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| Falta apenas roubarem o ar |
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| Rui Nogueira | |||
A água não é apenas riqueza nacional. Defendê-la é garantir a própria essência da vida
Água é o bem essencial da vida. Ninguém sobrevive mais de três dias sem ela. Pelo seu grau de necessidade, é um direito fundamental do ser humano, comparado ao direito à vida e à saúde. Assim, qualquer política hídrica deve ser regida pela universalidade. Todos têm que ter acesso à água, independente do dinheiro que disponha. Somos 70% água, portanto, sempre necessitamos bebê-la. Sabedores disto, corporações financeiras transnacionais (poucas) estão trabalhando intensamente no sentido da água ser considerada uma mercadoria (comodity) até cotada na bolsa (evidentemente controlada por elas). A água é o único bem que não tem substituto no mundo. O que se faz com a água só se faz com a água, o que não acontece com o petróleo, gás, ou qualquer tipo de alimento que sempre se encontrará como substituí-lo. Isto é um instrumento poderoso na mão de empresas que estão buscando dominar, controlando e sendo proprietárias dos mananciais e nascentes, da bacia hidrográfica e dos sistemas de distribuição de águas e saneamento nos municípios e cidades. Isto é um monopólio terrível. Com o alto grau de necessidade da água, ela é arma nas mãos do capital financeiro mundial. É o que acontece no Oriente onde o governo de Israel corta a água dos bairros palestinos para matá-los. É o caso dos consórcios com empresas estrangeiras — as corporações transnacionais que estão buscando dominar e controlar o comércio da água, que colocam medidores no fluxo de água que vai para bairros que têm inadimplência alta. É uma situação desumana cortar a água das residências por comprovada falta de dinheiro de quem a utiliza. As corporações arbitram o preço altíssimo da ligação e se acham no direito de cortar água apenas com a intenção de forçar os pagamentos, garantidores de seus lucros absurdos; sem qualquer preocupação com a necessidade vital da água. Há publicações demonstrando que toda a privatização de serviços públicos essenciais está sempre acompanhada de muita corrupção e falta de transparência. Mas a própria desnacionalização já é corrupção. Não há divulgação das condições e dos contratos feitos nas sombras dos gabinetes. Sempre aparecem absurdos aumentos de tarifas para atender ao interesse dos acionistas externos com o absoluto desprezo pelas necessidades sociais da população. A cooptação dos políticos vem permitindo uma sórdida legitimação de absurdos, com leis que frequentemente desrespeitam as leis maiores do país. Os profissionais da corrupção entre os parlamentares, entre os membros do Executivo e do Judiciário, facilmente são cooptados pelos interesses das corporações porque elas podem financiar campanhas, o que não fica tão oculto em se tratando das empresas de economia mista. Das corporações transnacionais de águas, no Brasil, a mais atuante é a Vivend — que inclui a Nestlé, das Águas São Lourenço, Perrier, Águas de Petrópolis, Arcos, Loreal, Laboratórios Roche, Pure Life, Biscoitos São Luiz—, controlando mananciais de água, através de consórcios, com interligações complexas, incluindo os serviços municipais de águas que estão sendo privatizados e desnacionalizados em várias cidades, principalmente do Estado do Rio: da nascente à distribuição. Entretanto, a maior empresa de águas no mundo, a Suez Lyonnaise (no Brasil empresa Cidades), foi duramente derrotada em suas pretensões na Bolívia ( nesta edição, página 19). Aqui se trata não de defender as nossas riquezas, mas a própria vida, como fez o bravo povo boliviano. Transcrevemos o folheto, sob o título Depois do triunfo, desencadeemos uma campanha mundial contra a Suez e as transnacionais da água, elaborado pela Fejuve — Frente da Juventude de El Alto –Bolívia assinado por Abel Nonani e Oscar Olivera. É um importante exemplo de luta e vitória contra a principal transnacional das águas — Suez Lyonnaise. A água não pode ser dominada pelas corporações transnacionais, hoje entrelaçadas com alimentos, sementes, energia e até nas empresas empreiteiras de obras; elas estão influenciando até nos países dominantes induzindo à guerra e destruições e se apresentando para as reconstruções cinicamente capitaneadas pela ONU, Banco Mundial, criando as gigantescas dívidas que alimentam o sistema financeiro mundial. A conquista do povo de El Alto e La Paz — foi antecipada pela expulsão (essa com vítimas) da empresa ianque Bether Co., que controlava a água em Cochabamba. Agora, não há mais transnacionais explorando a água na Bolívia. Pensam fazer o mesmo com o petróleo. Bolívia: Levante põe fim ao controle da águaSuez, a