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Cesta básica de campo de concentração

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A estrela da Boa Nutrição
Durante o período em que a corrente nazista do imperialismo esteve no poder, os prisioneiros condenados a trabalhos forçados, quando não exterminados sumariamente, eram submetidos a uma dieta subumana de 200 calorias diárias. Esta realidade, no entanto, não faz parte de um passado distante e sombrio. Mesmo que atualmente a alimentação não aparente ser tão baixa em termos de calorias, é muito pobre em se tratando de nutrientes, conforme atestam os depoimentos da nutricionista Lilian Marçal dos Santos (da Universidade Regional de Blumenau) e da professora Beatriz Torres (formada em economia doméstica), assim como os métodos empregados pelas sucessivas gerências semicoloniais no Brasil.

Tendo como parâmetro a cesta básica da região 2 (norte e nordeste do Brasil), elaborou-se duas tabelas, comparando os preços fornecidos pela Fecomércio-RJ e os pesquisados numa rede de supermercados populares do Rio de Janeiro: concluiu -se que nem sequer a esta cesta básica incompleta o trabalhador tem acesso com o atual salário mínimo. A política de genocídio se apresenta da forma mais descarada, na qual a fome é o agente condutor do morticínio da população pobre, enquanto que a perda de nutrientes essenciais — gerada pela busca do lucro máximo na produção industrial de alimentos — acomete todas as classes, inclusive setores causadores desse mesmo processo de extermínio.

O decreto lei número 399, de 30 de abril de 1938, instituiu a cesta básica no Brasil. Criada para se tornar uma referência do cálculo do salário mínimo durante o governo Vargas, o decreto foi uma medida de inspiração fascista, assim como o salário mínimo, cujo objetivo era a consolidação do controle estatal sobre os salários.

Conforme demonstrado em matéria publicada na edição 21 de AND, desde sua elaboração o salário mínimo vem sofrendo uma defasagem crescente, o que o torna insuficiente para atender às próprias finalidades para as quais foi originalmente proposto. O problema também se acentua diante de novas necessidades acrescentadas pelo modo de produção, que não existiam em 1938. De acordo com o cálculo feito naquela edição, para se consumir a cesta básica proposta no governo Vargas para a região 2 (Norte e Nordeste, portanto a mais pobre) o salário mínimo deveria ser, por baixo, R$1.046. Sendo assim, com o salário de R$260 (o aumento fictício para R$300 que será dado em maio deste ano não trará nenhuma mudança significativa) o trabalhador estaria consumindo em termos de alimento quatro vezes menos do que consumia durante o período getuliano.

Assim como na matéria citada, tomamos como base mais uma vez a cesta básica elaborada para a região 2, a mais barata do país, para atualizar o cálculo da defasagem do salário mínimo, visto que, a cesta básica deveria compor uma parte substancial (variando entre 50% a 60% da composição do salário mínimo). No caso da região 2 equivale a exatos 50% do salário, sendo o restante destinado a itens como vestuário, habitação, transporte, saúde etc... É, portanto, indissociável o valor da cesta básica a estas outras necessidades vitais.

"Mas a vida implica, antes de mais, o comer e o beber, uma habitação, o vestuário e muitas outras coisas. Assim, o primeiro ato histórico é a produção dos meios de satisfazer essas necessidades, a produção da própria vida material. Este é de fato um ato histórico, uma condição fundamental de toda a história, que, hoje como há milhares de anos, tem de cumprir-se em cada dia e em cada hora, apenas para sustentar a vida humana." Marx e Engels, A ideologia alemã.

Não se trata aqui de explicar a essência da exploração do trabalho humano, mas de constatar a insuficiência de um salário, que por ser tão irrisório não consegue recompor e reproduzir sequer um terço da força de trabalho de um homem e sua família, utilizando, para tanto, referências nos preços dos produtos de extrema necessidade, estabelecidos pelas classes dominantes nativas e seus associados estrangeiros.

