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Há
mais de 30 anos, desde a revolta camponesa Naxalbari, liderada pelo
dirigente comunista Charu Mazundar, se desenvolve na Índia um processo
revolucionário. Hoje, em diferentes regiões do país se expande a guerra
popular dirigida pelo Partido Comunista da Índia (Maoísta), nascido da
fusão do Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista) (Guerra
Popular) — PCI (ML)(GP) com o Centro Comunista Maoísta da Índia — CCMI.
O PCI (M) tem presença em 15 estados e em pelo
menos 4 deles essa presença é bastante expressiva: Andhra Pradesh,
Jarkhand, Bihar e Chattisgarh. De acordo com o Fórum de Resistência dos
Povos de Toda a Índia, "a guerra revolucionária agrária tem avançado no
país apesar da brutal repressão que está enfrentando. Numerosas zonas
de guerrilha foram criadas em vários estados e estão agora avançando
para o estabelecimento de Bases de Apoio. E existem organizações de
massa em todo o país que se espalham em uma ampla rede de influência em
vários setores sociais de classes".
A chamada modernização introduzida pelo imperialismo na Índia teve
poucos resultados nas estruturas semifeudais que ainda existem no país.
De país colonial, a Índia tornou-se um país semicolonial, substituindo
o domínio britânico pelo domínio do imperialismo ianque. E para o Fórum
de Resistência, esta chamada modernização "se liga ao que é reacionário
e atrasado no país e sua tecnologia moderna chegou empurrando milhões
para fora de seus empregos e forçando-os a procurar qualquer meio de
subsistência no vasto submundo semifeudal e retrógrado da humanidade".
Apontada pelos monopólios de imprensa como um dos principais países
"emergentes" do mundo, a Índia vive uma realidade de crise. A pobreza,
o analfabetismo, a desnutrição e os problemas ambientais seguem se
aprofundando. O conflito de classes se agrava a cada dia. E o velho
Estado indiano, burocrático, latifundiário, pró-imperialista e
expansionista impõe leis de exceção e uma sistemática repressão
policial-militar contra o povo.
Chattisgarh
Em Chattisgarh, na Índia central, a luta revolucionária protagonizada,
sobretudo, pelos camponeses pobres, incluindo os adivasis — os povos
tribais — se desenvolve. E o distrito de Dantewada segue sendo o
epicentro da luta dos Naxalitas (como são conhecidos os guerrilheiros
maoístas indianos). Principalmente depois que o Estado indiano
impulsionou a criação, em 2005, do grupo paramilitar, segregacionista,
racista, de extrema-direita, chamado Salwa Judum, propagandeado como
sendo uma "campanha pela paz".
Informações
divulgadas pelos monopólios dos meios de comunicação descrevem o Salwa
Judum como sendo uma reação espontânea à "opressão maoísta" e o saúdam
como decisivo na luta contra os Naxalitas. No entanto, este não é um
movimento espontâneo, e sim parte de uma campanha de
contra-insurgência, organizada pelo Estado indiano.
Os
camponeses pobres e os aldeões apóiam os guerrilheiros maoístas e isso
impossibilitou o governo de isolar os Naxalitas. Daí o esvaziamento das
aldeias em larga escala — nos moldes da campanha contra-insurgente que
o imperialismo ianque usou no Vietnã e, recentemente, em outros países
onde as massas populares desenvolvem lutas revolucionárias. É a
tentativa de "tirar os peixes d’água".
Ao contrário de ser uma "missão de paz", esta política resultou numa
escalada crescente de violência contra o povo. E o Salwa Judum atua
como uma milícia a serviço do Estado indiano, operando em ambiente de
total impunidade. As aldeias são esvaziadas com violência. Crianças e
velhos são espancados; e mulheres são violadas pelas forças de
segurança e membros do Salwa Judum.
O Estado indiano alimentou sua política antinaxalita apoiando-se na
base social de sustentação desta milícia, composta por classes e
setores de classe que se consideram vítimas da política maoísta. Por
exemplo, pessoas que perderam cargos de autoridade nas aldeias; pessoas
cujas terras foram redistribuídas aos camponeses pobres; comerciantes
cujos lucros despencaram, etc.
Tal situação foi verificada por uma comissão da IAPL — Associação
Internacional dos Advogados do Povo, que visitou a Índia no final de
outubro. Abaixo, seguem trechos do relatório preliminar elaborado por
essa comissão.
Observações
preliminares e resultados da equipe da IAPL sobre a situação dos
direitos humanos em Chattisgarh, Índia, particularmente dos adivasis na
região Bastar
Como um grupo internacional de
advogados de direitos humanos de vários países, especialmente onde a
exploração é mais severa, as violações aos direitos humanos são
generalizadas e as lutas dos povos são mais intensas, a Associação
Internacional dos Advogados do Povo (IAPL, em inglês) apóia todos os
direitos e lutas dos povos.
