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| O novo tempo camponês |
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| José Ricardo Prieto e Ana Lúcia Nunes | |||
Goiânia, localizada na região mais ao centro do país, Goiás. Seus gerentes orgulham-se por manter o estado como um dos sustentáculos do latifúndio, tanto de velho quanto de novo tipo. Goiás é o maior produtor de soja e tomate do país. Ali também convivem trabalho escravo, coronelismo e salta aos olhos a contradição entre latifúndio e camponês pobre.Foi assim, cercados pelo latifúndio, que os camponeses pobres do Brasil realizaram o I Encontro de Lideranças do Movimento Camponês Combativo — que representa um decisivo passo para a organização nacional camponesa.
Foram os ativistas do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR) que conquistaram o espaço que sediou o evento camponês na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás. Entre orgulhosos e admirados, viram as dependências da Faculdade encherem-se do vigor daqueles que trazem no rosto a marca do trabalho e o ardor de quem promete modificar as estruturas deste país, com a sua revolução agrária. Participaram do encontro cerca de 220 pessoas, representando mais de 20 entidades, reunindo as experiências de diversos movimentos independentes e de atuação regional, primeiro passo dado na direção de um movimento unificado. As ligas de camponeses pobres de Rondônia, do Norte de Minas e do Centro-Oeste, enviaram suas delegações, bem como o Grupo da Terra (CE), a Escola Popular e a Associação dos índios Tapeba, do Ceará. Compareceram ainda o cacique Werá Tupã Leonardo, dos índios guaranis, de Santa Catarina; membros dos sindicatos dos rodoviários e da construção civil de Belo Horizonte; sindicato dos comerciários de Betim e de Juiz de Fora; a Associação dos Docentes da Universidade Federal de Uberlândia (filiada ao ANDES-SN e representada pelo professor Paulo Gomes); professora Marilsa Miranda, da Universidade Federal de Rondônia; Escola Popular Orocílio Martins Gonçalves, de Belo Horizonte; coordenação de lutas camponesas do Pará e Tocantins e Escola Popular do Pará; Liga Operária; Frente Cultural; MEPR e A Nova Democracia. Completam a lista o Socorro Popular; o Movimento Feminino Popular; o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Espigão do Oeste (RO); Luta Popular pela Moradia; o Centro Brasileiro de Solidariedade aos povos; Grupamento Estudantil Antiimperialista (Uruguai) e a Associação dos Assentados da Pedra Vermelha, de Pernambuco. O encontro foi realizado com recursos arrecadados nas regiões onde atuam os diferentes movimentos, que asseguraram o transporte de regiões distantes, como Rondônia e Pará, até Goiânia. A organização contou com a participação decisiva dos ativistas do MEPR, que além da conquista do espaço físico, empreenderam a campanha de arrecadação, assegurando a alimentação de todos. Esses também organizaram a cozinha e a creche para os filhos dos camponeses presentes. Em dois dias de debates, foram discutidas questões fundamentais para o desenvolvimento da luta pela terra no Brasil. Exemplos históricos se sucederam nos relatos animados dos camponeses que revelaram conhecer sua história e a estratégia do povo trabalhador e explorado. Súbito, os debates se depararam com uma nova necessidade: a aplicação de uma tática capaz de impulsionar a luta revolucionária no campo, romper o cerco do latifúndio e da repressão do Estado nas área dos grandes latifúndios. Nova táticaApós a abertura, às 9 horas do sábado, dia 21 de janeiro — onde os camponeses entoaram A Internacional —, a plenária iniciou o informe e os debates sobre a situação política nacional e internacional. Nesse ponto, se destacou a análise de que o imperialismo vive sua fase mais degenerada e que apenas se sustenta porque desencadeou, na década de 90, uma grande ofensiva contra-revolucionária. O USA, para garantir sua hegemonia, empreende todos os meios militares, para dar prosseguimento à sua política de agressão, sendo sintomas claros a invasão do Iraque e o triunfo do oportunismo em todos os países da América do Sul. Os camponeses, ao discutirem a questão agrária e camponesa no Brasil, vêem em números o que sentem na própria pele: 1% dos proprietários de terras concentram 50% de todo território nacional. A enorme concentração da propriedade fundiária é um dado revelador e, com a penetração do capital financeiro no campo, com modernas máquinas e novas técnicas de produção, a tendência à concentração da terra se fortalece. A verdade é que a destruição do latifúndio, de novo ou velho tipo, é uma necessidade cada vez mais urgente, sem a qual os camponeses não podem possuir sua própria terra, e tampouco o Brasil começar a empreender o caminho da independência nacional. Foi esclarecida a política demagógica de reforma agrária promovida pelo Estado, que além da própria insuficiência de projetos, divulga números que são contestados até mesmo pelas direções oportunistas infiltradas no movimento camponês. O agravamento da situação dos camponeses pobres, a existência de movimentos ainda espontâneos