maior transnacional do mundo no suprimento de serviços de água potável, vai embora da Bolívia depois de uma greve cívica indeterminada convocada pela Federação de Juntas Vizinhas (Fejuve) de El Alto. As razões que levaram a pedir a saída de Suez-Águas do Illimani são que esta empresa se negou a realizar investimentos para ampliar o serviço de água potável para 200.000 pessoas pobres da cidade de El Alto, e que promoveu a subida das tarifas de sistemas de água potável e de esgotos a 445 dólares; soma que era inacessível para 70.000 pessoas que não se encontravam dentro da área "servida" pela empresa. Suez-Águas do Illimani queria que o Estado Boliviano e a cooperação internacional conseguissem doações e créditos facilitados para cumprir com as metas de expansão necessárias dentro da área de concessão. A resposta dos habitantes de El Alto foi que estas doações e créditos devem destinar-se para uma empresa pública nacional e não a uma transnacional que está fazendo vultosos lucros com este direito humano de todo cidadão. O governo da Bolívia tentou por duas vezes consecutivas a revisão do contrato com a Suez-Águas do Illimani. A resposta da transnacional, textualmente, foi: "rechaçamos a existência de um direito de a Superintendência de Saneamento Básico ou qualquer outra autoridade da República da Bolívia para esta suposta "revisão" ." (29.11.04). Frente a esta situação e ante a magnitude da greve, que durou três dias, o Governo emitiu um Decreto Supremo determinando o término do contrato com Suez-Águas do Illimani tanto nas cidades de El Alto como de La Paz , já que o sistema é interligado. A greve foi um total sucesso por sua unidade, contundência e caráter pacífico. Mais que uma guerra da Água, foi um levantamento pela água, em que não houve mortos nem feridos, porque toda a população compareceu em bloco em todos os bairros da cidade de El Alto, exigindo que a água seja um serviço público e não um negócio privado. Agora, temporariamente, a antiga empresa municipal se encarregará, até que se constitua uma nova empresa social com participação das comunidades e sob controle social da Fejuve. SUEZ-Águas do Illimani não aceitou um acordo de fechamento de contrato e se prepara para iniciar um processo multimilionário contra a Bolívia no Ciadi (Centro Internacional para os Acordos de Diferenças relativas aos Investimentos), dependente do Banco Mundial É de se notar que o Banco Mundial possui 8% das ações de Águas do Illimani através de seu braço privado, a Corporação Internacional Financeira (CIF). Em outras palavras, se esta demanda vai à frente, o Banco Mundial será juiz e parte diretamente. Frente a este novo atropelamento que a Suez tenciona cometer, é fundamental iniciar uma campanha na França e em todo o mundo contra esta transnacional que é uma das que mais processos tem instaurado contra países em desenvolvimento. Porque romper o contratoEm 24 de julho de 1997 foi firmado o contrato de concessão entre Águas do Illimani-Suez e a Superintendência de Águas para operar e expandir os serviços de água potável e saneamento nos municípios de El Alto e La Paz pelos próximos 30 anos. Águas do Illimani é uma empresa controlada pela Suez, a transnacional francesa que é a maior do mundo, junto com a Vivendi e Thames, no negócio da água. A Suez obteve lucros em 2003 num total de 39.622 milhões de Euros, que equivalem a 51.508 milhões de dólares. O Banco Mundial, através da International Finance Corporation (IFC), é também sócio de Águas do Illimani. Por que foi expulsa?1. Uma adjudicação fraudulenta A adjudicação de Samapa para a Águas do Illimani não foi um processo transparente, já que se excluiu a participação da sociedade civil e do município e além disso transgrediu normas legais do país. A convocação para a concessão realizou-se com base num estudo realizado pelo Banco Paribás, da França, sob a supervisão da Superintendência de Águas, criada um mês antes da concessão. Na primeira licitação, o único proponente foi Águas do Illimani-Lyonnaise des Eaux , da França, e em vez de convocar uma segunda licitação, o que se fez foi alterar os termos da convocação para permitir a concessão para a Águas do Illimani. A privatização da Samapa foi uma condição do FMI-BM para a renegociação da dívida externa em 1996. 2. 200 mil pessoas condenadas A Águas do Illimani dizia que o fornecimento de Água potável em El Alto era de 100%, mas a realidade era muito diferente. 70.000 pessoas não tinham água em seus domicílios porque as tarifas de ligação eram de 445 dólares (aproximadamente 9 salários mínimos), e outras 130.000 pessoas estavam dentro da área de concessão de Águas do Illimani, porém fora da área "servida" pela empresa transnacional. 