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| Vanja Orico: A arte de defender o povo |
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| Rosa Minine | |||||
Estreando no cinema ao lado de Lattuada e Fellini, a atriz, cantora, diretora de cinema e ativista política, Vanja Orico, teve seu nome gravado nas mentes e corações de inúmeras pessoas no mundo inteiro. Sendo uma figura bem brasileira, mesmo quando fazia personagens em filmes italianos, alemães ou franceses, Vanja foi premiada em festivais como o de Cannes e Karlovivary. Cantando “Sodade Meu Bem Sodade”, de Zé do Norte, no premiado O Cangaceiro, de Lima Barreto, divulgou nossa música popular pelo mundo afora, sendo a primeira brasileira a enfrentar a censura e cantar no Leste europeu.
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A atriz teve uma grande projeção no cinema, principalmente, nos anos cinqüenta, mas, a partir dos anos oitenta, começou a perder espaços na mídia. “Isso aconteceu porque, muitas vezes, os valores que ela prega, foram abandonados em detrimento de outros. A mídia tomou conta do mundo artístico, que está muito voltado para o mercado e a questão do consumo. Com isso, ela teve uma certa interrupção de sua busca, ou uma dificuldade de mostrar o seu trabalho. Mas não se entregou e está com novos projetos”, explica o filho.
O cineasta tem uma visão bem otimista quanto ao futuro. Para ele a cultura nacional vai acabar se impondo de alguma maneira. “Apesar de vivermos em um Brasil culturalmente dominado, existem focos de resistência e minha mãe faz parte de um deles. Acredito que a cultura nacional é algo muito forte e que por mais dominada que esteja, o povoa inda consegue identificar o que é seu. O Brasil tem um potencial cultural fantástico, faltando somente os canais para que isso se abra e, cedo ou tarde, isso vai acontecer”, acredita. “Até a nova geração já está começando a se preocupar com isso. Eles estão percebendo que a cultura de massa é muito igual. É inconsciente, não adianta querer destruir a cultura nacional, porque é algo natural e, uma hora ou outra, mesmo que dominem e abafem, aparecerá, como se fossem focos que vão se abrindo”, argumenta Adolpho.
Se a mídia fosse mais inteligente, diz Adolpho, perceberia que se investisse nos valores nacionais poderia encontrar uma forma de vender, porque atingiria mais profundamente a população brasileira e ao mesmo tempo, abriria mais canais de expressão.
Como mãe, Adolpho conta que Vanja mantém a mesma personalidade, sempre tentando passar para o filho a sua inquietação com a desnacionalização cultural e geral, e tentando envolvê-lo para que dê continuidade a sua luta. “Quando crescemos, ganhamos uma autonomia e, muitas vezes, tomamos posições diferentes de nossos pais, mas, por mais que eu queira ter tomado um caminho diferente do dela, de alguma forma, tenho continuado o seu trabalho, na luta para valorização da cultura nacional”, assume com carinho, acrescentando ainda que, diferente de sua mãe, é uma pessoa mais de idéias do que ações e acredita que a solução para os problemas está no campo das idéias, da cultura.
Minha mãe faz parte
de um foco de resistência
que luta contra
uma dominação cultural
que o país vem sofrendo
Adolpho Rosenthal
Na televisão, Adolpho já foi responsável pelo trabalho de investigação e desenvolvimento, principalmente na parte das aberturas, nas novelas da antiga Tv Manchete, como Pantanal, Ana Raio e Zé Trovão, Amazônia e Kananga do Japão, além da minissérie O Farol, baseada em um conto do seu avô Oswaldo Orico, que considera o primeiro artista da família e responsável pelo surgimento dos outros.
Atualmente Adolpho trabalha em sua própria produtora, é diretor do Globo Ciência, da Tv Globo e desenvolve outros projetos ligados a educação, como o programa Escola do Rádio na Tv, uma série de episódios voltados para a alfabetização. O objetivo é educar e dar ferramentas e conscientização para pessoas que estão aprendendo a ler e escrever. Uma produção independente, que no momento está sendo exibida na Paraíba, pela Tv Globo, mas deve ser vincular em todo o país.
