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| Inaugurada a ponte do povo! |
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| Mário Lúcio de Paula | |||||
Quando da edição 32 de AND, faltava pouco para a conclusão da ponte construída pelos camponeses das regiões de Varzelândia e São João da Ponte, no Norte de Minas. No dia 9 de dezembro de 2006 foi inaugurada a Ponte da Aliança Operário-Camponesa.Fotos: José Ricardo Prieto
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Gaspar, um dos idealizadores da obra |
— A ponte é a coisa mais importante que fizemos aqui na área. Já passamos várias dificuldades, mas unidos, vencemos todos os problemas. Lembraremos para sempre destes dias — Elizabeth Ferreira, camponesa da área Paraterra I.
— Este passo foi vencido, estamos muito contentes. O trabalho é bom mesmo quando vemos que deu certo. Aí lembramos dos problemas e das pessoas que falavam que não ia dar certo. Então, vemos que a decisão valeu e que valeu o trabalho. Agora estou pensando lá na frente: se temos a ponte, vamos construir estradas para transportarmos toda a produção das áreas e organizar o nosso comércio.... — Bigode, coordenador de Produção da Liga dos Camponeses Pobres.
— Sou de falar pouco, mas estamos de parabéns! Todos que trabalharam, todos que apoiaram, todos que vieram ver. Muito obrigado e podem contar com a gente sempre — senhor Gaspar, um dos idealizadores da ponte, apoiador da Liga dos Camponeses Pobres, durante a cerimônia de inauguração.
O nome Ponte da Aliança Operário-Camponesa foi decidido pela Assembléia Popular, numa sessão que reuniu todas as famílias envolvidas nas obras, que tomou as decisões e dirigiu todo o processo. Nenhum outro nome expressaria melhor esse momento histórico, esse ânimo, essa camaradagem feita de causas mais justas entre operários e camponeses.
Essa ponte tem tamanha importância não por ter sido edificada pelas políticas assistencialistas do governo, nem por uma grande empreiteira, mas por camponeses e operários de diversas especialidades, que enfrentam diariamente as mais duras condições de exploração e arrocho e vendem a sua força de trabalho a um preço ínfimo aos patrões. E estes camponeses e operários, em meio à luta, bombardeados pela agitação contra-revolucionária do latifúndio, da burguesia e dos oportunistas, planejaram e ergueram uma ponte, trabalharam voluntariamente, sem qualquer remuneração. Alguns mesmo venderam bens para contribuir, doaram um dia de seu trabalho, apesar de se encontrarem cansados.
A decisão de realizar uma obra deste vulto representa de fato um grande salto na luta pela terra, comprovando tudo o que temos ouvido e visto ser aplicado pelo movimento camponês combativo em nosso país. Significa o começo de uma viragem histórica. É uma pequena demonstração de como se dará a Revolução Agrária defendida pela Liga dos Camponeses Pobres.
A burguesia sabe bem dar publicidade àquilo que julga necessário e importante visando perpetuar o atual estado de coisas. Exalta seus empreendimentos, suas iniciativas ‘modelo', às quais dedicam páginas e mais páginas nos milhões de exemplares dos seus jornais e revistas, telejornais, etc. como se fossem arrojados projetos de interesse e orgulho nacional. A imprensa popular e democrática, por sua vez — e disto tivemos comprovação prática no decorrer de todas as atividades de edificação desta ponte —, deve sim dar lugar às realizações e avanços promovidos pelo nosso povo, a iniciativa criadora das massas, como exemplo de trabalho voluntário, uma obra de nova democracia, destinada a todo povo trabalhador.
Dona Elizabeth, coordenadora da Associação dos Camponeses do Paraterra I convidou-nos para o almoço. Foram formadas duas filas. Uma de mulheres e crianças, outra para os homens.
— As mulheres são servidas primeiro para alimentar as crianças. Aqui é assim. O Movimento Feminino Popular tem nos ensinado muitas coisas. Entre elas, que as mulheres são metade da classe, e são a metade mais oprimida. Esta luta só pode ser travada se assumirmos a frente e os companheiros nos apoiarem decididamente. — explicou Edna, uma das coordenadoras do MFP presentes.

