A Nova Democracia

inicio Nº 6 Os ônibus urbanos e a mão dupla de Marta Suplicy
Os ônibus urbanos e a mão dupla de Marta Suplicy PDF Imprimir E-mail
-   
A passagem de ônibus na cidade de São Paulo já era a mais cara do país — R$ 1,40. E os donos de empresas queriam aumentar para R$ 1,95, alegando que com a alta dos combustíveis estavam operando com prejuízo. A prefeita Marta Suplicy (do Partido dos Trabalhadores) fingiu resistir à pressão, mas a partir de 1º de janeiro as passagens custam R$ 1,70. Um aumento de 21,42%, acima do cálculo oficial de inflação para o período. 

De acordo com funcionários do gabinete da prefeitura, ela não queria arriscar-se aumentando as passagens, porque isso dificultaria suas possibilidades de reeleição. Mas, estudos feitos pela Fipe — Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas — para a prefeitura apontavam para aumentos que levassem as tarifas a valores próximos ao estabelecido pela própria prefeitura.

O problema é que o Partido dos Trabalhadores faz jogo duplo. Por um lado, tenta evitar um aumento que coloque em risco a popularidade da prefeita e impeça sua reeleição. Por outro, indica executivos para as empresas de ônibus, como é o caso de Willian Ali Chaim, militante petista que dirige três empresas do grupo Romero Niquini, um dos monopólios municipais de transporte coletivo.

Chaim é militante antigo, e já foi assessor de José Dirceu, ministro da Casa Civil de Lula, e Rui Falcão, chefe do gabinete de Marta Suplicy. Hoje ele é o melhor lobista com quem contam os monopólios para defender seus interesses contra a população, entre eles o recurso do aumento da passagem.

PT criou estrutura que gera lucros milionários

O atual sistema de transporte coletivo de São Paulo foi criado pela gestão de Luíza Erundina, hoje deputada federal pelo Partido Socialista Brasileiro — PSB, sob o epíteto de "municipalização". A pretexto de aumentar o controle público sobre as empresas de ônibus, a prefeitura tomou medidas que aumentaram os lucros dos empresários e fizeram com que as passagens recebessem um aumento de quase 200% em dez anos.

No "sistema municipalizado" de Erundina, as linhas de ônibus passaram a ser controladas por uma empresa estatal, a São Paulo Transporte (SPTrans). Esta linha recolhia as passagens dos cobradores e pagava às empresas um valor fixo em contrato. Às empresas era assegurado lucro garantido, mesmo que a linha de ônibus não tivesse passageiros. O prejuízo passou a ser assumido pela prefeitura através da SPTrans.

Na gestão de Paulo Maluf, a CMTC, outra estatal concorrente dos grandes monopólios, foi privatizada. Esta medida aumentou o poder de fogo das empresas, que passaram a se concentrar em quatro grandes cartéis: os grupos de José Ruas Vaz, Constantino Oliveira, Romero Niquini e Belarmino Marta. Estes quatro empresários são donos da totalidade de empresas que prestam serviços de ônibus na capital, movimentando cerca de R$ 133 milhões de reais por mês.

O jogo de cena de Marta e das empresas

Durante a campanha eleitoral, Marta Suplicy andou de ônibus pela cidade prometendo reduzir as passagens e melhorar a qualidade dos ônibus. De concreto, o que ela fez até agora foi uma alteração na forma de remuneração das empresas, que deixou de ser fixa para se tornar proporcional ao número de passageiros. Ao mesmo tempo, facilitou a compra de mil ônibus novos para as empresas, ônibus estes que carregam na lataria a propaganda da prefeitura.

Apesar de estar em constante negociação com os empresários e não tomar medidas que os prejudiquem, mesmo que a conta seja paga pela população, a prefeitura tem enfrentado sérios impasses. Os empresários, por exemplo, não aceitaram a nova lei de transporte coletivo, promulgada em julho deste ano, que cria a possibilidade do bilhete único, promessa de campanha de Marta. Com este sistema, o passageiro poderia utilizar diversas conduções seguidas pagando apenas uma tarifa. Como os empresários não apóiam, a medida está congelada, e sequer é discutida na Câmara.

O trabalho sujo de Chaim

Neste jogo, o papel de Willian Ali Chaim tem sido importante para garantir, dentro do PT e da prefeitura, os interesses das empresas. Em meados deste ano, o então secretário Carlos Zarattini interveio em cinco empresas de ônibus que atrasavam o pagamento de seus funcionários. Foi quando Chaim assumiu a direção das três empresas do grupo de Romero Niquini.

A intervenção garantiu a prorrogação do aumento das passagens, aumento exigido pelos empresários já em princípios de 2002. Mas, também, foi um golpe mortal na gestão de Zarattini. Em outubro deste ano, Chaim denunciou ao Jornal da Tarde que o secretário de transportes perseguia o grupo Niquini e favorecia outras empresas, com o intuito de criar um monopólio das empresas de ônibus na cidade.