Cesta básica X dieta ideal

Atualmente, a defasagem chegou a tal nível que o salário mínimo é inferior à cesta básica. Para se calcular o mínimo da época de Vargas com os valores atuais, deve-se levar em conta não só o valor da cesta básica, mas o quanto ela representa na composição geral do salário. Portanto, se o valor da cesta básica é 50% do salário e atualmente vale o dobro do salário, o trabalhador não está se alimentando duas vezes menos e sim quatro vezes. Deve-se levar em conta que, além de se alimentar ele precisa morar, vestir, ter acesso à saúde, entre outros itens. Com o surgimento de novas necessidades que não existiam, ou não eram consideradas vitais em 1938, o Dieese, por exemplo, ao calcular o valor atualizado do salário mínimo considera para efeitos de cálculo que a cesta básica deve equivaler a apenas 37,5% do salário — o que aumenta ainda mais sua defasagem.

A composição da cesta básica foi feita a partir de uma pesquisa sobre os hábitos alimentares no Brasil, variando os alimentos de acordo com as possibilidades de cada região, melhor dizendo, as possibilidades de explorar o proletariado em cada região. Vale lembrar que, sob muitos aspectos, o que se chama de hábitos alimentares regionais na verdade podem advir muito mais de uma carência alimentar regional, do que de uma cultura popular genuína, sendo estes hábitos e costumes impostos pelas relações de produção locais.

Parte da cultura alimentar brasileira é originária do período da escravidão, onde o potencial energético com que abasteciam o escravo no campo (um bem semovente de custo muito baixo em determinadas circunstâncias do escravismo) era insuficiente para prolongar sua saúde. A comida significava um elenco de partes desprezadas como feijão, carne e farinha, conhecidos hoje como pratos "típicos" do povo trabalhador.

Para detectar as deficiências alimentares da cesta básica, tomamos como base os ingredientes da cesta básica da região 2, com suas respectivas quantidades mensais: 2): Carne (4,5 kg); leite (6 L); feijão (4,5 kg); arroz (3,6 kg); farinha (3 kg); legumes (12 kg); pão francês (6 kg); café em pó (300 g); frutas (90 unidades); açúcar (3 kg); banha/óleo (750 g); manteiga (750 g), comparando-os com os elementos da Tabela 1. Essa dieta básica foi elaborada pelo Departamento de Nutrição da Escola Superior de Ciências Domésticas da extinta Universidade Rural de Minas Gerais (atual Universidade Federal de Viçosa -UFV) e fornecida por uma ex-aluna, a economista doméstica e socióloga Beatriz Torres. Esta comparação originou a Tabela 2.

Pioneiro no estudo sobre a fome no Brasil, o médico e geógrafo Josué de Castro afirmou que "2.400 calorias são consideradas suficientes para o ritmo ronceiro (indolente) de vida animal que em condições precárias conduzem à morte, num clima frio ou tropical". A dieta ideal representada na Tabela 1 leva em consideração uma pessoa de vida sedentária, por isso chega a um total mínimo de 2.802 calorias.

No entanto, Josué afirmou que necessitamos de reposição "correspondente às despesas do organismo". Cerca de 3 mil calorias diárias são necessárias para os grupos humanos ocupados em trabalhos de intensidade média. Havendo diminuição nítida de suas combustões orgânicas, a vida biológica sofre retardamento.

Se avaliarmos que o trabalhador normalmente tem que caminhar uma certa distância para chegar ao transporte ou mesmo à própria empresa, além de normalmente ter um desgaste físico bem maior no trabalho do que alguém que trabalha em um escritório, por exemplo. Sendo assim, a necessidade calórica deste trabalhador ultrapassa as 2.802 calorias da Tabela 1. A nutricionista Lilian calcula que um operário destes precisaria de até 3.200 calorias para repor o que perdeu, dia após dia, na labuta. No meio rural, onde o trabalhador é exposto ao sol e às atividades pesadas durante horas, estima-se que a quantidade necessária seja de 5.000 calorias. No entanto, não são apenas as calorias ingeridas que importam, e sim os nutrientes.

Os nutrientes ingeridos

A Tabela 1 demonstra a importância dos nutrientes (protídios, lipídios, glicídios, vitaminas e sais minerais) que compõem os alimentos, conforme determina o conceito de nutrição: "O conjunto de processos — da ingestão de alimentos à assimilação pelas células — que devem satisfazer as necessidades do organismo, possibilitando o funcionamento, através dos nutrientes necessários" ao conjunto das faculdades físicas e intelectuais do homem para que ele possa seguir produzindo coisas úteis, entre elas, a felicidade humana.

