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| Coisas de criança em tempo de boas tormentas |
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| José Milbs | |||
— Puxa, vô, sabe da Lúcia? Ô, vô!!! Aquela que o pai dela trabalha na Prefeitura.— Sim, minha filha, o que tem ela? — respondeu feliz o Nicanor, quase que agradecendo a menina por tê-lo feito voltar ao real. Nicanor sabia que o diálogo seria esticado e isto fazia bem a ele, que gostava das longas conversas com as crianças, coisas que pareciam estar acabando. — Ela faz aniversário juntinho comigo e com aquela menina que o pai também trabalha na Prefeitura. Só que o pai da Lúcia é secretário do prefeito e o pai da outra — a Marta, que tem cabelos assim, oh, como falei —, trabalha no caminhão do lixo. Sabe o que ela me disse na Praça da Matriz, vô? — Não. Conte aí — disse o Nicanor buscando posição mais confortável na velha cadeira que, pelo uso e tempo, capengava de um lado para o outro... — É que o pai dela — quer continuar a menina... — Dela, quem? Conta direito, Clara! — Ô, vô! Da Lúcia! A que o pai é secretário do prefeito, um homem gordão, careca e que anda com um outro, altão, bigodudo ... A menina se ajeita nos braços do avô: — Deixa eu contar. O pai dela perguntou o que ela queria de aniversário. Uma festa ou 5 mil reais para ela gastar como quisesse. Ela preferiu a festa. Ela disse, na pracinha, que o secretário gastou foi mais de 60 mil. Ih, mais até! Tanta gente que ela nem podia ficar com as amiguinhas. Ela disse que o pai dela e outros secretários da Prefeitura, todos, estão comprando terrenos, construindo, e que contratam um montão de seguranças para evitar os ladrões. Ela disse que a irmã do prefeito comprou uma mansão também, de mais de um milhão, de um vereador. Pagou assim, oh: pum! Nicanor achou graça do relato da netinha. Olhava-a admirando sua beleza, seu espantoso crescimento físico e intelectual. E se perguntava pela forma que acabaria assumindo a narrativa, aquele estilo que enriquecia a cada dia, entremeado de opiniões curtas, decididas, definitivas, repleta de dúvidas e considerações filosóficas. “Mas que tempo ruim”, pensava ele. “Nossas crianças crescem em meio a uma guerra suja, imunda. Mas, talvez por isso, nossas crianças crescem e crescem, rápido... e falam dessa maneira, conspirando.” — Ah, o que não vem por aí — deixou escapar Nicanor. — O que, vô? Vem o quê? Bom, sabe o que essa menina falou? — continuou a netinha — que os amigos do pai dela e toda a família do prefeito estão preocupados com uns doutores do ministério da polícia... — Ministério Público, Clara. É Ministério Público. — ... mas deixa eu contar, vô! Então, o pai dela disse que estão investigando muito a vida deles, aqui na cidade. Os vereadores e todos os secretários ficaram ricos da noite para o dia. Dizem que querem prender eles, igual àquele menino que roubou um tênis do Adolfo, lá do bar, e a policia levou para a delegacia. Mas ela também acha que não vai dar em nada. Uma colega disse para a Lúcia que os amigos do pai dela vão apanhar igual o menino do tênis. Aí, ela respondeu que eles têm advogados e muitos amigos nas altas. Mais, vô, a professora disse outro dia que a justiça é cega. É igual para todos, né? Eles vão levar uma baita de uma surra, não vão? A menina fixou seus olhos nos do avô e, como que lendo seu pensamento, concordou: — É, está bem, o senhor acha que não vai acontecer nada... Eu também.
II
Enquanto fala, os olhos lindos de Clara viajam por entre as dezenas de árvores, sobem e alcançam os pássaros lá no céu. Depois, focalizam duas borboletas amarelas que se aproximam dela e do ancião. Aqueles olhos tão vivos sobem de novo, ocupam todos os espaços —coisas que os adultos desaprendem com o tempo — e quase chegam às nuvens que anunciam mais chuva.
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| Nº 89, maio de 2012 |
| Edición en español |