Mesmo sem citar outros nomes, a entrevista caiu como uma bomba, apesar do escândalo da venda de vales transportes ter sido rapidamente abafado. Zarattini não conseguiu reagir aos ataques, ficou encurralado e, dias depois, caiu.

Algumas curiosidades nos ajudam a pensar. Antes de assumir a direção das empresas de Romero Niquini, Chaim coordenava a campanha de Ricardo Zarattini, pai do ex-secretário Carlos Zarattini e militante histórico do PT. O PT, apesar de ameaçado pelo lobby de Chaim, sequer cogita a sua expulsão, embora não tenha pestanejado para afastar do partido o vereador Carlos Giannazi, quando este votou contra a redução da verba municipal na educação. Isso leva a crer que tudo não passa de um jogo do próprio PT para atender aos interesses dos monopólios sem deixar público que está contra os interesses do povo.

Jilmar Tatto, atual secretário de transportes, atrasou a publicação do decreto com as novas regras para o setor. Segundo fontes no gabinete da prefeita, este atraso visa adequar as regras aos interesses dos empresários.

Sindicato ajuda grandes empresários

Depois da municipalização os empresários sempre contaram com o providencial auxílio do sindicato dos condutores de São Paulo para pressionar a prefeitura pelo aumento de passagem. Tanto que o ex-prefeito Celso Pitta, sucessor de Maluf, chegou a declarar que as greves eram verdadeiros locautes — greve de capitalistas, constrangendo os empregados e a população a aceitar as condições patronais e monopolísticas.

A tática consistiu em atrasar o pagamento de salário dos funcionários, alegando que a empresa operava com prejuízo. O sindicato, por sua vez, organiza a greve, reivindicando não o aumento, mas, o pagamento do salário atrasado, e exigindo da prefeitura o aumento do preço da passagem. A prefeitura, por sua vez, usa a reivindicação do sindicato para atender aos interesses dos patrões.

Quem paga? A população

"Não sei se é manobra ou não. Só sei que meu salário atrasou", declara José Alberto Gonçalves, cobrador da linha que liga os terminais João Dias e Capelinha. Questionado sobre sua posição quanto ao aumento das passagens, ele não pestaneja: "Mas já está cara, não é? Para que aumentar mais?"

Durante os oito anos de governo malufista na cidade, o sindicato foi dirigido pela Central Única dos Trabalhadores — CUT, através da Corrente Sindical Classista, ligada ao Partido Comunista do Brasil. No mesmo ano em que Marta se elegeu prefeita, Edvaldo Santiago tornou-se presidente do sindicato.

Edvaldo havia sido presidente da mesma entidade antes, durante a gestão Luíza Erundina, mas, naqueles tempos ele era da CUT. Rompeu com a Central no final da administração Erundina, e constituiu a Oposição Sindical, que tomou o sindicato atrelado à Força Sindical, de Luis Antônio Medeiros.

A tática de fazer o jogo do patrão enquanto parece estar defendendo os interesses do trabalhador, se, historicamente, não cabe às gestões da CUT a originalidade de sua criação, Edvaldo, no entanto, conseguiu torná-la mais eficaz. Boa parte do trabalho de "fritura" do secretário, por exemplo, foi realizado pelo sindicato que espalhou cartazes na cidade com o slogan "Zarattini: secretário do transporte clandestino". E neste momento, os sindicalistas voltam a defender o aumento das passagens, alegando que com isso estão garantindo o pagamento em dia dos salários dos trabalhadores.

Você sabia que...

No ano de 1996, quando a passagem de ônibus em São Paulo custava 70 centavos, estudos do PT apontavam que ela poderia custar 35 centavos —a metade do que era cobrado na época?

Quando a prefeitura abriu mão de um imposto de dois centavos por passageiro, cobrado das empresas, ela passou a perder R$ 1,9 milhões por mês?

Enquanto no Rio de Janeiro os estudantes têm direito à viagem de ônibus gratuita, em São Paulo esse direito é reduzido a 25 viagens por mês, pagando metade da passagem, e não podem usar seus passes escolares nos finais de semana?

Share/Save/Bookmark
 


CONHEÇA NOSSOS LIVROS


Scripts de uma vida

De Dylmo Elias

Advogado, ator, diretor de peças teatrais e radialista, foi esta última a profissão que mais o realizou, levando-o a dar aulas de radialismo em uma universidade carioca. Neste livro Dylmo apresenta um guia com soluções para combater a negatividade, provando que na vida tudo é possível.

R$ 20,00 + postagem*

jeremias-blog

AND agora tem conteúdo exclusivo para assinantes

Digite nome de usuário e senha para ter acesso a todos os artigos



blog


visitantes : 10329281