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| Prefeitura do Rio volta a atacar o proletariado |
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| Marcelo Salles | |||
Moradores do Canal do Anil, em Jacarepaguá, foram atacados pela Prefeitura do Rio de Janeiro dois dias após o encerramento dos Jogos Pan-Americanos. Oito casas foram derrubadas, mas a resistência organizada evitou outras 31 demolições. Juiz concedeu liminar suspendendo a ação da tropa de choque de César Maia, nitidamente a serviço da especulação imobiliária.![]() Resistência organizada no Canal do Anil para impedir a demolição de casas pela prefeituraBastou que terminassem os Jogos Pan-Americanos para que a Prefeitura do Rio de Janeiro retomasse seu projeto de expulsão do proletariado das novas áreas de especulação imobiliária. No dia primeiro de agosto, dois dias após o fim do ufanismo barato de Galvão Bueno e companhia, os agentes da Prefeitura invadiram o Canal do Anil, em Jacarepaguá, com o objetivo de derrubar 37 casas previamente escolhidas. Mas os dois caminhões repletos de operários com marretas e a tropa de choque da Guarda Municipal não foram suficientes. A resistência popular falou mais alto e apenas oito casas foram atingidas, sendo que quatro permanecem de pé.Em resposta à agressão, os moradores tentaram furar os pneus dos veículos invasores e ergueram barricadas com pedregulhos e troncos de árvore para evitar a chegada de tratores. A responsável pelo Programa Morar Sem Risco da Prefeitura, Maria Helena Salomão, foi expulsa do bairro pelo povo aos gritos de mentirosa. No dia seguinte, 2 de agosto, a Prefeitura voltou à carga. Dessa vez encontrou uma resistência ainda mais organizada: parlamentares, diversos integrantes dos mais variados movimentos sociais, além da defensora pública Maria Lúcia Pontes e do jurista Miguel Baldez, coordenador do Conselho Popular, fizeram frente à tropa de choque de César Maia. Nenhum outro imóvel foi atingido. Como AND havia adiantado em sua edição 35, no início do ano a Prefeitura havia demarcado 542 casas para serem destruídas. A reportagem passou os dias 2 e 3 de agosto no Canal do Anil e ouviu cerca de 50 moradores. Trata-se de uma favela no bairro do Anil, cujo nome vem de uma planta que existia ali e era utilizada para quarar roupas. As casas foram sendo construídas às margens de um canal de 2,4 quilômetros de extensão, sendo que no início as construções são melhores e a via principal é asfaltada. Do meio para o final, só chão de barro — e a frequência de casas de madeira aumenta progressivamente. A localidade termina no limite com a Vila Pan-Americana. Alguns moradores venderam seus imóveis e foram embora. Houve uma senhora que queria retornar ao Nordeste e viu na oferta da Prefeitura uma oportunidade. Outro pegou o dinheiro e vai construir num terreno que possui na Zona Norte. Mas, pelo que vi e ouvi, esta não foi a regra. Muitos moradores reclamaram dos baixos preços oferecidos e houve até quem tivesse a casa destruída sem nem ter sido procurado pela Prefeitura. É o caso de Maria da Penha Pinheiro, que morava no Rio das Pedras, de aluguel, enquanto sua casa no Canal do Anil estava interditada pela Defesa Civil, mas para onde pretendia voltar em breve. Às 9h29 da sexta-feira, dia 3, ela entrou na Associação de Moradores, nervosa e assustada: — Derrubaram minha casa e ninguém me falou nada! Não tenho mais como pagar o aluguel! Para onde vou com minhas três filhas? — perguntava repetidamente. Resistência popularTão rápido quanto puderam, os moradores se organizaram para resistir à invasão da Prefeitura. Foram erguidas duas barricadas com troncos de árvores, pneus e pedregulhos para evitar a chegada de tratores. Paralelo a isso, os deputados federais Brizola Neto e Edson Santos, além do vereador Eliomar Coelho e do deputado estadual Marcelo Freixo estiveram no Canal do Anil, tomando posição favorável aos moradores. Além deles, Maria Lúcia Pontes, defensora pública do Estado do Rio de Janeiro, Miguel Baldez, advogado e integrante do Conselho Popular e Leonardo Chaves, subprocurador-Geral de Justiça, estiveram na localidade.Os dois primeiros dias da invasão, 1º e 2 de agosto, foram os mais tensos. Junto com moradores, Brizola Neto, Edson Santos, Eliomar Coelho e Miguel Baldez chegaram a entrar nas casas para impedir as demolições. — Se quiserem derrubar, vão ter que derrubar por cima da gente. Os agentes da Prefeitura ameaçavam: — Vamos derrubar, então. E Miguel Baldez, aos 73 anos de idade: — Então derrube, mas vocês vão ter que arcar com as consequências! Não derrubaram. Das 37 casas previstas para demolição, a Prefeitura conseguiu derrubar apenas seis. Há uma discussão acerca da finalidade da verba encaminhada pelo governo federal, via Ministério dos Esportes, para a Prefeitura lidar com o Canal do Anil. Os parlamentares e os moradores ressaltaram uma posição dúbia do ministro Orlando Silva, que teria dito que os R$ 3 milhões, oriundos do Fundo de Amparo ao Trabalhador, deveriam ser usados para "urbanizar a comunidade". Entretanto, em declarações públicas o ministro chegou a falar que a verba seria usada para a retirada da favela. Durante os dias em que estivemos no Canal do Anil, ficou bastante evidente que o desejo da maioria dos moradores é permanecer no local. Os que aceitam sair pedem pelo menos condições justas. — Com 5, 6 mil não dá pra comprar nada nem em outra favela! — argumentaram. Houve também quem criticasse o súbito interesse da Prefeitura pela área, como é o caso do pescador Jorge Pereira Lopes, de 46 anos. — Moro aqui há 36 anos. Meu filho estuda aqui pertinho. Em 1974, aqui era uma trilha. Não tinha nada. A gente tinha que pegar água lá na Gardênia [bairro vizinho]. Lembro que a gente construía os 'Ralas', um galão de vinho de madeira onde a gente colocava um arco de ferro e ia rolando. Eu morava num barraquinho de madeira e o que construí aqui levou muito tempo. Encaramos muita enchente, enchente brava, de água rolar 2 metros e a gente ter que ficar na laje para não morrer. E a Prefeitura nunca fez nada! — afirma. — A cabeça da gente não fica boa não, moço. Quando tenho que sair de casa para trabalhar, não consigo parar de pensar nos meus filhos. Eles prometem voltar a qualquer momento e essa casa é a única que a gente tem pra morar — diz uma moradora referindo-se às constantes ameaças dos agentes da Prefeitura, que alertavam: — Nós vamos voltar e não vai sobrar pedra sobre pedra. Os deputados não vão ficar aí todo dia. Luta de classes
O presidente da Associação dos Moradores, Francisco Alberto dos Santos, vem trabalhando dia e noite para resistir às investidas da Prefeitura. Na sede da associação ele fala que existe uma clara disputa de classes pela terra. A imprensa deles
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![]() Obras Escolhidas IIIMao Tse Tung480 páginas De |
| Nº 89, maio de 2012 |
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