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Tupiniquins e guaranis X Aracruz

A luta dos índios e dos camponeses contra a estrangeira Aracruz Celulose, que roubou um imenso latifúndio no Espírito Santo (385 mil hectares), é a prova de que as contradições do capitalismo, num país semicolonial como o Brasil, se apresentam com maior intensidade no campo, e onde muitas vezes o inimigo é o próprio imperialismo.

A Aracruz Celulose foi criada durante o regime militar e vem sendo afagada pelos demais governos que o sucederam, permitindo a invasão de terras, concedendo-lhe empréstimos, investimentos, benefícios fiscais, portos e tudo o que a alta burguesia financeira internacional consegue através de seus gerentes aqui1.

Muitas das terras foram adquiridas através de ações fraudulentas: o Estado doava as terras ditas devolutas para laranjas, que imediatamente as vendiam para a Aracruz, numa operação cartorial.

Depois de tomar e degradar boa parte das terras do norte do Espírito Santo, a Aracruz estende os seus domínios para o sul da Bahia, onde já inaugurou mais duas fábricas, inclusive com a presença do presidente do mensalão.

A monocultura da fome, o plantio de eucalipto destinado a produzir papel higiênico para exportação, trouxe pobreza para índios e camponeses, expulsos de suas terras e transformados em bóias-frias da Aracruz. Ela também é responsável por um desmatamento criminoso, pela poluição do ar2, do solo e dos mananciais com produtos químicos, e pelo roubo da água de vários rios, inclusive a do Rio Doce, transferida através de um imenso canal.

Monocultura degradante

Os índios tupiniquins sempre viveram na região de Aracruz, e os guaranis, povo viajante, ali se fixaram no início do século passado. Hoje restam seis aldeias das 32 existentes antes da invasão, perpetrada pela Aracruz e seus lacaios.

A primeira rebelião dos índios, que lutam pela demarcação de suas terras (40 mil hectares), ocorreu em 1998, após o Ministério da Justiça reduzir o tamanho na reserva, no decreto de homologação, de 18 mil hectares, de acordo com relatório do Grupo Técnico da FUNAI, para apenas 7 mil hectares.

Numa verdadeira operação de guerra, o servil de então, FHC, determinou o confinamento dos índios nas aldeias3, sequestrou os caciques, levando-os para Brasília, onde impôs um acordo espúrio, o pagamento de uma esmola mensal aos índios em troca das terras ocupadas pela Aracruz Celulose.

A consciência indígena foi sendo forjada e os índios, dessa vez organizados, passaram a lutar não apenas pela demarcação, mas pela reparação da destruição dos rios e das matas.

O Ministério Público, em março de 2005, considerou esse acordo nulo, e recomendou ao Ministério da Justiça a homologação dos 18 mil hectares reconhecidos pelos antropólogos da FUNAI.

Uma centelha provocou nova rebelião: a Petrobrás iria indenizar a Aracruz pela passagem de um gasoduto nas áreas disputadas, o que significaria a homologação da grilagem das terras indígenas. Diante da pressão indígena, a Petrobrás tomou uma decisão ao menos curiosa: fez o gasoduto contornar a reserva indígena, certamente com um custo altíssimo, para não afrontar o grande capital, o que ocorreria se a indenização fosse paga a quem de direitos, aos índios.

Não estão sozinhos

Desde então, o movimento indígena, com o apoio de camponeses e estudantes — que organizaram uma brigada de apoio aos índios —, têm realizado varias ações e manifestações, inclusive com a reocupação e auto-demarcação das terras, culminando, no dia 5 de outubro, com a ocupação da sede administrativa da empresa. Pleiteiam os índios agora 40 mil hectares, assim como a reparação dos danos aos rios, fauna e florestas.

O conflito tomou novo caráter quando, no dia 7 de outubro, camponeses sem terra ocuparam um dos latifúndios da Aracruz4. No dia 10 de outubro, camponeses lesionados no trabalho de monocultura, inclusive por contaminação com agrotóxicos, protestaram em São Mateus, extremo norte do estado, ocupando o posto do INSS, em razão da falta de assistência e pelo descaso a que estavam submetidos pela dupla INSS/Aracruz Celulose.

Apesar dos avanços, os índios e camponeses enfrentam muitas dificuldades, diante do poderio da Aracruz, a maior doadora de recursos de campanha no estado do Espírito Santo. O governo, o Judiciário e a imprensa estão inteiramente comprometidos com a Aracruz, que age incólume, inclusive mantendo uma empresa de segurança armada para espionar os índios.

O governo federal, que detém 12% das ações, via BNDES, e tem assento de membro no Conselho de Administração da Aracruz5 não demonstra o menor compromisso com a causa indígena, muito pelo contrário.

A luta dos índios e camponeses do norte do Estado do Espírito Santo contra a monocultura do eucalipto, que hoje avança para o sul da Bahia, inclusive sobre as terras indígenas daquele Estado, mostra que as contradições existentes no campo não são localizadas, mas ocorrem em todo o país, onde se revelam com clareza os embates entre o grande capital e o proletariado.


1. Até a família real britânica tem participação na empresa: o príncipe Charles veio ao Brasil, uma única vez, especialmente para a inauguração de uma das unidades de processamento de celulose da empresa, que mandou a imprensa dizer tratar-se de uma visita a seus programas “ambientais”.
2. Além das emissões diárias de gases, cujo odor é sentido a várias dezenas de quilômetros, no início de 2005 ocorreu uma catástrofe causada por gases tóxicos, de projeção ainda desconhecida, que contaminou centenas de pessoas no distrito de Barra do Riacho.
3. Ainda hoje está em vigência uma portaria que proíbe a entrada na aldeia de entidades de apoio aos índios, enquanto que missionários a serviço do imperialismo têm livre trânsito entre as comunidades indígenas amazônicas.
4. Nem mesmo de eucalipto havia plantio.
5. Certamente há um burocrata recebendo um mensalão razoável.

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