É uma espécie de novelinha, em que atores vivem possíveis situações do dia-a-dia daqueles que estão aprendendo a ler e escrever e, ao mesmo tempo em que alfabetiza, ensina como tirar uma carteira, procurar pelos seus direitos, abaixo assinado, lutar contra determinada questão, fazer uma reclamação e outros.
“Estou tentando desenvolver projetos para televisão e cinema e também perseguindo algumas linhas ligadas à identidade nacional, mas voltada para a educação. Meu foco é o conhecimento através da educação e cultura. Como a televisão se tornou algo que, cada vez mais, está repleta de entretenimento e apelação, com programação ruim e desagradável, estou tentando aliar um programa de entretenimento com a informação e o conhecimento. Esse é o meu desafio na Tv”, confidencia.
No cinema, Adolpho está escrevendo um longa, já em fase final, que tem o título provisório de Enquanto Eu Estiver Vivo. “É um filme de ação que mostra a violência carioca e a falta de esperança e de valores que estamos vivendo no momento. No entanto, em determinada parte do filme, os personagens chegam a uma situação limite e aparece uma proposta de mudança e um novo caminho, mas isso não posso contar”, brinca com alegria.
Um filme para falar de Vanja Orico. Trata-se do projeto que o historiador Luis Carlos Prestes Filho, está realizando sobre Vanja. É um documentário de cinqüenta minutos. “Não pretendo fazer um trabalho que esgote o tema Vanja Orico, até porque ela é uma personalidade desse nosso Brasil, do meio artístico e a vejo como tema inesgotável. Tem várias facetas em sua vida e escolhi um caminho, uma maneira de o- lhar Vanja Orico”, comenta.
Luis Carlos se formou diretor de filmes documentários para cinema e televisão, na antiga União Soviética, por isso, faz questão de deixar claro que é um historiador e não documentarista.
Meu filme é sobre
a Vanja artista,
cidadã e patriota
Luís Carlos Prestes Filho
Para realizar o documentário Luis Carlos fez uma grande entrevista com Vanja, e também com deputados, jornalistas e artistas, que falaram sobre ela, e uma pesquisa profunda dos mais diferentes aspectos da artista. “O que pretendo com esse filme é mostrar a trajetória de Vanja, a única artista brasileira que interpretou uma personagem em um filme de Federico Fellini. Ela reproduziu exatamente o que nós conhecemos: para fazer sucesso no Brasil, a pessoa tem que fazer sucesso no exterior” analisa.
“Ao chegar no Brasil participou do filme O Cangaceiro, um dos filmes brasileiros mais exibidos no mundo. Cantando a música Sodade, Meu Bem, Sodade, fez com que esta ocupasse as paradas de sucesso, na mídia nacional e internacional, durante um longo período. Com esses dois trabalhos ela marcou a história do cinema brasileiro e mundial”, conclui.
Ele deixa claro que o filme não é somente sobre esses dois papéis de Vanja, mas todos os outros. “Quero mostrar a pessoa Vanja Orico, a artista e a patriota, que participou intensamente das lutas da juventude na resistência à ditadura militar no Brasil. O grito que deu, de joelhos na frente dos carros blindados do exército brasileiro, que estavam prontos para massacrar os estudantes, ecoou dentro das instituições políticas, como o Congresso Nacional e Assembléia Legislativa do estado do Rio de Janeiro. Na verdade, morreram dois estudantes, mas o seu gesto paralisou o massacre”, lembra.
Depois desta ocasião, Prestes conta que Vanja começou a ser bloqueada e perder espaço na mídia e sua imagem deixou de ser associada ao cinema e música e passou a ser a de uma atriz que não se conformava com a ditadura, a prisão, tortura e principalmente a falta de respeito para com a democracia. O filme, segundo Prestes, fala disso tudo.
“Para mim é uma honra poder estar convivendo com ela. Somos amigos há alguns anos e desde que voltei da União Soviética, em 1983, sempre nos visitamos e trocamos idéias. Atualmente, por estarmos no momento da realização das filmagens, estamos tendo uma convivência mais intensa”, conta.
Além do filme, a própria Vanja Orico está reunindo material para escrever um livro sobre sua vida, com título provisório de Ao Arrepio do Tempo.
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V. I. Lenine |
| Nº 89, maio de 2012 |
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