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| A comunidade sul-americana de nações |
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| Luis Arce Borja | |||
Integração latino-americana: quem se apropria dos benefícios?Muitos intelectuais, sem nenhuma razão, têm pretendido ver uma "identidade latino-americana", ou um "pensamento panamericano" partindo de falsas instituições de integração criadas pelas elites políticas destes países. Inclusive alguns têm conseguido ir bem longe em suas elucubrações e vêm assinalando, sem nenhum rigor, que "depois da segunda guerra mundial, os estados latino-americanos buscaram caminhos para sua autodeterminação, como sendo modelos próprios para seu desenvolvimento econômico e político através de uma coordenação das políticas econômicas entre os países latino-americanos"1.
Características semifeudais e semicoloniaisA integração latino-americana é um problema histórico-político que não será resolvido pelas classes políticas que há mais de 180 anos se alternam no poder de Estado. Não há nenhuma precisão teórica quando se diz que a burguesia e os latifundiários posam conduzir um processo democrático-burguês tendo como fim estratégico estremecer a dominação imposta pelas forças imperialistas. Por quê? Se faz necessário ver a natureza e o caráter de classe da guerra de independência. Tem relação direta com o tipo de burguesia que se desenvolveu nestes países. Tem que ver também com a anacrônica base econômica (semi-feudalidade e semi-colônia) na qual República se assegura desde sua origem. Por sua própria natureza, o que se considera "elite política" nestes países, não atuou como uma verdadeira classe burguesa. Sua atitude diante das potências mundiais é de completa submissão, e não apresenta a mínima oposição aos ditames e ordens imperialistas. Abaixa a cabeça, sem reclamar, diante do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e de outras instituições imperiais. A fortuna desta "burguesia" não se origina de seu dinamismo econômico, mas das comissões que recebe das transnacionais e do uso fraudulento e mafioso que faz do Estado. A razão que invalida qualquer passo integracionista da burguesia e dos latifundiários tem a ver com a origem histórico-política destas duas classes opressoras. Estas classes sociais que detêm o poder do Estado, desde o início do século XIX, não foram nem são portadoras de novas e superiores relações de produção, impostas durante 300 anos pelos colonialistas espanhóis. A mudança da colônia para república significou apenas a mudança de uns exploradores parasitários por outros exploradores parasitários. Se os primeiros acumulam suas imensas riquezas na manutenção de um sistema econômico anacrônico de servidão, escravista e de corrupção, os segundos sustentam suas ganâncias e suas fabulosas riquezas num sistema econômico baseado no trabalho servil, na escravidão, na semi-escravidão, na fraude e no delito financeiro cometidos desde a máxima instância de poder. A exploração e a submissão
No Peru, por exemplo, a República foi fundada em julho de 1821, mas a escravidão da população de origem africana se prolongou até 1851. Na atualidade ainda se mantêm relações de produção utilizada na época colonial. O sistema de trabalho escravo segue existindo em algumas regiões amazônicas, principais cidades do Peru, onde se calcula que próximo a um milhão de mulheres jovens, entre 12 e 30 anos, provenientes dos Andes, são obrigadas, por causa da fome e da miséria, a trabalhar de "serventes" (leia-se servas), cujos salários não passam de 5 dólares ao mês, e com o horário de trabalho que se inicia as 6 da manhã e termina a meia noite (18 horas de trabalho por dia em média). Este sistema brutal de trabalho obriga as "servas" a "viver com os patrões" (inclusive intimamente), semelhante à época da colônia, elas não possuem qualquer tipo de direito, inclusive o de não deixar-se violentar pelos patrões. Em muitos casos, a "serva" deixa de receber um salário e é considerada remunerada por simplesmente dispor da alimentação diária. As bases da gerência militar
Desde os alvores da república se impõe o caudilhismo militar ou civil, onde qualquer soldado ou civil do nível mais inferior da sociedade, reivindica o direito de sentar-se na cadeira presidencial. O Peru nos dá um bom exemplo deste trecho da história. A república peruana inicia-se em 1821 como um protetorado militar (sob a presidência do general argentino José de San Martín). Do começo até a atualidade (2005) se sucederam 99 governos, dos quais 56 foram ditaduras militares e 43 regimes civis sustentados exclusivamente pelas forças armadas. Jorge Basadre, para se referir à incapacidade e à inoperância histórica das elites políticas do Peru, compara o desenvolvimento político do Peru e do Chile. Disse o historiador que em 40 anos de vida política (1831-1879), o Chile teve 6 presidentes constitucionais, entretanto o Peru no mesmo período teve 20 "governantes interinos e causais". Anexando também que dos 20 governantes, 13 foram ditaduras que "surgiram violentamente"3. Integração sob quais condições?
Não haverá integração latino-americana à margem de uma luta tenaz contra as potências mundiais, em particular contra o USA. A luta contra o imperialismo na América Latina é ao mesmo tempo um combate contra o sistema semifeudal e semicolonial sustentado por burgueses e latifundiários da região. Estas classes perderam o passo da história e partindo, seja do aspecto econômico ou político não serão capazes de viabilizar uma unidade independente e soberana sobre as potências estrangeiras. Seus parasitários interesses de classe aparecem relacionados estreitamente com os interesses e planos de dominação das potências mundiais. A trajetória anti-histórica destas classes as colocou de costas para o desenvolvimento, o progresso e a independência. A burguesia e os latifundiários da América Latina, surgem como testas de ferro das transnacionais e do imperialismo. Estes grupos de poder não buscam sua riqueza nem na produção nem no desenvolvimento econômico e comercial do país, mas com certeza através do roubo, do suborno, do contrabando e em todo tipo de delito comum que se possa originar no aparato do Estado. Luís Arce Borja é diretor de elDiario Internacional, editado em Bruxelas, um dos mais valorosos órgãos da imprensa de novo tipo. www.eldiariointernacional.com 1. Lucimara Braite-Poplawski, Universidade de Tübingen, Alemanha. 2. Declaração de Cuzco sobre a Comunidade Sul Americana de Nações, 8 de dezembro de 2004. 3 – Jorge Basadre, História da República do Peru, tomo VIII, 1922-1933. 4 – Francisco Miranda nasceu em Caracas, em 28 de março de 1750, e morreu numa prisão na Espanha, gravemente doente, em 14 de julho de 1816, "a uma e cinco da manhã", como a história registra. "O 'precursor' da independência sul-americana dava seu último suspiro", escreve o historiador. 5 – Bartolomé Mitre, História de San Martín e da Emancipação Sul-Americana, Tomo I, Buenos Aires, 1944. 6 – José Carlos Mariátegui, O problema agrário e o problema do índio, 1928.
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Mao Tse Tung |
| Nº 89, maio de 2012 |
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