No entanto, o conhecimento sobre a importância dos alimentos e suas funções no organismo não é difundida entre a população. Lilian Marçal dos Santos, chefe do departamento de Nutrição da Fundação da Universidade Regional de Blumenau ressalta a importância da educação alimentar nas aulas do primeiro semestre da faculdade, com um estudo ao longo do período sobre a cesta básica:

— O estudo da Nutrição surgiu depois da Segunda Guerra Mundial, diante da fome pela qual passava boa parte da Europa após o conflito. O objetivo das aulas é conscientizar os alunos de que a fome continua. — conta. A economista doméstica Beatriz Torres, que participou nas décadas 60 e 70 do projeto de extensão da extinta ACAR (Associação de Crédito e Assistência Rural), onde orientava pequenos agricultores, também destaca a importância de uma educação alimentar:

— Com uma alimentação adequada as pessoas vão desenvolver não só a parte física como o raciocínio. Desta forma, vão pensar e, consequentemente, questionar mais. Mas primeiro é preciso que as pessoas saibam o que é uma alimentação adequada, as funções dos alimentos, seus nutrientes.

A partir dessa cesta básica, o trabalhador já está condenado a uma vida mais curta por não conter ela os ingredientes necessários para uma alimentação adequada, conforme denuncia a nutricionista Lilian :

— A cesta contém todos os grupos alimentares (carboidratos, lipídios e proteínas), mas é insuficiente não apenas do aspecto calórico, e também no que diz respeito às vitaminas. Estas condições de penúria alimentar não repõem por completo as faculdades físicas e intelectuais dispendidas pelo trabalhador. Apenas repõem energia para que ele volte a trabalhar, sem nenhuma preocupação com a saúde e a sua qualidade de vida.

Para se chegar a uma alimentação ideal, o cálculo de calorias não é o mais importante e sim a ingestão de nutrientes, porque o fato de estar comendo não significa que o indivíduo esteja se alimentando adequadamente. Lilian afirma que, para driblar o baixíssimo teor de nutrientes que a cesta básica oferece, ocorre do trabalhador compensar com alimentos mais calóricos, além de eliminar carnes - que somam aproximadamente um terço do valor da cesta . — O trabalhador acaba consumindo alimentos mais calóricos, ou como eles mesmo dizem, aqueles que têm sustança — , relata.

Trata-se do clássico da mesa do trabalhador: feijão, arroz, farinha. Um prato saudável, concorda Lilian. Mas muitas vezes o consumo de outros alimentos, muito calóricos, explica a crescente obesidade e desnutrição simultâneas entre a população pobre.

Através da Tabela 2 pode-se observar claramente a opção da cesta básica por alimentos mais calóricos como feijão, que é indicado um consumo de 4,6 kg enquanto que na dieta ideal é recomendado apenas 1,5 kg por mês. O mesmo acontece com o arroz que na dieta ideal deve ser 3,0 kg por mês e 3,6 kg mensais na cesta básica. A farinha nem sequer é mencionada na dieta ideal, mas é calculada na cesta básica em 3kg mensais.

Ou seja, a preferência dada aos alimentos com "sustança" reflete a opção da cesta básica pelos alimentos energéticos em detrimento dos alimentos construtores e reguladores. As funções destes três grandes grupos de alimentos são as seguintes:
  1. Construtores — Compostos de proteínas e sais minerais, tendo a função de formar e reparar os tecidos.
  2. Energéticos — São os mais constantes na cesta básica, pois têm a função de formar calor e energia. São os que contêm de hidratos de carbono (glicídios) e lipídios (gorduras).
  3. Reguladores — São os alimentos ricos em vitaminas e sais minerais, além da água, essenciais para regular as funções do organismo.
A ausência dos alimentos construtores e reguladores é relatada pela nutricionista Lilian através de casos que presenciou:

— Em um dos restaurantes em que eu trabalhava como supervisora havia um homem que, no refeitório, enchia a bandeja apenas com arroz e leite — lembra.

