Os xavantes Marãwatsede, que vivem no Mato Grosso, enfrentam
latifundiários, especuladores e grilagem em seu território.
Há mais de 40 anos os índios resistem contra a invasão
de suas terras.

Xavantes reclamam seu direito à terra
Marãwatsede, no idioma xavante, significa "Mata
Densa" ou "Mato Grosso", mas hoje, os Marãwatsede enfrentam
bandos de pistoleiros que agem a soldo do latifúndio, que derruba
suas matas para a expansão da monocultura da soja.
Roubo histórico
Desde 1966 o latifúndio tenta expulsar os povos Marãwatsede
de suas terras. Nesse ano, iniciou a invasão com o latifundiário
Ariosto Riva, em sociedade com o Grupo Ometto. Sob o manto de "empreendedor",
Ariosto Riva e seu grupo foram expandindo seu domínio utilizando-se
hora de "gentileza", hora da força, constituindo dessa forma o maior
latifúndio do país à sua época, que chegou a contar
com 1,7 milhão de hectares. Assim se conformou o latifúndio Suiá-Missu,
cuja extensão era superior à área do Distrito Federal.
Após de trabalharem gratuitamente para Riva, enfrentarem conflitos
com os empregados da fazenda, passarem fome e serem deslocados três vezes
dentro do latifúndio, cerca de 230 índios xavante foram transferidos
em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para uma outra
reserva indígena a 400 quilômetros, a Missão Salesiana
de São Marcos. Uma semana após o deslocamento, 70 índios
morreram de sarampo.[Terra em disputa já foi o maior latifúndio
do Brasil, Gilberto Costa, 17/11/2009]
Depois disso o controle da fazenda Suiá-Missu passou para as mãos
da Liquifarm Agropecuária Suiá-Missu, sucedida, em 1980, pela
empresa petrolífera italiana Agip "do Brasil". A empresa italiana, no
embalo da demagogia ecológica da Conferência ECO92, anunciou a "devolução" das
terras aos seus legítimos donos após um acordo com o governo
brasileiro.
Naquele mês, segundo descrito no relatório do juiz Pedro Francisco
da Silva, a Funai tomou conhecimento de que as terras da fazenda estavam sendo
loteadas por uma centena de famílias de 'sem terra', com apoio de políticos
da região, grandes fazendeiros e da própria Agip do Brasil, com
o intuito de obstaculizar o retorno dos xavante à área.
A aldeia Xavante Marãwatsede possui cerca de 900 moradores.
Ainda dentro da área, que antes constituía o latifúndio
Suiá-Missu há uma vila com mais de 800 habitantes, antigos posseiros,
que também reclamam seu direito à terra e se recusam a sair.
Intrigas para dividir o povo
Esta vila, composta por posseiros que se estabeleceram na área ao longo
de 40 anos, é resultado da "reforma agrária privada",
como ficou conhecida a estratégia levada a cabo pelo latifúndio
que se constituiu em estabelecer pequenos proprietários que arrendariam
as terras para servirem à produção dos latifundiários,
que assim explorariam a terra sem sofrerem acusação de invadir
terra indígena.
Dessa forma, naquelas terras há mesmo uma contradição,
introduzida e estimulada pelo latifúndio, entre posseiros e xavantes,
que podem conduzir a situações extremas, marcadas na declaração
de um morador da vila: "A Justiça pode até determinar, mas
nós vamos lutar até o final da vida", diz um morador.
Bandeira de luta ancestral
Em fevereiro último, novamente os xavante do Mato Grosso voltaram a
ocupar as manchetes dos jornais: "Índios da etnia xavante estão
bloqueando a BR-158, na altura do distrito Nova Suiá, município
de Alto Boa Vista, distante 1.058 quilômetros de Cuiabá. O bloqueio é total
e os xavantes não liberam nenhum tipo de veículo". Era um protesto
dos índios devido a um incêndio que destruiu o ônibus, doado
pela Funai em 2006, que era utilizado para o transporte das crianças
da aldeia até as escolas localizadas na sede do município de
Bom Jesus. Certamente obra do latifúndio, ansioso em expulsar os índios
definitivamente de suas terras.
E agora, novamente, no mês de novembro, os Marãwatsede
retomam sua luta ancestral, a luta pela sua terra, seu direito legítimo.
Imagens reproduzidas no monopólio da imprensa, apesar da falta de informações,
mostraram índios em pé de guerra contra o latifúndio.
Revoltados eles protestavam contra a invasão de seu território
e o desmatamento feito pelo latifúndio para o plantio de soja.
No desenrolar da complicada teia de irregularidades do latifúndio Suiá-Missu,
suas terras foram vendidas a uma transnacional e retalhada em propriedades
menores, até que, em 1998, aquelas terras foram transformadas em "área
de reserva".
Em 2007, uma ordem judicial determinou " … tem-se que o objeto da presente
ação consiste na condenação dos réus na
obrigação de não fazer, traduzida na abstenção
de adentrar na área indígena e efetuar qualquer exploração
extrativista e agropecuária, na declaração de nulidade
do título de propriedade da 1ª Ré, na condenação à indenização
por perdas e danos ocasionados à comunidade Xavante da Área Indígena
Marãwatsede e o reflorestamento da área desmatada, além
do reconhecimento judicial da demarcação havida pela Portaria
363/93 e a retirada dos não-índios de referida área".
No entanto, os fazendeiros recorreram e continuam derrubando a floresta para
criar gado e plantar soja.
Em resposta à invasão de suas terras, em novembro último
os Xavante Marãwatsede tomaram tratores e máquinas dos latifundiários
e enfrentaram bandos de pistoleiros. A Fundação Nacional do Índio
(Funai) montou um posto de vigilância na entrada da aldeia, mas declarou
ser impossível permanecer na área devido às constantes
ameaças dos latifundiários.
Mão dura e mão
leve: dois pesos, duas medidas
Rosana
Bond
Há alguns dias a aldeia guarani do Cambirela (município de
Palhoça,
SC) foi atacada por homens que se diziam proprietários da área.
Conforme os índios a intenção dos agressores era forçar
a desocupação, para roubarem suas terras.
A violência incluiu
destruição de moradias e até o
incêndio da opy ("casa de reza", o local mais
sagrado da aldeia, onde os guaranis realizam seus rituais).
Há vários
anos aqueles índios vêm sofrendo espancamentos
com facões, paus e pedras. Além de ameaças com armas de
fogo. Dois homens foram presos pela Polícia Federal, que encontrou em
suas residências, na vizinha Praia de Fora, uma garrucha (arma com cano
curto), um facão e munições calibre 36.
Porém,
frente à mão dura dos agressores, a PF respondeu
com uma mão bem leve. Pois ao invés de enquadrá-los no
crime de tentativa de homicídio (que foi o que realmente ocorreu), acusou-os
apenas de coação no curso do processo administrativo de demarcação
de terra indígena e dano qualificado.
A demarcação daquele
território guarani ainda não
foi completada pela Funai e Ministério da Justiça e existe a
suspeita de que os ataques têm sido insuflados por um furioso burguês
local, empresário, que se diz dono daquela valorizada área litorânea.

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