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| Lixo é banquete para os ratos da política |
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| Archibaldo Figueira | |||
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O inquérito policial acerca da morte de Mario Padia arrasta-se como de costume, mas em Mogi das Cruzes é voz geral que o crime vincula-se à oposição que os movimentos populares "Guerrilheiros do Tapety" e "Mais vida, menos lixo" fazem há quatro anos para impedir a implantação, pela Construtora Queiroz Galvão, de um mega-aterro sanitário onde será depositado o lixo de toda a região, incluindo-se a Capital paulista. Mário Padia realizava apresentações teatrais denunciando a corrupção nesse negócio. O crime de Mogi das Cruzes é, na verdade, a ponta de um iceberg de corrupção envolvendo tudo aquilo que ninguém confere: a quantidade de lixo atirada fora pela população de cada cidade, os preços que o povo paga pela coleta e o transporte, assim como pelo volume de lixo depositado nos aterros, vazadouros ou nos rios e praias. Todo ano, cada Prefeitura faz a sua estimativa, contrata uma ou várias empresas pelo preço de ocasião, a Câmara Municipal aprova e os pagamentos são feitos. Como ninguém confere nada, o lixo se converte em importantíssima fonte de financiamento de campanhas eleitorais de vereador e até presidente da República. Números duvidososOs relatórios oficiais dizem que, nos últimos 14 anos, foram destinados 154 bilhões de reais anualmente para programas de gerenciamento de resíduos sólidos nas cidades brasileiras. Porém as estatísticas oficiais são de mínima confiança. O negócio do lixo é tão bom que o grupo Queiroz Galvão desdobrou-se, criando uma ramificação para operar apenas na área de saneamento, principalmente na coleta e destinação final de lixo em oito Estados, um nicho que já representa 20% do faturamento da construtora, que somou R$ 1,2 bilhão em 2004. O potencial da área de saneamento levou a Queiroz Galvão a investir R$ 50 milhões em dois projetos de aterro sanitário privados, um em Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, outro em Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo, que constitui promessa de faturamento de sete a nove bilhões de reais pelos próximos cinco anos. Mario Padia repudiava a idéia de dar-se a uma empresa a garantia de cuidar da destinação de todo o lixo de uma das maiores metrópoles do mundo, gerando uma fila de um caminhão de lixo a cada 40 segundos, dia e noite, pelos próximos 50 anos nas proximidades do distrito industrial do Taboão, em Mogi das Cruzes. Segundo o IBGE, apenas 20% do lixo coletado em todo o país vão para aterros controlados. O restante, estimado em 147 mil toneladas diárias, é levado para os vazadouros, responsáveis por impactos ambientais praticamente invisíveis aos olhos do cidadão: contaminação de lençóis freáticos e do solo pelo chorume e do ar pelos gases emitidos pela destinação inadequada (lixões) dos resíduos gerados por 3.672 municípios (66% do total). A coleta e disposição do lixo é uma atividade muito pouco regulada que, além de mexer com a vida de um exército de pessoas empobrecidas — catadores e sucateiros — financia desde campanhas eleitorais de pessoas comprometidas com a expansão do negócio até a ampliação dos quadros de funcionários públicos, como instrumento da terceirização, com a contratação de pessoal sem concurso público. Não fica apenas com a Queiroz Galvão a mina de ouro da limpeza urbana. Investigações promovidas pelos promotores estaduais de Justiça envolvem dezenas de empresas-laranja de pequeno porte, controladas por mega-empreiteiras que se dizem nacionais, mas são efetivamente controladas do exterior. Para examinar esses casos, o Departamento de Polícia Federal e a Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça criaram um organismo — o Centro de Investigações de Cartel — mas não se têm notícias do seu trabalho.
Corrupção varre o país
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| Nº 89, maio de 2012 |
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