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O Brasil da dança popular

Formada em artes cênicas pela Unicamp e decidida em conhecer melhor o Brasil e suas manifestações culturais, a paulistana com raízes nordestinas, Carolina Nóbrega, viajou, só com 'uma mochila nas costas', por Minas e Nordeste do país, hospedando-se em casa de cortadores de cana e outros brasileiros do interior do país, encantou-se pela dança popular, trazendo esses passos para Instituto Brincante, em São Paulo, onde leciona 'Teatro dos espetáculos populares'.

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O Brincante foi fundado em 1992 pelo cantor, dançarino, violonista, rabequeiro e pesquisador Antônio Nóbrega, como um centro de pesquisa e difusão da cultura popular brasileira, através de cursos de dança, teatro, música, oficinas, seminários, palestras e outras atividades sempre de grande importância dentro do universos cultural.

— Ele é pernambucano e trouxe essa cultura nordestina para São Paulo, na tentativa de conseguir divulgá-la, valorizá-la aos olhos de muitos que nem a conhecem, fazendo com que todos entendessem o que é a arte genuinamente brasileira — explica.

— Comecei minha viagem-pesquisa por Minas Gerais, entrando em contato com o congado, o candombe. A partir daí fui indo para o nordeste, pedindo abrigo na casa das pessoas, especialmente em Pernambuco, Maranhão e Bahia. Fui aprendendo dançar nos próprios lugares onde as manifestações acontecem, encontrando assim a minha base de trabalho e criação artística — conta.

Como atriz, Carolina diz que encontrou no popular a base de uma expressividade criada por um povo.

— A maioria das técnicas que conhecemos, tanto para a dança como para o teatro, são importadas da Europa. E quando me deparei com a cultura popular das danças brasileiras, reconheci ali um material riquíssimo para criação, a partia do nosso próprio universo. São os nossos próprios símbolos e figuras do nosso cotidiano, sendo vividas de uma forma extremamente expressiva e viva na rua — diz.

— Em geral, dentro dos festejos populares o artista é o próprio trabalhador. Então no momento em que acontece a festa, toda uma comunidade passa a ser esses artistas, e se refazem no momento da dança de uma forma espetacular. E eles mesmos são responsáveis por todo o processo de criação, desde costurar figurino, pregar máscara, até improvisação dos textos e divulgação na cidade - revela.

— É uma arte que acontece em meio a conflitos sociais e questões complexas da nossa realidade, e que muitas vezes nos remete na própria história do país. Nos faz lembrar dos conflitos de classes, da questão da opressão e trabalho, e do que é a vida em comunidade. É uma forma do povo expressar os seus sentimentos oprimidos — diz.

— A manifestação popular que elas produzem significa o seu próprio contexto: o cortador de cana que é um guerreiro, representa o que ele é, e junto com outras pessoas, transforma a rua em uma trincheira de guerra. E essa vontade de encontrar os próprios arquétipos da cidade, trago para o meu trabalho — confessa.

As danças brasileiras são muito variadas, ricas, e bem distintas de um lugar para o outro.

— O Cavalo Marinho é uma dança da região de corte de cana, da zona da mata norte de Pernambuco, que acontece na época do natal até dia de reis. Na mesma região tem o Maracatu Rural, que é uma dança de carnaval, e o caboclinho, que também aparece bastante em Recife. Já o Frevo é considerado uma das danças mais resistentes, já que contaminou todo o estado: qualquer cidadezinha do interior tem pelo menos um bloquinho de frevo — expõe.

— Subindo um pouco, no Maranhão, Carolina encontrou o Tambor de Crioula, especialmente tocada para as mulheres dançarem , e o boi do Maranhão, com seus mais variados tipos. Descendo para a Bahia tem o Nego Fugido, que é do recôncavo baiano, que é uma mistura de teatro de rua e dança, encenando fuga de escravos. Tem o samba de roda, e muitas outras manifestações fantásticas. No Rio de Janeiro tem o Jongo, também um pouco em São Paulo, e a Umbigada — conta, acrescentando que essas são apenas amostras do que tem no Brasil.

Preparação física e dedicação

— Nas aulas no Brincante, pego as matrizes de movimentos das danças, especialmente frevo, maracatu rural e cavalo-marinho, ensino os alunos a dançarem, ao mesmo tempo em que vou trazendo para a sala de aula o universo onde as danças acontecem, e também adaptando-as, já que são gente da cidade, com menos destreza física que um trabalhador rural, do local onde elas acontecem — explica.

— Com isso os alunos se vêem diante da necessidade de reconfigurar o próprio corpo para conseguir executar aquele passo da dança popular, do mesmo modo que teriam que fazer se fossem dançar o balé clássico, que é uma matriz européia muito usada. Assim o aluno se desloca do seu eixo cotidiano para conseguir realizar os passos, ganhando um corpo mais saudável, e uma expressividade própria, que tem a ver com a sua própria cultura — acrescenta.

Seus alunos, conforme conta, em sua maioria são paulistanos, encantados por esse universo da cultura popular brasileira.

— Tento unir as suas potências e expressividades para criar algumas cenas de conjunto, que apresentamos no próprio instituto, e também na rua, porque costumo sair com eles para fora do espaço do instituto, fazendo alguns cortejos aqui pelo bairro, para que estejam ainda mais ligados ao contexto popular — conta.

— Além disso, o Brincante promove uma apresentação mensal, do tipo sarau, em que os alunos apresentam o que estão trabalhando, e depois tocam e dançam juntos, cada um naquilo que se propõe a fazer, exercitando a festa popular. E no final do ano acontece um grande espetáculo, com participação de toda a escola, algo muito bem construído — acrescenta.

Além de dar aulas no Instituto Brincante, Carolina Nóbrega trabalha como atriz exercitando teatro de rua no Grupo O Trecho.

— Fazemos peças musicais e também com fala, dependendo de cada contexto, criados a partir da relação do espaço. Por exemplo, estamos com um espetáculo agora em São Paulo, chamado ‘Contos de lua no chão’, feito para ser apresentado no Largo de Santa Cecília, que pelas características do local, uma região bem densa, tornou-se algo sério, dramático, quase uma tragédia de rua — diz.

— Os espetáculos são itinerantes: vamos andando e encenando e o público nos seguindo. Nesse último, damos a volta na igreja, explorando árvores, prédios e calçadas (risos), algo bem interessante que o povo gosta — finaliza.

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