A IAPL foi convidada por sua seção
indiana para visitar, observar e relatar a situação em Chattisgarh. A
IAPL formou sua equipe de investigação com participantes do Brasil,
Bélgica, Holanda, Filipinas, Turquia e Índia. Ela visitou Raipur,
Jagdalpur, Dantewada, e suas respectivas áreas rurais entre 22 e 26 de
outubro de 2007.
A missão de busca e investigação incluiu visitas às pessoas desalojadas, ou acampamentos de IDPs (Internally Displaced Persons/Pessoas Internamente Desalojadas),
em Dornapal, e às vilas abandonadas em Penta e Dubbattota, onde puderam
entrevistar integrantes das comunidades tribais. Também foram à Corte
Superior de Chattisgarh e à Penitenciária de Raipur para falar com
advogados e presos.
A Missão examinou relatórios e comentários
anteriores de organizações de direitos humanos, grupos de mulheres,
médicos e especialistas no conflito em curso em Chattisgarh.
A Missão pôde, em termos gerais, confirmar
as relatadas violações aos direitos humanos e pretende contribuir para
quebrar o silêncio em torno da situação dos povos tribais e assuntos
correlatos.
A Missão observou um generalizado e
sistemático despejo de moradores das vilas. Desde a criação da chamada
campanha Salwa Judum, em junho de 2005, os povos tribais têm sido
forçados a deixar suas vilas e mudar-se para vários "acampamentos de
tratamento" em Bastar e Dantewada.
Sem prejuízo de um final e completo relatório da Missão, os seguintes pontos nos preocupam profundamente:
1 Um modus operandi ilegal, violento e agressivo
A campanha Salwa Judum pretende concentrar os povos tribais de
Dantewada nos chamados "acampamentos de tratamento" com a aquiescência
e mesmo bênçãos do estado de Chattisgarh. Os que se recusaram a deixar
suas vilas foram forçados pelos agentes especiais de polícia (Special Police Officers — SPOs),
milícias da campanha Salwa Judum que não hesitam em usar coerção,
ameaças, intimidação, traição e violência para tal propósito. Foram
documentadas graves atrocidades cometidas por essas forças. O Estado
indiano tem responsabilidade nisso e tem que proibir a ação de grupos
paramilitares ou "vigilantes".
A Missão da IAPL tomou conhecimento de
vários relatos sobre pessoas que foram mortas, ameaçadas ou
perseguidas; de mulheres violadas; de crianças recrutadas para SPOs; de
casas sendo queimadas e de propriedades destruídas nas vilas.
A campanha Salwa Judum é caracterizada por
intimidação generalizada. A Missão observou um claro medo por parte dos
aldeãos e especialmente habitantes dos acampamentos em dar depoimentos
com liberdade. As pessoas são obrigadas a abandonar sua vila sob a
ameaça de serem consideradas membros ou apoiadores do grupo armado
Naxalita.
Críticos e dissidentes do regime e
políticas do Estado de Chattisgarh são considerados aliados dos
Naxalitas e são perseguidos.
Para nós isso é possível sob as condições
de "leis terroristas" como o "Ato de Segurança Pública Especial de
Chattisgarh", "Ato de Prevenção de Atividades Ilegais" e o "Ato de
Segurança Nacional", que têm amplas definições do que pode ser julgado
"atividade ilegal".
Um caso bem conhecido que chamou atenção da
Missão é o do Dr. Binayak Sen, um pediatra socialmente comprometido,
ativista pelos direitos civis, que está atualmente sob detenção por
criticar as políticas de Estado. A delegação da IAPL tentou visitar o
Dr. Sen na prisão para verificar sua condição e saber se seus direitos
[de preso] estão sendo respeitados, e submeteu um requerimento formal
para visita, mas não teve autorização dos superintendentes
penitenciários.
Outro método, documentado largamente, utilizado pelo Salwa Judum é a simulação de "conflitos".
Fomos também informados por fontes seguras que a Força Policial de
Reserva Central (CRPF) usa traje civil durante operações militares em
áreas conhecidamente controladas pelos Naxalitas. Isso põe abertamente
em risco, civis e não-combatentes.
2 Condições desumanas nos acampamentos
As condições de vida nos "acampamentos de tratamento" são inumanas. Nós
vimos com nossos próprios olhos que aos habitantes do acampamento são
dadas pequenas parcelas onde constroem casas primitivas e amontoadas.