e o aumento da repressão do Estado e dos latifundiários impõe a aplicação de uma nova tática para o movimento camponês. Ao mesmo tempo, a nova tática prevê que as formas regionais de organização devem evoluir para o desenvolvimento de uma coordenação nacional para o movimento camponês revolucionário, afirma o documento distribuído no Encontro. A noite chegou. O debate, que só conheceu uma pausa para o almoço, foi novamente interrompido para o jantar — quando o ambiente se tornou repleto de canções populares interpretadas pela Frente Cultural e por alguns camponeses, que mostraram composições feitas dentro das áreas conquistadas ao latifúndio. As composições mostravam desde o momento da entrada dos camponeses na terra até o cotidiano de um acampamento, com ritmos que empolgaram a platéia. O povo Tapeba representou, através de uma peça, a vitória da tribo na expulsão dos posseiros de suas terras. Cantaram e dançaram as músicas de sua gente. O domingo encontrou os camponeses de pé antes do sol nascer. A primeira atividade após o café foi a formação de grupos para a discussão aprofundada do documento Nosso Caminho, produzido pelas ligas dos camponeses pobres. Neste documento está exposta a história do movimento camponês no Brasil, seus êxitos e derrotas, o papel desempenhado pelo Estado na eterna proteção do latifúndio que é uma das bases de sua sustentação, a necessidade da conformação de um movimento camponês revolucionário e as novas formas de organização. Em seguida, na plenária, foram abertas concorridas inscrições para as falas sobre o documento. A diferença é a atitudeAND entrevistou o camponês José Sérgio de Oliveira Rodrigues, de Quipapá, Pernambuco, que deu um depoimento sobre a situação em que estão seu irmão, José Ricardo Rodrigues e os outros camponeses presos acusados de matar um policial em janeiro de 2005 (nesta edição, pag. 15). Na ocasião, José Sérgio deu sua opinião sobre o Encontro e discorreu suas impressões sobre a Liga dos Camponeses Pobres: — Conheço a Liga há um ano. Eu estou achando interessante porque não tem acordo. O trabalhador não é submisso a nenhum latifundiário, mas ao seu próprio objetivo, que é a conquista da terra, a luta por uma sociedade mais justa. Esse encontro é um passo inicial para mostrar uma nova oportunidade aos trabalhadores que não confiam no movimento, tanto o MST, que é referência em nível nacional e internacional e está perdendo sua credibilidade, quanto outros, como a CUT. É a oportunidade de expandir esse diálogo para outros estados como foi feito em Rondônia, Minas, Pará, e mostrar para os oportunistas que a Liga é o momento. Para os militantes sem esperanças nos outros movimentos posso dizer que a Liga é o momento. Sobretudo, para mostrar para o Nordeste, que desconhece a Liga. Mostrar que a diferença está na atitude e não no discurso. A proposta aprovada no encontro revela claramente que as ligas de camponeses pobres não estão interessadas em fazer discursos, simplesmente, mas em colocar em ação a consigna de conquistar a terra. Por isso, decidem: implantar um programa agrário que consiste em tomar a terra, distribuí-la aos camponeses pobres sem terra ou com pouca terra; modificar as relações de produção e libertar as forças produtivas no campo, e organizar o poder político nestas áreas. Em suma, destruir o latifúndio e todo esse sistema de fome, miséria e exploração, para edificar uma democracia de novo tipo no país. Questão indígenaMais um almoço e retorno à plenária, desta vez para discutir a questão indígena. O que se depreendeu das falas dos representantes indígenas e dos camponeses é que a necessidade dos povos indígenas é a da posse da terra, mas é também da territorialidade, ou seja, de que eles, como povo que são, têm direito a um território seu, onde possam exercer livremente sua autodeterminação. A plenária concentrou toda a sua atenção nos relatos dos representantes indígenas sobre suas experiências na luta pela demarcação das terras, pela direção de suas escolas e contra a perda de sua cultura (ver matéria de Rosana Bond, pág.13, nesta edição). Também foi ressaltada a importância do apoio mútuo entre os indígenas e camponeses, já que se encontram pontos comuns na sua luta: a posse da terra que lhes é de direito. Essa terra é nossaQuase ao final do Encontro e eis que há uma surpresa. As crianças —muitas delas nascidas sob o fogo da luta pela terra — emocionaram a todos com a apresentação de um musical. Cantaram, dançaram, encenaram e soltaram um grito engasgado em suas pequenas gargantas: "Nem que a coisa engrossa, essa terra é nossa!". O encerramento do Encontro foi ainda precedido da eleição de uma coordenação nacional do movimento camponês combativo. Os eleitos se perfilaram diante da mesa e de lá pronunciaram, em coro com todo o auditório, o juramento de honrar o sangue dos companheiros tombados na luta pela terra até a destruição completa do latifúndio e o triunfo da revolução agrária. Libertar a terra toda
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| Nº 86, fevereiro de 2012 |
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