Neste caso, havia uma necessidade até inconsciente, segundo Lilian, de ingerir as calorias existentes nestes alimentos. Noutra situação, quando trabalhava no porto, havia trabalhadores sazonais, que só trabalhavam um dia por semana no descarregamento de barcos:

— Como eles deviam se alimentar mal a semana toda, acabavam comendo até 900 gramas de comida no almoço oferecido no dia de trabalho. Era a compensação por uma semana de fome.

A didática da nutrição

Através da Tabela 2 pode-se observar a ausência de itens na cesta básica que constam na dieta ideal (vegetal A, B e massas), enquanto o café, que não possui valor nutritivo algum, figura na cesta. Já no fim da década de 60, a extinta ACAR criou para fins didáticos um método denominado "Estrela da Boa Nutrição", provando que desde aquela época já era possível determinar com precisão a massa de alimentos cotidianos que evitassem a subnutrição. Abaixo, segue a indicação dos alimentos que contém o mínimo necessário de nutrientes para o bom funcionamento do organismo, conforme ilustrado no folheto da Estrela da Boa Nutrição:
  1. Hortaliças: pelo menos um vegetal verde e um amarelo — Alimentos Reguladores.
  2. Frutas em geral, frutas cítricas: 2 ou mais variedades— Alimentos Reguladores.
  3. Leite e derivados: 3 a 4 copos (crianças), 2 copos (adultos) — Alimenos Construtores.
  4. Carnes, vísceras, ovos, feijões (leguminosas): 200 gramas — Alimentos Construtores.
  5. Cereais, farinhas e açúcares: Duas variedades de cereal — Alimentos Energéticos.
  6. Gorduras e óleos: 2 colheres de sopa, mais ou menos 200 calorias — Alimentos Energéticos.
Através do folheto e da Tabela 2 pode-se ver a pouca importância dada aos alimentos contrutores já que a quantidade mensal de carne indicada pela dieta ideal é de 6 quilos contra 4,5 kg de cesta básica e a de leite é a de 15 litros da dieta ideal contra 6 litros da cesta básica. Entre os alimentos reguladores, a carência da cesta é ainda maior, visto que a dieta ideal recomenda três tipos de vegetais, assim como a Estrela pede, pelo menos, um verde e um amarelo; mas a cesta inclui apenas tomate. Quanto às frutas (alimentos de função reguladora), são recomendadas 2 ou mais variedades, enquanto que na cesta está incluída apenas um tipo de fruta: a banana, por ser a mais barata na época.

É bem verdade que não se encontra, por exemplo, o sal e que um outro produto poderia ser trocado, não importa por qual. Mas basta olhar os quantitativos, que de tão mínimos, revelam que a cesta básica não tinha essa intenção.

Existe, portanto, um deslocamento em termos de quantidade dos alimentos reguladores e construtores para os energéticos, que aparecem na cesta em maior quantidade e variedade, de forma apenas a repor a energia gasta pelo trabalhador. No entanto, os nutrientes oriundos dos alimentos energéticos não são suficientes para cobrir as funções dos outros dois (construtores e reguladores), não havendo uma preocupação com a saúde e a qualidade de vida do trabalhador, mas apenas a de explorar de maneira descartável sua força produtiva.

O que temos para hoje?

Atualmente, além de insuficiente para fornecer uma alimentação adequada, a cesta básica ainda é de qualidade inferior à da época em que foi elaborada. Não por uma mudança de cardápio, e sim devido ao processo de industrialização dos alimentos que gradativamente retira seu valor nutritivo, além de introduzir alguns produtos químicos, danosos à saúde.

Ao anúncio do empobrecimento da dieta do proletário faz-se acompanhar o lançamento dos alimentos funcionais, uma nova estratégia que diminui o valor alimentício dos produtos, distanciando o alimento comum de outros "naturalmente" mais caros, destinados à média e alta pequena-burguesia e à burguesia propriamente.

Os laboratórios das corporações transnacionais produzem componentes alimentares aleatoriamente, para serem,da mesma forma, colocados à venda e consumidos. Por décadas, empresas como a Nestlé substituíram o leite materno pelo produto em pó. Um genocídio pelo qual a Nestlé (corporação que já apoiou o nazismo) jamais foi obrigada a responder. Esta empresa é a maior corporação da indústria alimentícia no mundo. Aparentemente, é de capital suíço. Outro exemplo, a Coca-Cola: o refrigerante inibe o apetite, não revela o nome de seu composto vegetal, não resiste a determinados testes que comprovam imediata decomposição de organismos, nem explica sua função nutricional.

