Sempre que uma potência estrangeira invadiu o território de outro
país, o fez sob diversos argumentos, sempre em nome da "liberdade" do
povo invadido, muitas vezes em nome da própria segurança e estabilidade
dos invadidos ou mesmo sob pretexto de salvaguardar os países vizinhos,
mas nunca pelos motivos reais, o domínio econômico e militar.

Cena da guerra revolucionária de resistência do povo haitiano pintada por Jan
Suchodolski
Assim, o USA invadiu o Iraque para proteger o mundo das "armas de destruição
em massa" jamais encontradas, ou no caso do Afeganistão para proteger
do fundamentalismo dos talibãs os seus próprios compatriotas.
Mas, para defender a "democracia" no mundo, os "defensores da liberdade" precisam
sempre rearranjar, omitir, confundir e falsificar a História, pois em
ambos os casos, os "ditadores" do estrangeiro haviam sido financiados e apoiados
pelo próprio imperialismo ianque em outras conjunturas.
No Haiti não poderia ser diferente, a atual invasão do USA,
precedida pelas tropas brasileiras, precisaria falsificar toda a História
para nos fazer crer que o país negro, a antiga "Pérola das Antilhas" sofre
de um estigma de raízes históricas, uma "inviabilidade como nação".
Essa é a nova tese do imperialismo "humanitário".
Segundo essa teoria, tão propagada pela imprensa imperialista, alguns
países carecem de capacidade própria para se desenvolverem e
esse fato se expressaria em alguns aspectos: História de violência
irracional e estrutural, geografia naturalmente improdutiva e política
nacional instável.
Sob todos os argumentos apresentados depois do terremoto, padece a verdadeira
História do povo haitiano.
A mentira da improdutividade natural
Começando pela geografia e o mito da improdutividade. Afirma-se que
o país possui um solo pobre e improdutivo que sequer possui lenha, já que
os próprios haitianos destruíram a floresta existente. Esquecem
de contar que é no Haiti onde se produzem as laranjas do famoso licor
Cointreau.
Mas um solo desgastado não poderia ser o único motivo da ruína
de um país inteiro, afinal existem diversas nações que
abrigam em seu território imensos desertos, ou mesmo têm grandes
populações vivendo em pequenas ilhas. Vide o Japão, Israel
ou Cuba; sem contar os países gelados como o Canadá, a Noruega,
etc. A explicação para a pobreza haitiana não está em
suas condições naturais. E muito menos em sua densidade populacional,
já que o Haiti é menos povoado que a Holanda, a Coréia
do Sul, o Japão, Israel e pouco mais povoado que a Alemanha ou a Suíça.
Ao longo da última metade do século XX, o Haiti seria governado
pelos Duvalier (Papa Doc e Baby Doc), com o apoio do USA. Durante esse período
não pôde haver progresso, nem liberdade e, ao final dos anos 80
e início dos 90, o Estado empenhava-se por entregar nas mãos
de estrangeiros algumas empresas estatais que existiam no país, levando à ruína
setores que, se não produziam grandes somas de dinheiro, ao menos ainda
mantinham a economia haitiana com alguma capacidade produtiva. O solo do Haiti é rico
em calcário, que serve como matéria-prima para a fabricação
do cimento e outras aplicações. A fábrica nacional de
cimento foi privatizada, e fechada, logo depois. Diz-se que existe petróleo
em solo haitiano, impossível saber, e qualquer esforço estatal
no sentido de explorá-lo foi destruído pelas privatizações.

Marines ianques eam a principal força de repressão
Mas a maior das mentiras é a apresentação do país
como um lugar absolutamente improdutivo. Embora tenhamos muitas dificuldades
em ter informações sobre a realidade haitiana sem passar pela
censura das grandes corporações da imprensa imperialista, temos
notícias, através de um sindicalista brasileiro que passou uma
semana no país. Segundo Eduardo Almeida, no último ano houve
uma importante greve nas fábricas haitianas. Pois é, existem
fábricas no Haiti! Isso você não vê no noticiário.
Conforme o relato, existem ao menos 25 mil operários em Porto Príncipe
que produzem diversos artigos têxteis para indústrias estrangeiras,
como Nike, Wrangler e Levi's. Com um salário mínimo de menos
de 200 reais por mês, os operários têm uma vida com enormes
restrições, sem água encanada, luz elétrica, esgoto,
etc. A educação está falida após as privatizações.
Quase 90% da população é analfabeta. Não existem
mais jornais para a população e a única faculdade pública,
a Faculdade de Ciências Humanas é atacada constantemente pela
polícia local e pelas tropas da ONU por manter-se como foco de resistência
contra a ocupação militar estrangeira.
Politicamente o país realmente é instável, mas não
por inaptidão à ordem ou à democracia por parte do povo
haitiano, mas pelo contrário, devido a uma sucessão de invasões
de potências imperialistas e intervenções estrangeiras,
seja com tropas, como atualmente, seja através de governos fantoches.
Após a independência em 1804, para que cessassem as hostilidades,
o Haiti teve que pagar uma dívida indenizatória à França
(pelo direito à liberdade) que comprometeu até o início
do século passado 2/3 da produção haitiana. Depois de
livrar-se do jugo francês, teve seu território invadido por tropas
ianques em 1915, que impuseram medidas desfavoráveis à economia
nacional. As tropas imperialistas somente deixariam o país em 1934.
