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| Imperialismo digital |
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| Marcelo Salles | |||
Lançada numa festa fechada em São Paulo, a TV Digital ficou muito aquém de suas possibilidades e o monopólio que controla os meios de comunicação no Brasil foi mantido.![]() A festa de lançamento, realizada numa sala de concertos da capital paulista e fechada para 600 convidados das redes nacionais privadas de TV, evidenciou o caráter mercantil da digitalização do veículo de maior alcance no Brasil. Para a esmagadora maioria da população, que não possui conversores ou aparelhos de televisão adaptados ao novo sistema, o sinal continuará analógico. E o que está em jogo? Por que tanto interesse em controlar a televisão brasileira? O escritor José Arbex Jr. nos oferece uma pista em seu livro O poder da TV: — A dinâmica da imagem requer respostas rápidas de quem a ela está submetido, por meio de reações reflexas e imediatas, impedindo a possibilidade de reflexão, constituindo-se num mecanismo extremamente eficaz de se manter oculta a estrutura que está na base do recorte segundo a ótica de quem controla os meios e a tecnologia dessa produção. A velocidade torna-se, assim, componente fundamental desse processo que exige sucessivos e novos eventos para despejá-los num público já adaptado a este ritmo frenético em que o excesso de informação, paradoxalmente, tem como objetivo tranqüilizar e anestesiar o indivíduo imerso ao caos, conduzindo-os a um estado de desinformação, redundância e não registro das informações. Vale enfatizar: o Brasil é um país que se comunica essencialmente pela televisão. Dados do IBGE informam que cerca de 95% dos brasileiros possuem pelo menos um aparelho de TV em casa. Além disso, os jornais são caros e possuem tiragem restrita. E, pra piorar, segundo uma pesquisa do Instituto Paulo Montenegro divulgada em 2005, apenas 26% dos cidadãos compreendem o que lêem. Há ainda o corte de classe: de acordo com o jornalista Gustavo Gindre, diretor do Instituto de Estudos e Projetos em Comunicação e Cultura, quem quiser ter acesso a aparelhos que transmitam o sinal em alta definição será obrigado a desembolsar algo entre R$ 5 mil e R$ 10 mil. Em entrevista ao jornal fazendomedia.com, Gindre afirma que na implantação do sistema brasileiro de TV Digital prevaleceu a velha fórmula descrita por Giusepe Lampedusa no clássico Il Gattopardo: "é preciso mudar para que tudo continue igual". — Tudo que significa mudar realmente o atual modelo de radiodifusão brasileira é descartado pelos donos das emissoras de rádio e televisão. Quando pensamos em uma TV interativa, por exemplo, significa que eles teriam que colocar um canal de retorno, colocar banda larga na televisão. E aí quem garante que o cara vai assistir TV? Ele poderá fazer outras coisas. O radiodifusor pensa assim: "TV interativa, um dia ela virá. Que bom que não é hoje". Tá todo mundo interessado em manter seu negócio, é assim que funciona. Por enquanto, o radiodifusor trabalha para manter a TV digital com cara de TV analógica. A principal mudança evitada pelo monopólio dos meios de comunicação no Brasil foi a multiprogramação. Com a digitalização da tecnologia, seria tecnicamente possível transmitir até cinco programações no mesmo espaço onde hoje é veiculada apenas uma. Além disso, o número de canais possíveis será muito maior. Se hoje ao longo da televisão aberta é possível alocar sete canais em boa qualidade de sinal (na chamada banda VHF), com a digitalização da tecnologia a televisão brasileira poderá transmitir desde o canal 7 até o 69. Isso tudo é possível devido à compressão do espectro, de modo que os 6 MHz disponíveis passam a ser muito melhor aproveitados. Novamente é Gustavo Gindre quem comenta: — A TV digital tinha capacidade de multiplicar por quatro ou cinco o número de canais disponíveis. E aí teríamos a oportunidade de criar outras emissoras públicas, emissoras estatais e até outras privadas. Permitiria uma mídia interativa! Democracia abortadaO jornalista também lembrou o potencial democratizante das chamadas tecnologias agregadas, como os programas desenvolvidos por universidades brasileiras.— A Unb (Universidade Nacional de Brasília) desenvolveu um software que colocava em cada Set-top Box da TV digital um cliente de e-mail para todo mundo que tivesse uma TV ligada em algum canal de retorno. Mas aí tem gente que diz que e-mail é um negócio particular, que o cara não vai querer ver na TV. Se ele tiver computador, tudo bem, ele não vai querer ver. Mas caso contrário, ele vai achar fantástico. E no Brasil apenas 20% das pessoas têm computador, enquanto 96% das pessoas têm televisão em casa. Então, a TV digital seria a maior ferramenta de inclusão digital que esse país já viu. Mas essa possibilidade foi sonegada por uma política pública que visou atender aos radiodifusores. De acordo com Gustavo Gindre, todo esse processo foi controlado pela Rede Globo —maior interessada na manutenção do sistema de comunicação vigente no Brasil. Para tanto, o governo concordou em entregar o Ministério das Comunicações a Hélio Costa (PMDB-MG), homem de confiança da emissora. — Com a chegada do Hélio Costa, o treco ficou "profissional". Ele representa um grupo político que tem uma proposta para comunicação, que são os radiodifusores. Se você pegar o decreto que implementa a TV digital, que foi feito durante a Copa do Mundo, você vai ver que ele está totalmente a favor dos radiodifusores. O Hélio não deixou dúvidas sobre quem é o patrão. É consensual a percepção dos setores que lutam pela democratização das comunicações no Brasil a respeito da trajetória excludente do processo de implantação da TV digital: todo o poder foi dado aos radiodifusores. Desde um conselho consultivo — que deveria representar os interesses da sociedade — às reuniões a portas fechadas entre o governo e representantes das emissoras e da indústria eletrônica. A nomeação de Hélio Costa para o cargo de ministro das Comunicações, em julho de 2005, foi ponto culminante do processo de desvirtuamento — e abriu portas para o aprofundamento das distorções. — Hélio Costa assume explicitamente os interesses da radio-difusão comercial, esvazia o conselho consultivo e dá outra orientação ao processo de consulta e de debate — analisa Gabriel Priolli, então presidente Associação Brasileira de Televisão Universitária. Breve histórico
Em julho do ano passado, os ministros envolvidos diretamente com o projeto de TV digital anunciaram, em artigo publicado na Folha de S.Paulo: "o acordo assinado entre o Brasil e o Japão prevê parcerias entre centros de pesquisa e empresas dos dois países, como também a incorporação de tecnologias aqui desenvolvidas no sistema japonês". Nada restou da promessa, além de um "memorando de entendimento".
Como tudo aconteceu
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| Nº 89, maio de 2012 |
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