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Cultura popular é marca brasileira na França

Personagens do ideário nordestino estão sendo apresentados em exposições itinerantes

Fotos: Clóvis Arruda

Exposição de Cordéis e xilogravuras brasileiras em Marselle, França, em setembro de 2005

Universo da Literatura de Cordel.

Este é o título de uma exposição itinerante sobre cordéis, xilogravuras e o mundo da cantoria do nordeste brasileiro que circulará por três cidades francesas até janeiro do ano que vem, como parte das festividades programadas durante o ano Brasil-França.

Segundo a pesquisadora Andréa Lago, da produtora paulistana Vide o Verso que concebeu o projeto, a exposição apresenta uma visão panorâmica — e atual — de temas regionais (e universais), tomando como ponto de partida a literatura popular em verso (cordel) e a xilogravura, manifestações da arte popular que ajudam a compor a fisionomia cultural do nordeste brasileiro e fazem refletir sobre a campanha de preservação do patrimônio imaterial da humanidade.

Um dos principais enfoques da exposição é a existência de antecedentes franceses nas matrizes do nosso tradicional folheto ou cordel, chamado de littérature de colportage “que é, nada mais nada menos que a expressão literária da cultura popular medieval francesa, cujos traços, porém, são facilmente identificáveis na produção cordelística do nosso País”, lembra Andréa Lago.

Com ambientação associada à cantoria e outras expressões de oralidade popular, o mundo das feiras livres e da poética de folhetos somada a imagens xilográficas da vida nordestina, a exposição Universo da Literatura de Cordel evoca, de roldão, a França medieval a partir do século 12 — o marco da canção de gesta — com personagens saídos das histórias de cavalaria para o imaginário brasileiro e, consequentemente, para a literatura de cordel centralizados na figura do imperador do Ocidente Carlos Magno, rei dos francos, e nos lendários Pares de França que levaria Miguel de Cervantes a criar a chamada triste figura de dom Quixote muitos séculos depois.

O fio condutor da exposição é a trajetória pessoal do homenageado do evento, o xilógrafo e cordelista pernambucano J. Borges e o acervo do professor Raymond Cantel (1914-86). Cantel esteve no Brasil várias vexes e foi quem levou a obra de Patativa do Assaré (1909-2002) — o mais importante poeta popular do Brasil — para ser estudada na Cadeira Popular de Literatura Universal da Sorbonne, nos fins dos anos 70. Os curadores da mostra são o folclorista Roberto Benjamin e a diretora do Fonds Raymond Cantel, Ria Lemaire. O projeto está sendo patrocinado pelo Banco do Nordeste do Brasil, com o apoio da Natura e da Rexam.

E depois do carnaval...

Além de J. Borges, o projeto levou à França os xilogravuristas Ivan Borges, Marcelo Soares e o cantador repentista pernambucano Oliveira de Panelas.

A iconografia da exposição, inaugurada no dia 7 de setembro, na Bibliothèque Alcazar, em Marseille, inspira-se na obra de J. Borges. Quem assina a expografia é o designer Clóvis Arruda, que contou com a orientação do cenógrafo e artista plástico Guto Lacaz.

Depois de Marseille, a exposição seguiu para Poitiers, cenário de grande e vitoriosa batalha liderada por Carlos Martel (avô de Carlos Magno e fundador da dinastia dos carolíngios) contra os árabes, no ano de 778.

A última etapa da exposição ocorrerá em Paris, no dia 26 de dezembro. A mesma exposição circulará por algumas cidades brasileiras, “provavelmente após o carnaval”, informa Andréa Lago.

Bonecos em tamanho natural e grandes painéis em tecidos rústicos convidam para a imersão num universo diferente aos olhares estrangeiros. É assim que os franceses estão vendo a exposição Universo da Literatura de Cordel.

Figuras que lembram personagens históricos como padre Cícero, Lampião, vaqueiros encourados, romeiros e cantadores repentistas povoam o local da exposição, atraindo atenções para os textos explicativos que oferecem pistas claras sobre o mundo do cordel.

— É uma exposição lúdica, viva e envolvente que procura atingir todos os sentidos do visitante — resume Andréa Lago, acrescentando:

— Patrícia Palumbo assina a trilha sonora da exposição que foi desenvolvida visando cada ambiente expositivo através de pesquisa entre cantadores nordestinos e músicos contemporâneos de forma a contemplar toda a diversidade musical do Nordeste. Além disso, temas importantes de nossa MPB que tiveram inspiração nas histórias ou na métrica do cordel também compõem essa trilha.

Cantoria, cordel e xilogravura são componentes de uma arte trazida ao Brasil pelos colonizadores portugueses e que se desenvolveu no Nordeste, uma das cinco regiões do Brasil formada por 9 Estados e que apresenta um mundo de beleza excepcional, tanto pelas paisagens impressionantes quanto pela riqueza e diversidade de sua cultura.

No Brasil, desde o final do século 19, os poetas imprimiam poesias nas tipografias para vendê-las sob a forma de livretos ou folhetos de cordel, assim chamados por serem expostos à venda em cordões ou barbantes esticados entre um ponto e outro. Além de poesia, esses folhetos abrigavam pequenos textos em prosa nas suas origens portuguesas, depois brasileiras.

Na impressão dos poemas juntou-se a necessidade de oferecer ao público uma capa que resumisse o seu conteúdo, a sua história, já que os poemas contavam e ainda contam histórias. Foi assim que os poetas tornaram-se também gravadores. O passar do tempo fez com que se colocassem nas capas desses folhetos fotos de artistas do cinema americano e desenhos estilizados e coloridos, mas isso não foi uma generalização.

A partir dos anos 60, um pouco antes talvez, após a publicação de luxuosos álbuns de gravuras feitas por iniciativa de pesquisadores e intelectuais, a xilografia passou a ganhar autonomia e o status de arte, com direito à projeção nacional e internacional. Hoje, é reconhecida como uma das maiores contribuições do Nordeste ao cenário das artes plásticas brasileiras, especialmente à arte naïf ou primitivista, como mais das vezes é chamado esse tipo de arte popular.

J. BORGES — Além da boa reputação que angariou durante anos e anos como poeta de cordel, José Francisco Borges, o J. Borges, é considerado hoje como um dos maiores gravadores brasileiros.

Pernambucano de Bezerros, ele já foi comparado até a Picasso pelo jornal nova-iorquino The New York Times. Ilustrou livros do uruguaio Eduardo Galeano, de escritores brasileiros e de outros estrangeiros, além do relatório anual do Centro David Rockfelller, dos Estados Unidos. A maior biblioteca do mundo, a do Senado norte-americano, sediado em Washington, possui uma coleção de seus trabalhos.

J. Borges é o principal artista popular brasileiro na área de xilogravura e cordel. No próximo dia 20 de dezembro completará 70 anos (começou a trabalhar aos 10 anos de idade na agricultura e profissionalizou-se como poeta de bancada aos 25). Já expôs em vários países. Por seu trabalho, recebeu a Medalha de Honra ao Mérito Cultural da Presidência da República do Brasil e o Prêmio UNESCO 2000.

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