Antes do povo tribal ser violentamente colocado nessas hamlets,
suas vilas eram áreas bem organizadas que se beneficiavam da atividade
produtiva agrícola. Mas foram obrigados pelo Salwa Judum a trocar suas
casas e campos por uma vida incerta nos acampamentos.
Há relatos de que pessoas foram enganadas
ou forçadas a ir para o acampamento. A maioria daqueles com quem
pudemos conversar expressaram-nos seu mais sério desejo de voltar para
suas vilas, residências, terras e próprio sustento. Os habitantes dos
acampamentos que tentam deixar os hamlets são interceptados, retornados para o acampamento e até mesmo punidos.
A existência dos acampamentos viola os direitos de livre locomoção, de
escolher o próprio domicílio e de viver em suas próprias vilas, e sua
liberdade de movimento reconhecida sob as leis e instrumentos nacionais
e internacionais.
A IAPL testemunhou grande número de
crianças vivendo nos acampamentos, ficando documentado que uma alta
percentagem delas ali estão desacompanhadas de seus pais. Fomos
informados que houve vários casos de crianças que estavam em escolas de
período integral que foram deportadas para os acampamentos sem o
consentimento ou conhecimento de seus pais.
3 Um futuro incerto para o povo tribal
Os habitantes de Chattisgarh estão sujeitos à incerteza em longo prazo.
Muitos habitantes dos acampamentos IDP expressaram uma grave ansiedade
sobre seu futuro. Ainda que agora estejam temporariamente sendo
supridos pelas autoridades dos acampamentos, não têm nenhuma garantia
sobre por quanto tempo tais "cartões de bolsa" serão providos. Suas
casas e terras estão abandonadas. Eles não sabem quando retornar às
suas vilas e o que irão encontrar em seu retorno. A Missão recebeu
informações confiáveis indicando que a maioria deles perdeu o direito
às suas terras uma vez que não as registraram.
Na atualidade as condições e programas nos
campos não provêm oportunidades para emprego reais e estáveis. Até
mesmo estimulam a situação de mendicância apesar dos precários projetos
de trabalhos manuais. O Salwa Judum está explorando a pobreza do povo
tribal e seu estado vulnerável para atraí-los para suas fileiras.
A Missão recebeu informações e dados de
várias fontes validando relatos de atrocidades cometidas especialmente
pelos militantes do Salwa Judum que constituem graves violações aos
direitos humanos e ao direito humanitário internacional.
A IAPL menciona em particular a Convenção
Internacional dos Direitos Civis e Políticos (ICCPR, em inglês), de
1966, a Convenção sobre os Direitos das Crianças, as Convenções de
Genebra de 1949, seus Protocolos de 1977, bem como o princípio
universal do direito inerente dos povos à auto-determinação.
Recomendações
A IAPL critica duramente as supra-mencionadas ações da campanha Salwa
Judum e o papel do Governo Indiano nela e cobra do governo indiano que,
imediatamente, aplique:
1 Respeito
aos direitos humanos e ao direito humanitário internacional no conflito
de Chattisgarh e em outras localidades semelhantes e responsabilize os
violadores.
2 Pare a
campanha Salwa Judum e toda respectiva e similar perseguição a
dissidentes políticos com base nas amplas medidas "anti-terrorismo" que
devem ser revogadas.
3 Desmanche
imediatamente os "campos de tratamento", permita ao povo retornar
livremente para suas vilas e respeite o direito à auto-determinação,
particularmente para os que se beneficiem diretamente de qualquer
atividade econômica em suas áreas.
4 Assegure assistência imediata para sua reintegração, reabilitação, indenização e compensação.
5
Permita a condução de missões de busca e investigação internacionais
mais detalhadas, completas e independentes, com acesso a todos os
acampamentos e vilas abandonadas, e outras partes do conflito, para
suplementar as observações e descobertas de outros indivíduos e grupos.
6 Melhore as
condições de vida das tribos no Estado de Chattisgarh e faça os
procedimentos adequados à satisfação de suas necessidades de saúde,
educação e emprego e assegure outros serviços sociais básicos.
7 Proteja os
advogados e outros defensores dos direitos humanos envolvidos na ajuda
aos povos tribais contra perseguições e ameaças e todos aqueles que
questionam as práticas ilegais concernentes.
8 Permita
que os Relatores Especiais das Nações Unidas para os Povos Indígenas,
os Assassinatos Extra-judiciais, as Execuções Sumárias e Arbitrárias, e
outros órgãos internacionais similares possam visitar e observar a
prática de "desalojamentos" e possam divulgar relatórios de violações
aos direitos humanos.
Associação Internacional dos Advogados do Povo
Nova Delhi, Índia, 27 de outubro de 2007

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