Os fabricantes de comida controlam cada vez mais a produção de alimentos — impondo desde a monocultura de exportação (de produtos de sobremesa: café, açúcar, etc., até a carne ou o soja envenenado). O mesmo capital financeiro, há muito, dita o que (e principalmente como) pode ser produzida a agricultura em cada parte do mundo. Faz vigorar a chantagem alimentar, mediante a escassez (déficit líquido de produtos alimentícios num conjunto territorial dado), com sensível perda dos conteúdos alimentares necessários para cada país que se deseja explorar e oprimir, chegando à estratégia final da guerra contra os povos do mundo inteiro.

Na década de 40 e 50, os carboidratos eram menos processados que hoje. O pão das padarias nos bairros conservava boa parte das fibras do trigo na farinha. A alimentação caseira recebia ingredientes crus, tanto que o arroz (já nem se trata do integral) necessitava ser cozido mais lentamente (continha mais fibras). Os produtos tinham a validade de dias, e não de meses e até anos. Não se usava grandes quantidades de açúcar, biscoitos, batatas preparadas de forma sofisticadamente pobre. Quando um "baixo teor de gordura" é anunciado nos produtos de supermercados significa que eles, agora, contém carboidratos de tal forma processados que substituem a gordura. "Enriquecido", quer dizer que as fibras naturais foram retiradas (as que continham vitaminas) e algo foi colocado em seu lugar, artificialmente.

A literatura destinada a defender dietas da pequena burguesia é ávida em denúncias quanto ao uso cavalar de ácidos graxos do tipo trans (óleos vegetais modificados por hidrogenação) nos alimentos industrializados para eliminar a gordura saturada, compensando-os, todavia, com gorduras trans. Tanto pior; da mesma forma produzem obesidade, doenças cardíacas, derrame, doenças pulmonares, pneumonia, diabetes, depressão profunda, doenças dos rins e do fígado, câncer etc.

Componentes: os ácidos aminados, ácidos graxos, vitaminas, são moléculas indispensáveis à vida. Basta faltar algumas miligramas na alimentação cotidiana para que sobrevenha uma doença grave ou a morte. E não somente a falta, porém a má compensação dos alimentos pode levar à morte.

Seguidamente as TVs surpreendem com reportagens que condenam alimentos num dia para exaltá-los em outro, naturalmente depois de manter o controle sobre os últimos, ou seja, de domesticá-los quimicamente segundo os interesses das corporações da área de alimentos. O problema é que tais produtos são empurrados para todas as classes, porém as mais exploradas estão mais expostas, embora não possam se dar ao luxo de frequentar fast-foods, consumir guloseimas, e outros "lançamentos" que aparecem às toneladas nos pontos comerciais. Não se está diante apenas da fome parcial ou oculta (falta permanente de determinados elementos nutritivos em seus regimes habituais), cujos ataques se limitam aos miseráveis, mas a grupos inteiros de populações do globo. O produto comum é o mais atingido, o que torna mais grave o quadro de enfermidades geradas pelas carências alimentares.

Demonstrada boa parte dos problemas trazidos pela tal cesta básica, em termos nutritivos e qualitativos, pode-se ilustrar através de uma tabela simples que nem sequer o acesso a esta cesta básica é possível aos que ganham salário mínimo, visto que o valor da cesta já ultrapassou o do salário e mesmo que o salário fosse suficiente para o consumo da cesta ainda faltaria dinheiro para outros itens vitais como saúde, educação, vestuário, habitação, transporte conforme introduzido no início do artigo.

O mínimo nem compra cesta

Semelhante ao método utilizado na edição número 21 de AND, a Tabela 3 utilizou como referência a mesma cesta básica das tabelas anteriores, a da região 2, e através de preços fornecidos pela Fecomércio -RJ foi realizado o cálculo com valores atualizados dos produtos (16 de fevereiro) para se chegar ao valor real do salário mínimo, com a metodologia da era Vargas, ou seja, utilizando a mesma quantidade e medidas de alimentos necessários em um mês destinados a uma família de cinco pessoas. Um casal e três crianças, considerando-se que cada criança vale 0,5 adulto, portanto, 3,5 pessoas.