E mais, a democracia nas áreas camponesas serve para todos em seu pleno sentido. Para que ela exista, todos devem se submeter às normas estabelecidas e aprovadas pelo coletivo. A minoria se submete à maioria e todas as decisões são tomadas através do debate franco e aberto, para que a vontade única se materialize de vez.
Os convidados para a inauguração da Ponte, incluindo nossa reportagem, tiveram de cumprir e zelar pelas decisões do coletivo, começando pela alimentação.
E a luta pela produção faz com que se desenvolvam relações superiores, baseadas no companheirismo, e não no individualismo. A democracia nas áreas camponesas é baseada nas decisões do coletivo e fruto da luta pela destruição do latifúndio e construção de novas relações mais avançadas.
As brigadas, por exemplo, se revezavam na edificação e cultivo de seus lotes. José Osmar da Silva, o Mazinho, foi o coordenador político da construção da ponte. Ele tinha que estar presente todos os dias na obra, ficando impossibilitado de cuidar da sua roça. Este problema foi logo solucionado por uma brigada de jovens, que realizou a limpeza do seu lote e o plantio. Sem pedidos, sem queixas, sem barganhas, porque todos reconheciam e trabalhavam ali para o bem comum.
São João da Ponte foi um dos municípios com maior índice de boicote às eleições nos dois últimos processos eleitorais. Isso, sem sombra de dúvida, devido à grande experiência de luta das massas daquele local. Precisamente na localidade onde a ponte foi construída, envolvendo ainda as famílias das outras áreas que trabalharam na obra, houve 100% de boicote às eleições. Ou seja, ninguém foi votar. Afinal de contas, isto não se faz necessário onde são as famílias que decidem. A ponte demonstrou que o povo pode viver muito bem sem dois elementos que só sobrevivem sugando o sangue e o suor dos que trabalham: um é o patrão. O outro são os políticos profissionais que só aparecem quando vão pedir votos.
A inauguração da ponte, conforme descrevemos anteriormente, envolveu 12 comunidades. Todas estiveram presentes nas atividades, até as crianças. Cada qual da sua forma.
A área foi toda enfeitada com bandeiras vermelhas da Liga dos Camponeses Pobres. Esta tarefa coube a uma brigada que cortou os mastros e distribuiu as bandeiras ao longo do caminho que dá acesso à ponte. Um outro grupo foi destacado para cuidar da cozinha coletiva. Homens e mulheres prepararam os fogareiros e a alimentação para mais de 600 pessoas presentes.
— O mais importante disto tudo — explicou Galego (Denizart de Souza), da Liga dos Camponeses Pobres — é que cada um participa da parte que acha mais importante. Mas todos sabem que sua parte contribui para o resultado final. Veja só: enquanto estamos conversando, os jovens estão disputando um torneio de futebol. Foi o pessoal das áreas que resolveu fazer este torneio para estimular a vinda de todos para a inauguração. Hoje cedo, muitas pessoas vieram para o culto ecumênico. Esse foi um dia muito esperado e nem todo mundo irá participar das atividades. Até as crianças ensaiaram as músicas que irão cantar antes da solenidade.
Mas a cerimônia de inauguração foi aberta com um ato político. Participaram os camponeses das áreas, os operários que trabalharam nas obras da ponte e os convidados. Os representantes de todas as áreas envolvidas na construção foram chamados para ir à frente e fizeram seus discursos.
— Esta ponte é a primeira, a mais preciosa, que vai ser o molde para muitas outras daqui em diante. Gostaria de ressaltar que foram muitos dias de trabalho, muita luta. Provamos que podemos fazer tudo! Conseguimos o material, fizemos o projeto; tudo com as nossas mãos. Esta ponte foi erguida sem a ocorrência de nenhum acidente de trabalho! Este é o resultado de um trabalho organizado e da iniciativa independente do povo e temos muito orgulho de poder participar disto — emocionou-se o operário Joaquim Pereira, que foi se lembrando de todos que trabalharam na ponte, citando nome por nome os mais atuantes.
