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| Livros indicados para os nossos filhos |
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| Rui Nogueira | |||
O consenso entre os pais de que é decisiva a educação dos filhos e que a escola tem valor fundamental tornou-se uma das maiores conquistas de nossa época. Mesmo quando o pai não dispõe de melhor formação ou de qualquer escolaridade, em nenhum momento admite hoje a ausência de escola, ainda que viva no interior.
Neste contexto, é saudável a crescente divulgação do incentivo à leitura e reflete como um fator positivo as indicações que as escolas fazem de livros, didáticos, paradidáticos, e da literatura em geral no início de cada ano letivo. Surge na nossa imaginação os professores, orientadores pedagógicos e educacionais buscando textos, lendo, analisando no sentido de indicá-los como apoio ao projeto pedagógico escolar. Sensibilizado pela divulgação de que o pai deve "ser participativo" e procurar se integrar com os filhos nas atividades escolares, tomamos a iniciativa de ler todos os livros indicados por uma determinada escola. Uma das crônicas de As mentiras que os homens contam, afinal, um livro de autor bem sucedido 1 e que hoje percebemos, está indicado em várias escolas de diferentes estados brasileiros:
Segue-se, na página 94, uma retórica verdadeiramente imoral, desagradável, tola, que a linha editorial de AND (felizmente) não aceita ver publicada, apesar de todo o respeito que guarda pelo autor. Mas convenhamos, essa passagem pertence a um livro indicado (obrigatório) para leitura que se destina a adolescentes de 13, 14 anos, na oitava ou primeira série do ensino médio. A bem da verdade, não consta na ficha catalográfica ou em qualquer outro espaço indicações, sobre os três livros que mencionamos aqui, de tratar-se de literatura destinada a adolescentes. Observando a indicação da primeira obra em escolas particulares de renome, algumas religiosas (que apenas na aparência contradizem o método de seleção), localizadas em vários estados, somos levados a crer que a escolha foi determinada pelo trabalho de marquetagem da editora — que, por sinal, é estrangeira. Pais de alunos, professores, coordenadores pedagógicos, supervisores etc. — e, sem qualquer exagero, muito menos os alunos são consultados. Já aconteceu. Ao lermos este texto para o vice-diretor da escola, muito famosa, ele ficou amarelo e deixou escapar um riso atônito. Estava com a síndrome, muito em voga no momento, do não sabia, a exemplo dos mandatários que, quando apertados, dizem não saber de nada... De igual maneira, a coordenadora educacional referenciada para a série que o livro foi indicado, para o confiante pai comprar, não conhecia o livro. Vai orientar o quê? Repetimos, tudo leva a crer que as escolhas não obedecem a uma estratégica pedagógica discutida amplamente pela massa dos professores, pelos pais, chegando a desconsiderar até mesmo faixas etárias. Trata-se de uma pedagogia animada pelas necessidades do mercado, pela alienação, pela automatização do consumo, explorando como centro da decisão a figura de literatos de renome, fora do índex do monopólio das comunicações e exemplo de sucesso, mas aproveitados e usados pelos editores estrangeiros principalmente como produto comercial destinado a originar muitos lucros e a contribuir com o jogo das remessas para os acionistas no exterior. Porque, senhores, não temos essas pretensões moralistas de caráter semi-feudal e semi-colonial, dominantes em nosso país, que desavisadamente alguns pensam combater com essa ingênua literatura que acreditam popular, feita para "desopilar o fígado", mas cheias de graves inconvenientes. Exatamente por isso, abram os olhos: o nosso povo é outro. Apologia à decadênciaUm outro texto, destinado à mesma faixa etária, dessa vez sob o título de A hora da estrela 2, na página 74, por exemplo, faz desfilar um rosário de frustrações amorosas, sob a seguinte ótica:
Este é um livro em que a celebridade, na época do lançamento, utilizou um pseudônimo, cujo nome verdadeiro teria revelado somente em edições posteriores. Nesse livro, os personagens fazem o negativismo submisso. O autor é um eterno deprimido, angustiado. O namorado da personagem central — a "nordestina síntese de ser nada" —, é "coisa nenhuma", sem qualquer indicação ao menos da sexualidade e "manheza" comum no nordestino. A personagem, que ao primeiro momento parece ser menos nociva é a ex-prostituta do Mangue (Rio de Janeiro), depois cartomante, mas que no final faz a apologia do homossexualismo feminino. As derradeiras palavras reafirmam o "vazio" de conteúdo da obra:
Promiscuidade e baixo calãoDiminuiu um pouco, mas a AIDS esteve em muita evidência nos meios de comunicação. De repente, atingiu pessoas de relevo e artistas com muita presença no monopólio da comunicação. A gravidade da sua evolução, a cura inexistente e a via transmitida sob a égide do instinto sexual, um aspecto da conservação da espécie, alarmou a população. O que não se cura tem que se evitar. Surgiram campanhas preventivas, não exatamente evitando a promiscuidade, mas enaltecendo o uso de um "equipamento de segurança" cujos relatórios de venda fazem a alegria dos laboratórios estrangeiros. Logicamante o alvo volta-se para o jovem e nisso a escola é chamada a participar. Os próprios pais, ávidos pelo surgimento de debates, palestras e até livros paradidáticos sob a forma de romance indicados para a leitura dos alunos nas escolas, sem maiores informações, aprovaram as campanhas. Também os pais leram os livros que têm sido indicados? A ausência do tempo livre do adulto, aliada ao estrangulamento da cultura e da economia, ao que parece, não tem permitido uma leitura cuidadosa dos romances fabricados para incluir "aulinhas" sobre o tema AIDS no seu contexto. Mas a expectativa (às vezes, o pavor) dos pais, dos professores, dos colégios e da população em relação ao assunto garante o grande sucesso comercial de várias destas obras. Entretanto, em algumas escolas, de maneira indefensável, encontramos obras pessimamente selecionadas. Infelizmente, também na de minha filha. Valeu o hábito de ler os textos recomendados. Sob o título Depois daquela viagem 3, aparecem as primeiras palavras de baixo calão, impublicáveis. Que nível baixo!
Sob pretexto, apresentar uma narrativa em tom coloquial e descontraído, uma linguagem chula toma o espaço da literatura para adolescentes. A escola justificou a indicação como um livro que leva a um estado ou "reflexão da realidade", expressão usual da sociologia tecnocrática e clerical que não significa absolutamente nada, a começar que o ambiente da tal realidade se situa quase todo fora do Brasil. A personagem principal nem de longe traduz as condições materiais da gente brasileira, colocando-se muito acima da média de vida dos brasileiros, uma vez que sempre dispõe de dinheiro para viagens e até tratamento no mais caro sistema hospitalar brasileiro. É desagregada e problemática. Incrível a poesia: "Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá". Citada entre aspas, na página 215, tem a palavra palmeira substituída por hortência. Ora vejam! Quanto à parte médica, há inúmeras e gritantes imperfeições que chegam a nos fazer desconfiar que a autora não saiba exatamente o que é AIDS. A evolução descrita não condiz com a realidade habitual quando há muitas características terminais e surge a paciente de carga viral indetectável com namorado não aidético fazendo "sexo seguro". Só faltaram falar que para ser feliz a pessoa tem que ter AIDS, sendo que até folhetos de "aulinhas" do Ministério da Saúde conseguem ter muito mais propriedade que aquelas inseridas na narrativa da jovem escritora. Bem, essa é apenas uma parte do que está acontecendo na seleção dos livros para os alunos adolescentes. Cabe dizer, portanto: Verifiquem as indicações, questionem. Temos à disposição dos leitores, no jornal, no endereço eletrônico mais informações. É preciso desencadear uma grande cruzada em torno da seleção dos livros escolares — cujas editoras estão sendo dominadas pelos especuladores estrangeiros. Quais são os livros indicados na escola do seu filho? Se forem obrigados a comprar um livro com textos tão absurdos, francamente, devolvam à escola e exijam o dinheiro de volta, porque a seleção estabelecida pelo estabelecimento é inadmissível. Convenhamos. Rui Nogueira é médico, pesquisador e escritor. End eletrônico: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. 1 — Veríssimo, Luis Fernando. As mentiras que os homens contam. Rio de Janeiro. Objetiva. 2001 2 — Lispector, Clarice, 1925-1977. A hora da estrela. Rio de Janeiro. Rocco.1998 3 — Polizi, Valéria Piassa. Depois daquela viagem; diário de bordo de uma jovem que aprendeu a viver com AIDS. 19ª. edição. Ática. São Paulo. 2005.
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Marx & Engels |
| Nº 89, maio de 2012 |
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