antonio Faleiros, comunicou imediatamente o fato ao governador, Henrique Santillo, que antes de falecer em 25 de junho de 2002 deixou contra o governo federal um libelo acusatório jamais respondido.

A equipe do Corpo de Bombeiros cogitou jogar a peça que abrigava o césio em um rio ou qualquer outro lugar. A Defesa Civil providenciou para que os moradores de toda a área fossem levados para o Estádio Olímpico. Era a hora que ninguém imaginava que pudesse chegar: o momento de tirar do papel o Plano de Emergência da Cnen e da Defesa Civil.

O jornalista Weber Borges, autor do livro Eu também sou vítima, onde relata o acidente, destaca que “na madrugada de 30 de setembro, José Júlio Rozenthal, chefe de fiscalização da Cnen, desembarcava em Goiânia com o rosto crispado pela preocupação. Foi direto para o Instituto Goiano de Radioterapia, a uma hora da manhã. Seus equipamentos de medir radioatividade já tinham disparado. Às duas e meia estava no Estádio Olímpico, para onde tinham sido levados os contaminados. Chorou pela primeira vez, ao ver os rostos insones, carregados de angústia e medo.”

Com a imprensa sensacionalista louca para achar um culpado, no dia 9 de outubro o Jornal Nacional, da Globo, noticiava que o então presidente José Sarney queria a prisão dos envolvidos no acidente. A Polícia Federal fechou o aeroporto “para evitar a saída dos envolvidos”. Dois dias depois, o mesmo programa mostra documentos sobre o caso e o promotor público Sullivan Silvestre, mais tarde morto em um acidente de avião, diz estar procurando os grandes responsáveis pelo acidente: “E iremos prendê-los”, completava. Mais cinco dias, e o então governador de São Paulo, Orestes Quércia, anunciava a identificação de seis focos de radioatividade provocados pela importação de papel de Goiás, nas cidades de Valinhos, Osasco, Araras, São Carlos e Cordeirópolis.

Condenação dos responsáveis

Quase nove anos depois do desastre, os médicos Bezerril, Criseide Castro Dourado e Orlando Alves Teixeira, mais o físico em medicina, Flamarion Barbosa Goulart, funcionário do IGR, foram condenados a três anos e dois meses de prisão. Como tinham bons antecedentes, puderam usufruir do regime aberto. Outro sócio do instituto, Amaurílio Monteiro de Oliveira, conseguiu não ser condenado: a punição havia prescrita.

Durante quase seis meses, os condenados dormiram junto a outros presos comuns na Casa do Albergado Guimarães Natal, em Goiânia. Podiam sair durante o dia e depois trocaram o resto da pena por prestação de serviços à comunidade.

Pouco se sabe sobre os médicos que se envolveram no episódio, principalmente aqueles que atenderam os pacientes que tiveram acesso direto à fonte de césio.Todos os que tiveram contato com a fonte (e estes eram apenas os piores casos) fizeram uma verdadeira romaria de hospital em hospital, de clínica em clínica, atendidos ora por um, ora por outros, demorando na explicação dos vários problemas, passando por avaliações minuciosas. Ninguém jamais se referiu ao acontecido com os médicos que atenderam as vítimas.

O médico Imar Crisógno Fernandes, major da Polícia Militar, foi um dos que atendeu não um, mas 10 irradiados de uma só vez, sem que lhe tivessem contado qual era o verdadeiro problema da sua clientela. Os pacientes queixavam-se de dor de cabeça, cansaço, náuseas e vômito, e ele acreditava na versão oficial: todos estavam intoxicados, sim —devido a um vazamento de gás. Nove dias depois de aberta a cápsula, Wagner, que quebrara a cápsula de césio junto com Roberto, foi internado no hospital. Em 21 de setembro, o médico Emiraldo Soares,do Hospital São Lucas, atendeu a Maria Gabriela Ferreira, filha de Devair Alves Ferreira, que havia comprado a peça de césio de Roberto. Ele permanecera 19 dias em contato com o césio. A mãe, também chamada Maria Gabriela, que dormira com a filha durante alguns dias ao lado de fragmentos de césio espalhados pelo chão, recebeu, inicialmente, diagnóstico de desidratação. Foi Dona Maria Gabriela que possibilitou a identificação do acidente por Paulo Roberto Monteiro e Sebastião Maia.

Semanas depois, outra fase do pesadelo. Os técnicos da Cnen descobriram que os hospitais estavam cheios de radiação. Os tambores de rejeitos sólidos começaram a ser fechados no dia 1º de novembro no Hospital Geral de Goiânia. Três macacões viraram lixo radioativo dia 11 de novembro, além de duas pás, duas botas e um saco com sapatilhas usadas por médicos e enfermeiros. A situação chegou ao extremo no Hospital de Doenças Tropicais. Na enfermaria 13, o piso foi arrancado. A sala interditada e até os móveis foram para os enormes tambores amarelos do depósito permanente. Um ambulatório também estava contaminado.

Por longo tempo, foram catados focos de contaminação pelas ruas de Goiânia. A coleta incluiu cachorros das redondezas e até uma galinha que vivia na Rua 15-A Setor Aeroporto. José Júlio Rozenthal vive atualmente em Israel.

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