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| Que fizeram de ti, Rio de Janeiro? |
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| Depoimento concedido a Marcelo Salles | |||||
Quando o Rio de Janeiro passa da rebeldia ao colaboracionismo? Da referência nas lutas quilombolas ao cidadão anestesiado pelas forças do sistema capitalista? Para a socióloga Vera Malaguti, Secretária-Geral do Instituto Carioca de Criminologia, isto ocorre em 1994, com a derrota da retomada do projeto trabalhista encarnado por Leonel Brizola. "Foi aí que o neoliberalismo assumiu o controle da cidade, tendo como principais sustentáculos o monopólio da imprensa, as empresas de opinião pública e as empresas publicitárias que, por sua vez, definem os processos eleitorais. Resultado: por trás dos negócios privados que tomaram conta da vida pública, o pobre é tratado com força bruta e os ricos cuidam de fazer do Rio, principalmente da zona sul, uma cidade asséptica e, mais sinceramente, babaca". Esta é a síntese do depoimento exclusivo de Vera Malaguti, voz rara a se levantar contra a barbárie em que vivemos.
Acho que a situação no Rio de Janeiro vem se agravando. A grande pergunta é: o que aconteceu com a gente? Na saída da ditadura tínhamos uma visão muito crítica do autoritarismo, do abuso policial, do extermínio, da tortura. O que aconteceu dos anos 80 pra cá? A sociedade, principalmente a carioca, incorporou muito a fascistização da segurança pública. Por que a zona sul do Rio virou um lugar tão apartador? Por que uma vereadora do PV, como a Aspásia Camargo, é apologeuta dos muros? Como todas aquelas bandeiras que a gente tinha e as propostas de integração das favelas caíram por terra? E como hoje se criou toda uma polissemia de discursos fascistas e de combate à pobreza, de trabalhar a pobreza como sujeira, como risco ambiental, como perigo. A mídia tem um papel fundamental, tenho a tese do livro "O Medo na Cidade do Rio de Janeiro", em que mostro como o medo é trabalhado... O choque de ordem, esse corolário de projetos apartadores, começa pela defesa do confronto, pela apologia da truculência, pelo paradigma bélico de segurança pública, e agora já está indo pra questão urbana, com a perseguição violenta aos trabalhadores da economia informal, tipo camelôs e flanelinhas. E agora estamos voltando ao lacerdismo no Rio de Janeiro com força total. Então a pergunta é: como foi construído esse consenso? A mídia... Por isso que o embate que o Brizola fez nesse terreno era o embate certo. Não é à toa que sua morte e a tomada do PDT por esses grupos oportunistas deixou isso entrar no Rio e se espalhar. Acho que esse consenso é uma construção social, como diz o Noam Chomsky, que diz que a imprensa faz uma manufatura do consentimento. Isso foi feito muito em cima do medo. Resumindo de uma forma bem simplista: pobre tem que ser tratado na força bruta, seja na questão criminal, seja na questão trabalhista ou urbanista. Muros nas favelasLembro que há uns 5 anos essa proposta dos muros foi aventada e logo massacrada. Você vê, o que eu chamo de adesão subjetiva à barbárie, como hoje está passando até discussão sobre remoção, que urbanisticamente não existe em nenhum lugar do mundo, a não ser no paradigma derrotado de Bush e Israel, "muros para integrar", não conheço nenhuma cidade do mundo que tenha feito muros para integrar. Esse discurso que trabalha o pobre como detrito, eu conheço na história. Pega lá o discurso de Adolf Hitler, essa coisa da assepsia. Isso está tudo ligado. O monopólio da imprensa Mas como existe um domínio total da imprensa... Eu tenho denunciado muito, acho que a política representativa brasileira está completamente capturada pela empresa eleitoral. Hoje é muito difícil um político da esquerda ou do campo popular furar o bloqueio entre grande mídia, empresas de opinião pública e empresas publicitárias. Não se discute mais política no Brasil. A pauta política está policizada. Se você abrir a página política dos grandes jornais vai ter discussão policial: "farra das passagens", toda essa pauta que eles fazem que é a criminalização da política. E que de uma certa forma, um grande percentual da nossa representação política acabou se adaptando a isso. Existem resistências, claro, não vou generalizar, mas a política é isso: quem vai desenvolver a melhor empresa eleitoral. Então pode estar numa igreja neopentecostal e você forma um grupo empresarial e de comunicação. MilíciasNos anos de 1980, você chamava de esquadrão da morte os grupos de extermínio. Com o grande massacre midiático em torno do "tráfico de drogas", que esse era o mal, o ruim, que a esquerda toda também acha, que o trabalhador bom é o bem comportado... Em torno deste paradigma, a milícia foi sendo legitimada. Primeiro passou a ser chamada milícia, seria uma resistência comunitária ao tráfico de drogas. Só um idiota não vê que aquela força econômica, completamente imbricada com as forças policiais, não iria fazer o salto do gás, do "gatonet", para o comércio varejista de drogas. Então a milícia cresceu... Agora tem a coisa do bom matador. Tropa de Elite é a apologia disso. Você tem o matador limpo, que é o SS. Com esse paradigma do enfrentamento, eles resolveram bater numa força só, que seria o Comando Vermelho. Qualquer pessoa que está olhando de fora diria: é óbvio que os outros grupos vão tomar conta desse mercado. Então você corre o risco de que essas forças hoje passem a ter a hegemonia de todo o comércio varejista de drogas. Choque de ordemÉ o requentamento do Tolerância Zero numa situação muito mais pobre, muito mais complicada do que na cidade de Nova Iorque. E na colônia a moda demora mais a chegar. Então o Tolerância Zero em NY já é uma coisa hiper criticada, o prefeito que está lá agora, que é de direita, já nem fala mais nisso. Mas aqui na colônia, aquilo passa, o paradigma da cidade intolerante, cujo ideal é a repressão contra os pequenos delitos. Em Nova Iorque ela também incidiu contra os pobres. Privatização da políciaHouve reformas na estrutura policial análogas aos processos de privatização: combate à pirataria, combate ao "gatonet", como se as delegacias fossem extensões dos serviços privatizados. Antigamente, quando eu trabalhava em planejamento urbano, no cálculo das tarifas estava implícito o custo para os pobres que eram negociados e cobrados pelas associações de moradores. Esses negócios foram privatizados. Aí aparece a delegacia de fraudes, é como se a polícia fosse uma divisão das operadoras privadas dos serviços públicos. Como você vai fazer na Europa, por exemplo, com o serviço de aquecimento? O pobre que não pode pagar vai morrer de frio, congelar? Não. Todo lugar que tem um mínimo de Estado Previdenciário, vai prever isso e vai garantir que ninguém vai morrer de frio. Você não pode dizer não a quem não tem como pagar. A sociologia colaboracionista E muitas vezes parte da esquerda embarcou no paradigma da segurança pública, graças aos sociólogos de plantão. Toda essa curriola da sociologia policialesca. Foram relativizando o confronto e incorporando a mentalidade policialesca. Teve toda uma articulação com esses sociólogos. O sociólogo é muito assim, gosta muito disso, se apresenta como uma terceira via. Tem a polícia má e a esquerda caótica, que seríamos nós, e no meio tem a terceira via: um sociólogo faz um projeto sem mudar o capitalismo, sem mudar a violência do desemprego, ele pode mudar e organizar uma boa polícia. Dá pra eles um bom dinheiro, consultoria, cursos para policiais e está tudo resolvido, como mágica.
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Nação do Sol
De Rui Nogueira R$ 30,00 + postagem* |
| Nº 89, maio de 2012 |
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