De acordo com a tabela 3, para o trabalhador do Rio de Janeiro ter acesso à cesta básica mais barata do país, precisaria de R$ 446,30, o que demonstra ser o salário insuficiente até mesmo para adquiri-la, independente das críticas feitas pelas profissionais entrevistadas da área ao elenco de produtos constantes no decreto nº 399. A partir deste valor e utilizando o critério de Vargas para o cálculo do salário mínimo na região 2 (cesta básica equivale a 50% do salário mínimo), o valor atualizado do salário seria de R$892,60,calculado em fevereiro. De acordo com estes cálculos, com o salário mínimo de R$ 260,00, o trabalhador de hoje estaria comendo 3,5 vezes menos do que há 67 anos.

No entant o, o valor encontrado para o salário mínimo está nivelado por baixo pois utilizamos preços dados por uma entidade patronal no Rio de Janeiro, tendo como base a cesta da região mais pobre do país. Além de considerar uma criança ou um adolescente como meio adulto, é ignorado que ela necessita de menos alimentos energéticos, porém de mais alimentos construtores para a sua formação e crescimento do que um adulto..

Para comprovar que estes valores não condizem com a realidade, visto que na matéria da edição 21 este mesmo cálculo, a partir de preços de setembro de 2004, dava a cesta básica um valor de R$ 523,00 (estariam os preços baixando ?), criou-se a Tabela 4, utilizando-se da mesma metodologia da Tabela 3. A única diferença é que os preços são oriundos de uma pesquisa feita no Supermercado Mundial, um dos mais populares do Rio de Janeiro e conseqüentemente com os preços mais baixos, na data de primeiro de março, De acordo com a Tabela 4, o valor da cesta básica é de R$543,62, logo pelo método de cálculo do salário mínimo da região 2 chega-se ao valor atualizado de R$ 1.087,24. Com um salário atual de R$260 conclui-se que o trabalhador atualmente se alimenta por volta de cinco vezes menos do que na época da criação da cesta básica.

Além disso, a própria Constituição de 1988 reconhece que surgiram novas necessidades e que o salário mínimo deveria abranger mais itens do que os estabelecidos no governo Vargas (higiene, vestuário, transporte, saúde e habitação) tais quais os novos educação, cultura, lazer entre outros. Portanto, o valor atual do salário mínimo é totalmente criminoso, até mesmo pela própria farsa da "constitucionalidade".

Essas recentes necessidades surgiram não apenas por se descobrir cientificamente novas carências dos seres humanos, mas o próprio avanço do capitalismo (já em sua fase mais degenerada, o imperialismo) obriga ao mais renitente, humilde e econômico trabalhador um consumo sempre maior. Portanto, a defasagem do salário mínimo cresce tanto mais comparamos as necessidades atuais com as de 1938, ou seja, supera em muito os R$1.087, 24.

Se utilizarmos a metodologia do Dieese, por exemplo, que considera que a cesta básica corresponde apenas a 37,5% do salário, este estaria por volta de R$1.500,00. Como o Dieese calcula apenas quatro pessoas na família (ao que parece a quinta morreu de fome), e continua a utilizar o critério de que uma criança vale meia pessoa, o salário ficaria por volta de R$1.285. A partir de todos estes cálculos pode-se concluir que o trabalhador na época do fascismo de Vargas consumia mais de cinco vezes o número de nutrientes que o trabalhador dos tempos do operário padrão do FMI.

