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| 'Hipotecando o futuro': o entreguismo por debaixo dos panos |
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| Hugo R C Souza | |||
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Mais do que nunca, o USA e a União Européia estão empenhados em assinar com os governos subservientes dos países pobres documentos chamados de TLCs, os "tratados de livre comércio", e outros conhecidos como "tratados de investimentos bilaterais". Isto vem sendo feito em surdina, longe das pompas e circunstâncias das cúpulas internacionais, que até pouco tempo eram o lugar, por excelência, do encontro entre o entreguismo e o imperialismo. Tudo acontece também sob o silêncio sepulcral do monopólio internacional dos meios de comunicação e de seus enclaves nos países submetidos à rapinagem imperialista, uma vez que os objetivos reais destes tratados — multiplicar os lucros das grandes empresas e boicotar futuras demonstrações de força dos países ditos "em desenvolvimento" — não combinam com jornais e emissoras de TV sempre coniventes com a exploração capitalista. Apesar dos vícios próprios de quem ainda se vale da linguagem e da lógica próprias da burguesia para denunciar a exploração e a opressão, o estudo feito pela Oxfam traz à tona algumas informações preciosas para as lutas do povo trabalhador. A Oxfam constatou que 25 países pobres já entraram pelo cano e mais de 100 estão negociando tratados lesivos a si próprios, conduzidos ao matadouro seja por chantagem ou truculência da parte dos países poderosos, seja pela anuência pura e simples das administrações nacionais coniventes. Em média, dois dos chamados "tratados de investimentos bilaterais" são assinados semanalmente. Nenhum país escapa, por pior que seja a situação de opressão em que já se encontra devido ao lugar que lhe foi reservado pela lógica perversa da divisão internacional do trabalho. O capital internacional exige Além de significarem a burla de regras comerciais que, mesmo já sendo predatórias, eventualmente se apresentam como obstáculos para a voracidade imperialista, estes tratados são acertados a portas fechadas porque seus termos são tão agressivos que desmentem de forma categórica a falácia da responsabilidade social capitalista. Plantando e colhendo monopóliosSegundo o estudo da Oxfam, o USA e a União Européia buscam ainda impor, por exemplo, regras de propriedade intelectual que vão contra os interesses dos povos. A organização fez as contas sobre as consequências de um acordo comercial proposto pelo USA ao governo oportunista de Álvaro Uribe, na Colômbia, e concluiu que, para a população colombiana, os custos dos medicamentos aumentariam em até US$ 919 milhões até 2020, uma vez consumada a trapaça. Algo semelhante deve acontecer com os insumos agrícolas na República Dominicana, em virtude do acordo de livre comércio assinado pelo USA com seus gerentes interpostos naquele país. O mesmo efeito vem sendo e será observado no setor de serviços dos países lesados por tratados desta espécie, favorecendo a formação de monopólios e oligopólios. Segundo a Oxfam, prevalece a lógica do Acordo de Livre Comércio Norte-Americano, o Nafta, assinado entre o USA e o México em 1993, que possibilitou uma farra sem precedentes do capital financeiro internacional: em sete anos, a participação estrangeira no sistema bancário mexicano pulou para 85%. A consequência imediata disto foi que o crédito concedido para a atividade produtiva nacional mexicana caiu de 10% para 0,3% do Produto Interno Bruto do país. Indo além, estes acordos são elaborados de forma a tornar os países pobres vulneráveis a ações judiciais movidas pelos controladores do capital internacional, caso alguma alteração no aparato legal destes países afete suas taxas de lucro, e ainda que eventuais mudanças na legislação sejam feitas em nome do interesse público. A Oxfam desvenda ainda uma outra faceta destes tratados: "Os acordos de livre comércio podem impor medidas radicais de liberalização de tarifas, ameaçando os meios de vida de agricultores familiares e camponeses e impedindo que governos usem sua política tarifária para promover o crescimento de suas indústrias. Por meio de seus Acordos de Parceria Econômica (APE), a Europa, por exemplo, deseja obrigar os países mais pobres do mundo a reduzir uma grande parte de suas tarifas a zero. Ao mesmo tempo, os TLCs não levam em consideração os impactos adversos dos subsídios concedidos por países ricos geradores de dumping em países pobres, e tampouco a enorme quantidade de barreiras não-tarifárias que continuam a impedir seu acesso a mercados de países ricos". O estudo Hipotecando o Futuro mostra que empresas multinacionais têm de 70% a 80% de participação acionária nas cinco principais redes de supermercados que operam na América Latina, e que respondem por 65% do total de vendas em supermercados na região. Estas redes gigantes revendem muitos produtos importados, e quando recorrem à produção local o fazem impondo o fornecimento de grandes quantidades e padronizações que favorecem, por exemplo, o latifúndio, em detrimento da produção agrícola camponesa e regional. Quanto aos efeitos disto em nosso país, a Oxfam não poderia ser mais clara: "No setor de laticínios no Brasil, a entrada de grandes supermercados no mercado e a consolidação de novas cadeias de abastecimento levou 60.000 pequenos produtores à falência". Para os trabalhadores, trata-se de saber da existência destes documentos lesivos aos seus interesses, compreender como eles se inserem nas engrenagens da opressão capitalista, entendê-los como um instrumento a mais do imperialismo, e levá-los em conta nas lutas por emancipação.
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Christiane Barckhausen |
| Nº 89, maio de 2012 |
| Edición en español |