Os camponeses foram unânimes ao fazerem menção a um fato, que ficou estampado na colocação do Adão, um dos coordenadores da área Paraterra I:
— Duvidavam que a gente seria capaz de levantar esta ponte. Não foram só os políticos. Tinha gente nossa mesmo que duvidava das nossas forças e da nossa competência. E o que temos hoje aqui? Temos a ponte! Esta ponte que vai servir a todos que quiserem passar por ela. Queremos agradecer os que estão presentes aqui e que acreditaram no nosso trabalho. Uma vez, quando fomos nos reunir com o prefeito de Varzelândia, ele perguntou o que a Liga tinha nos dado para construirmos a ponte. Ele queria dizer que a Liga não tinha dado nada de material, e justificar a não entrega de materiais por parte da prefeitura. E um companheiro disse: ‘a Liga deu organização, e o senhor, o que vai dar?'. O prefeito não teve o que responder.
A representante do Movimento Feminino Popular destacou o grande número de mulheres naquele ato e o papel desempenhado pelas camponesas na construção da ponte e em todas as atividades da Liga. Era uma grande verdade, todos acenaram com a cabeça.
— As camponesas com a sua organização conseguiram cumprir com uma reivindicação que faziam desde o começo das obras. Trabalhar na obra como operárias por um dia que fosse. E trabalharam! Amassaram o cimento. Foram as companheiras que fizeram o acabamento da Ponte e colocaram a última colher de massa!

O momento mais esperado da noite era o uso da ponte. Todos já a haviam admirado. Ela foi toda decorada com bandeiras vermelhas, interditada até o momento de cortar a fita. Numa das extremidades da ponte, uma grande faixa dizia: Obra construída em aliança operária e camponesa.
Os operários que projetaram e coordenaram as obras não podiam ser encontrados tão facilmente desde a nossa chegada. Espalharam-se pelas casas dos camponeses, ou estavam rodeados de amigos e dificilmente diferenciaríamos uns dos outros. Durante os meses de trabalho na ponte, os elos da aliança entre esses representantes das duas classes fizeram-se estreitos. Todos estavam orgulhosos e satisfeitos.
Um sinal convencionado e o pavio foi aceso. O ribombar dos foguetes foi acompanhado por uma salva de palmas. Uma placa encarnada com letras douradas foi descoberta e a fita vermelha cortada. Todos ocuparam a ponte, emocionados e felizes. Uma tarefa cumprida, com o trabalho de todos.
Na sequência, um bingo sorteou um bode assado e dois frangos. O dinheiro arrecadado com a venda das cartelas foi imediatamente destinado para cobrir os gastos com as obras. Um forró animado entrou madrugada afora.
No dia seguinte todos se preparavam para partir. Os coordenadores das áreas realizaram durante a manhã uma reunião para debater e planejar as atividades da Liga dos Camponeses até o próximo encontro. Enquanto isto, a Frente Cultural de Belo Horizonte começou uma pequena roda. Os sons do violão e do batuque foram crescendo. Os adultos se aproximaram e um coro se fez ouvir. Alguns instrumentos de percussão foram distribuídos e conformou-se uma banda. As crianças, que observavam tímidas, se animaram e tudo virou uma grande festa. Músicas populares, cantigas de roda, canções da luta do povo. E a roda se abriu com jovens e crianças.
Almoçamos todos juntos. A hora de partir foi anunciada com os trovões. A chuva, tão desejada no Norte de Minas Gerais pelos camponeses para o plantio, tem castigado duramente as rodovias e os veículos. Decidimos partir logo.
Agradecemos o convite e a acolhedora recepção de nossos amigos camponeses, colaboradores de tantas matérias. Na despedida prometemos breve retorno para documentar outros momentos de suas lutas.
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| Nº 89, maio de 2012 |
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