Tabela 1

Dieta mensal básica - 1 pessoa

Alimentos Quant. Kg/mês Calorias Protídios Lipídios Glicídios Cálcio Ferro Vit. A Tiamina Rib/Lav Niacina Ácido ascórbico
Leite 15 250 16,5 15 25 560 0,5 600 0,15 0,8 0,6 5
Carne 6 396 33 26 - 22 4,6 60 0,14 0,34 8 0
Vegetal A 2,4 13 1,1 0,2 2,6 27 1,1 2313 0,04 0,08 0,2 13
Vegetal B 3,6 53 2,5 0,3 10,2 48 1,8 9708 0,31 0,3 0,6 25
Vegetal C 3 100 1,8 0,2 23,1 21 0,8 167 0,1 0,04 0,8 14
Frutas 9 165 2,8 8,8 44,1 89 1,4 1293 0,71 0,14 1,4 12,8
Feijão 1,5 172 11,1 1 30,8 68 3,4 15 0,27 0,09 1 2
Arroz 3 360 6,7 0,7 78,9 10 0,9 0 0,08 0,03 1 2
Pão 6 546 17 0,4 115,2 44 2,4 0 0,14 0,14 1,6 0
Massas 1,5 188 6,4 0,7 33,2 11 0,8 0 0,04 0,03 1 0
Açúcar 2,4 294 - - 76 - - - - - - -
Óleo 0,45 139,5 - 15 - - - - - - - -
Manteiga 0,45 124,5 19,5 12,67 0,19 - 0,03 435 9 7,5 - -
Total - 2802 103,9 75,3 444,0 900 17,7 14156 1,98 1,99 16,7 71,8
Departamento de Nutrição da Escola Superior de Ciências Domésticas da extinta Universidade Rural de Minas Gerais (atual Universidade Federal de Viçosa - UFV)

Tabela 2

Comparação entre a Dieta Ideal e a Cesta Básica da Região 2

Alimentos Quantidade Kg/mês
(Dieta ideal)
Calorias
(Dieta ideal)
Quantidade Kg/mês
Cesta Básica
Região 2
Calorias Cesta Básica
Região 2
Carne 6 250 4,5 187,5
Leite 15 396 6 158,4
Vegetal A 2,4 13 - -
Vegetal B 3,6 53 - -
Vegetal C 3 100 9 (Tomate) 300
Frutas 9 165 0,06 (Banana) 1,22
Feijão 1,5 172 4,6 527,46
Arroz 3 360 3,6 432
Pão 6 546 6 546
Massas 1,5 188 - -
Açúcar 2,4 294 3 367,5
Óleo 0,45 139,5 0,9 279
Manteiga 0,45 124,5 0,9 249
Café - - 0,3 -
Farinha - - 3 10,8

Tabela 3

O valor atual da cesta básica - Fecomércio RJ

Produto Características Medida Quant. Preço Médio
R$ - 16/02
1 Pessoa
R$
3,5 pessoas
R$
Carne De segunda Kg 4,5 5,30 23,85 83,47
Leite Pasteurizado L 6 1,55 9,30 32,55
Arroz Variado Kg 3,6 1,69 6,00 21,00
Feijão Mulatinho Kg 4,6 2,08 9,57 33,49
Farinha Mandioca Kg 3 2,26 6,78 23,73
Tomate Grande Kg 12 1,52 18,24 63,84
Banana Prata Unid. 90 0,14 12,60 44,10
Açúcar Refinado Kg 3 1,17 3,51 12,28
Óleo Variado 900 ml 0,9 2,30 2,07 7,24
Manteiga Variado Kg 0,75 4,59 3,44 12,04
Café Variado Kg 0,3 7,20 2,16 7,56
Pão Francês 50g 6 0,25 30,00 105,00
Total




446,30

Tabela 4

O valor atual da cesta básica - Supermercado Mundial

Produto Características Med. Quant. Preço Médio
R$ - 01/03
1 Pessoa
R$
3,5 Pessoas
R$
Carne De segunda Kg 4,5 4,95 22,27 77,96
Leite Pasteurizado L 6 1,62 9,72 34,02
Arroz Variado Kg 3,6 1,60 5,76 20,16
Feijão Mulatinho Kg 4,6


Farinha Mandioca Kg 3 1,47 4,41 15,43
Tomate Grande Kg 12 1,19 14,28 49,98
Banana Prata Unid. 90 0,33 29,70 103,95
Açúcar Refinado Kg 3 5,27 15,81 55,33
Óleo Variado 900 ml 0,9 3,27 2,94 10,30
Manteiga Variado Kg 0,75 4,36 3,27 11,44
Café Variado Kg 0,3 7,23 2,16 7,59
Pão Francês 50g 6 0,25 30,00 105,00
Total




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