3. Investimentos facilitados ou por dotações Não se sabe com certeza quanto dinheiro Águas do Illimani investiu, nem de que fontes. Segundo a Superintendência, em 8 anos (de 1997 a 2004), a Águas de Illimani investiu 55 milhões de dólares. Segundo notas da imprensa, a maioria deste dinheiro proveio de empréstimos facilitados que foram outorgados pela cooperação internacional (B M, BID, CAF) e de doadores de governos como o suíço, para ajudar a que os pobres tenham acesso à água. 4. Lesava a empresa municipal Segundo a empresa municipal Samapa, a Água do Illimani deveria pagar-lhe anualmente 8,5 milhões de dólares, entretanto só recebeu 3,5 milhões de dólares como aluguel das tubulações e canalizações, que eram de propriedade do município antes da assinatura do contrato. 5. As tarifas dolarizadas Apesar de a Lei 2066, de 11 de abril de 2000, determinar que as tarifas não estão dolarizadas (Art.8, inciso L), a Águas do Illimani continuou cobrando tarifas indexadas ao dólar, violando a Cláusula 17 do Contrato de Concessão que diz: "Na prestação do Serviço o Concessionário (Águas do Illimani) deverá cumprir sempre todas as leis bolivianas vigentes durante o termo do contrato". 6. Tarifas com ágio desde o contrato Antes da concessão, a Águas do Illimani aumentaram as tarifas de consumo entre 17% para a categoria industrial e 57% para a categoria doméstica. Durante o processo de concessão em 1997, voltaram a acrescentar 19%. 7. Usura para o setor público O contrato dizia, em seu Anexo 10, que "a Categoria Comercial compreende também todos os usuários oficiais, públicos e estatais". Quer dizer que os centros de saúde, escolas, áreas verdes, quartéis, ministérios e outras repartições públicas pagam 1,18 dólares por m3. 8. Elevou as tarifas Durante a renegociação qüinqüenal de tarifas, subiram as tarifas de ligação de água potável e de esgotos de 335 US$ para 445 US$. 9. Zonas pobres sem medidores A Águas do Illimani não colocou medidores em El Alto, para continuar cobrando uma tarifa fixa de 12 a 15 bolivianos mensais, em vez dos 6 ou 8 que o povo pagaria se tivesse medidores, já que por economia só consomem entre 4 a 5 m 3 de água por mês. 10. Sem manutenção Segundo o contrato, a Águas do Illimani tinha a obrigação de garantir a manutenção e reposição das tubulações, válvulas e outros componentes do esgoto sanitário e da água potável, entretanto, na realidade não o faz. 11. Não amplia a rede A Águas do Illimani cobra tarifas mais altas que a Samapa e não se responsabiliza pela rede pluvial, tampouco pela sua ampliação. 12. Permite a contaminação A falta de manutenção e de tratamento adequado das águas servidas provocou focos de contaminação em residências e bairros de El Alto. 13. Impõe segredo sobre a informação A Superintendência não podia divulgar as informações que a Água do Illimani qualificava como "confidencial, informação privilegiada e segredos comerciais pelo Concessionário." (Cláusula 14.1.1 do Contrato de Concessão). 14. Pagar duas vezes As tarifas da Águas do Illimani já incluíam a recuperação de seus investimentos, além de uma taxa de lucro de 13%. Entretanto, na cláusula 26 do contrato se ressalvava que, quando terminada a concessão, teria que ser pago novamente a ela por seus investimentos com o pagamento que faria o novo concessionário, se Águas do Illimani não ganhasse novamente a licitação em 2027.
{mospagebreak} Campanha contra as transnacionais1Vigílias e manifestações em frente aos escritórios da Companhia Suez na França e em todos os países onde se privatizou a água. 2Cartas ao Governo da França condenando a Companhia Suez pelos processos que instaurou contra a Argentina, Filipinas, Indonésia,... ou que quer iniciar contra Bolívia e outros países. 3Denúncia de todos os países ante o Comitê da Nações Unidas para os Direitos Sociais, Econômicos e Culturais, pelos abusos da Suez e outras transnacionais contra o direito humano à água. 4Ações em todo o mundo contra a privatização da água em 28 de março (Dia Internacional da Água)e de 10 a 16 de abril de 2005 (Semana de Ação Global dos Povos contra o Livre Comércio e as Privatizações). 5Exigir que a água, em qualquer de seus usos, esteja fora de qualquer tipo de acordo de Livre Comércio ou Tratado Bilateral de Investimentos. 6Promover uma Convenção Internacional da Água, que proíba a comercialização deste recurso vital para a existência da vida e do planeta. O doutor Rui Nogueira é médico e escritor, freqüentemente solicitado para proferir palestras em todo o país. É autor de Servos da moeda; Petrobrás, orgulho de ser brasileiro e Nação do sol. Correio eletrônico: rui.sol@ambr .com.br Portal – www.nacaodosol.org
Água para criança pode dar cadeia
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| Nº 89, maio de 2012 |
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