Em AND 57, falando de passagem sobre a greve de fome
irlandesa de 1981 numa matéria sobre os Wolfe Tones, atribuí seu
trágico desfecho à falta de percepção, pelos irlandeses,
do recrudescimento da megalomania imperial britânica sob Margaret Thatcher.

A multidão acompanhou o funeral de Mickey Devine
A afirmativa é inexata e a comparação com os argentinos
na guerra das Malvinas, improcedente. Os irlandeses foram o primeiro povo a
dar-se conta desse endurecimento, que o sentiram cedo na própria pele,
e a greve de fome tem nessa percepção sua origem e razão
de ser. Vale a pena conhecer a história deste que é um dos mais
heróicos acontecimentos da História humana.
Ao assumir o governo inglês (1979), Thatcher deflagrou uma ofensiva
militar e política contra os movimentos pela libertação
do norte da Irlanda. O incremento da presença das tropas coloniais britânicas
nos seis condados fez-se acompanhar de uma virulenta tentativa de criminalização
do republicanismo irlandês aos olhos da opinião pública,
o que passava pela supressão de qualquer diferença entre o tratamento
dispensado, nos cárceres, aos soldados do Exército Republicano
Irlandês (IRA), do Exército de Libertação Nacional
Irlandês (INLA) e a criminosos comuns.
Em resposta, combatentes irlandeses encerrados nos blocos H da prisão
de Maze, arredores de Belfast, deflagram, em 1º de março de 81,
uma greve de fome. Suas reivindicações: não usar uniformes
de presidiário; não realizar trabalhos forçados; liberdade
de associação e organização de atividades culturais
e educativas; direito a uma carta, uma visita e um pacote por semana; e que
os dias de protesto não fossem descontados quando do cômputo do
cumprimento da pena. Recusando-se a ser tratados como criminosos, defendiam,
a um só tempo, sua dignidade pessoal e a legitimidade da luta pela libertação
de seu país.
A um custo inimaginavelmente alto (a vida de dez homens, mortos de inanição
após longa agonia), os grevistas conseguiram uma vitória moral,
ao fazer com que os ingleses — mesmo sem restituir-lhes oficialmente o estatuto
de presos políticos — retrocedessem quanto ao regime carcerário
poucos meses após o fim do movimento; e uma vitória política,
ao frustrar os planos de Thatcher de expor os que lutavam pela liberdade da
Irlanda como criminosos aos olhos do mundo.
Visto em perspectiva, o feito desses jovens afigura-se ainda mais impressionante.
Afinal, em seus onze anos de governo, Thatcher esmagou todos os que atravessaram
seu caminho. A lista inclui desde a gerência militar argentina (na guerra
das Malvinas) até o movimento sindical inglês. Quais fatores possibilitaram
a vitória dos grevistas de fome e faltaram a esses outros segmentos?
Basicamente, três: um gênio político e uma tenacidade ainda
maiores que os da primeira-ministra inglesa e uma assombrosa capacidade de
sacrifício. No Sunday Times de 12 de abril de 2009, o reacionário
jornalista Liam Clarke narra que, durante a greve, Mickey Devine (último
dos presos a morrer) recebeu a visita de Tommy McCourt, dirigente do Partido
Republicano Socialista Irlandês (IRSP), do qual o INLA era sua organização
armada. Para salvar a vida de Devine — que sairia da prisão em setembro
e entrou em greve no fim de junho, expirando em 22 de agosto — , McCourt tentou
demovê-lo da participação no movimento, argumentando que
não havia mais chances de vitória (nove participantes já haviam
morrido) e que o INLA poderia indicar outro militante para substituí-lo
no protesto. Devine respondeu que abandonar a greve estava fora de questão
e mudou o assunto da conversa para os preparativos de seu próprio funeral.
Estrategicamente, porém, essa sobre-humana capacidade de entrega não
teria servido para muita coisa se não estivesse acompanhada de uma lucidez
política igualmente invejável. Nesse terreno, sobressai-se, entre
diversos nomes, o do mentor da greve: um oficial do IRA chamado Bobby Sands.
Primeiro dos participantes do movimento a recusar alimentação
e primeiro a morrer após 66 dias, ele protagonizou, nesse meio tempo,
dois lances políticos geniais.
O primeiro foi sua eleição para o parlamento britânico
como representante da Irlanda do Norte. O objetivo não era ocupar a
vaga, mas evidenciar o apoio da população irlandesa ao movimento,
jogando uma pá de cal nas pretensões de Thatcher de tratá-lo
como caso de polícia. A resposta inglesa foi proibir as candidaturas
de presos, mas era tarde: desde então, a população irlandesa,
todos os anos, expressa nas urnas do inimigo seu apoio ao movimento pela independência,
elegendo candidatos que nunca tomam posse, pois se negam a jurar lealdade à rainha.
O segundo, refere-se à própria organização da
greve. Sands transformou uma derrota anunciada em vitória usando o mais
poderoso fator que os grevistas tinham contra si: o tempo. Ao determinar que
seus companheiros observassem intervalos de alguns dias entre um e outro para
início da recusa à alimentação, ele conseguiu infligir
o maior desgaste político ao governo inglês ao menor custo humano
possível para os irlandeses. Um movimento que, de outra forma, não
teria durado mais que dois meses (tempo máximo que alguém pode
jejuar) prolongou-se por sete. O escândalo internacional resultante da
morte dos prisioneiros por inanição, que logo teria se dissipado
caso perecessem todos ao mesmo tempo, repetiu-se nove vezes.
O que Sands e seus companheiros talvez não conhecessem era a extensão
da psicopatia da primeira-ministra inglesa, cuja recusa a atender suas reivindicações
produziu dez mortes numa situação que, em condições
normais, teria terminado com, no máximo, uma ou duas. Mas a descoberta
de que Thatcher possivelmente se regozijaria com a morte de toda a população
carcerária de Maze tampouco levou a qualquer recuo. A greve só terminou
em 3 de outubro, quando, pressionadas pela igreja católica romana, as
famílias dos participantes romperam o compromisso de desautorizar a
alimentação por sondas quando eles entrassem em coma, inviabilizando
sua continuidade.
Uma gravação dos Wolfe Tones realizada em 2008 (www.youtube.com/watch?v=LrqjAQVLzzE)
mostra, pelas reações do público quando os nomes dos dez
mártires são mencionados e suas imagens exibidas durante a canção
composta pelo grupo em homenagem a McDonnell, o lugar que eles ocupam no coração
do povo irlandês. Bobby Sands (morto aos 27 anos), Francis Hughes (25),
Ray McCreesh (24), Patsy O'Hara (23), Joe McDonnell (29), Martin Hurson (24),
Kevin Lynch (25), Kieran Doherty (25), Thomas McIlwee (23) e Mickey Devine
(27) vivem hoje — e para sempre — na memória de todos os que prezam
a liberdade e a dignidade ao redor do mundo.
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