Na década de 50 teve início a ditadura de Papa Doc e posteriormente,
até 1993, seu filho, Baby Doc. O governo apoiado pelo USA privatizou
tudo que pôde para beneficiar as grandes corporações estrangeiras
e as empresas que não se tornaram tão rentáveis foram
abandonadas. Até a década de 70 o Haiti produzia 90% do arroz
que consumia, além de diversos outros gêneros alimentícios.
O caso do arroz é bastante ilustrativo. Por imposição
dos cartéis ianques, foram abolidas as taxações sobre
o arroz estrangeiro. Ao mesmo tempo em que retiram o imposto para a importação
no Haiti, o governo americano subvencionou sua própria produção
de arroz. O resultado foi a invasão do arroz estadunidense, a ruína
de milhares de famílias camponesas e um enorme êxodo para as cidades,
particularmente para a capital Porto Príncipe.
Mas o pior ainda viria. Com a eleição de um pároco de
discurso democrático para o governo do Haiti, mais uma vez o país
sofreria intervenção estrangeira. Após eleito, o presidente
Jean Bertran Aristide seria derrubado e o Haiti viveria sob a tutela da ONU.
O povo resistia. Mais uma vez a história se repetiria, Aristides eleito,
derrubado depois e a ONU intervém. É eleito René Preval,
que passa a agir como fantoche do imperialismo. Nesta segunda vez, o imperialismo
iria utilizar tropas terceirizadas, a Minustah (tropas da ONU dirigidas pelos
militares brasileiros). Funcionaria melhor, já que o ódio popular
contra os brasileiros é menor que contra o USA. Aristides está até hoje
impedido de voltar ao país. Em 2005 foi aprovada a lei Hope, que impede
o pagamento de qualquer imposto pelas indústrias ianques em solo haitiano,
inclusive sobre a água e a luz. O governo brasileiro cumpriu seu dever
na Minustah, executou de maneira eficiente seu papel de agente do imperialismo
na América Latina.
Em relação a sua história sangrenta, só um breve
relato da verdadeira História do povo haitiano pode afastar a mentira
tantas vezes repetida nos jornais e televisões.
Antes, é importante acrescentar que o Haiti tem, como no Brasil, uma
rica herança africana em diversos aspectos de sua cultura popular. Em
todos os países da América Latina onde existiu escravidão
negra, há cultos de origem africana e uma longa história de sincretismo
com o catolicismo, como o nosso Candomblé e Umbanda. O nome da religião
popular haitiana é Vodu. Comparando com nossa cultura popular, é mais
fácil imaginar esta religião e saber que não tem nenhuma
relação com cultos demoníacos ou de magia negra. Mas,
ao que parece, os fundamentalistas evangélicos do USA crêem que
o país abriga cultos satânicos, com rituais estereotipados, como
o de enfiar agulhas em bonecos e cultuar mortos-vivos. Essa é a imagem
propagandeada em muitas décadas de filmes hollywoodianos e outras coisas
do gênero. Agora alguns pastores ianques chegaram a afirmar que o terremoto
seria um castigo de Deus pelos pecados dos negros haitianos.
Afora o festival de atraso e ignorância dos fundamentalistas protestantes,
o "pecado" histórico que o imperialismo jamais perdoaria seria a intransigente
luta do povo haitiano por independência e contra a escravidão.
Os problemas do Haiti têm três nomes:
França, Estados
Unidos e ONU
O Haiti faz parte de uma das ilhas do Caribe, que junto com Cuba foi o primeiro
ponto da invasão européia na América, importante entreposto
na viagem entre a costa da América Espanhola e a Europa. Depois, sob
administração francesa, seria responsável por mais de
70% da produção de açúcar consumido na Europa e
de mais de 60% do café. Em seu solo produziam também cacau e
algodão para a metrópole.
Conhecido no período colonial pela riqueza que proporcionava à França,
o Haiti seria apelidado de "Pérola da Antilhas". Devido à brutal
exploração que sofriam os escravos e sob influência dos
ideais de liberdade e igualdade propagados durante a Revolução
Francesa, ocorre uma revolta de escravos liderada por Toussaint Loverture,
o Espártaco Negro, que levaria à primeira independência
na América Latina, em 1804. Os impérios coloniais não
admitiriam a ousadia, mas seriam sucessivamente derrotados pelos revolucionários.
Sua independência não seria reconhecida por nenhum país.
Apenas a França, impondo o pagamento de um enorme valor indenizatório,
reconheceu a independência.
Mas o povo haitiano resistiu, pagou a "dívida" e ajudou os outros negros
escravos do continente. Como nos conta Eduardo Galeano, quando Simon Bolívar,
em 1816, foi em busca de apoio na Ilha rebelde, o Haiti forneceu barcos, armas
e soldados em solidariedade a luta pela independência sul-americana.
Em troca pediu apenas que libertasse os escravos por onde passasse. Bolívar
até tentou cumprir a promessa, mas não conseguiu. A abolição
viria somente mais de 30 anos depois da independência das novas repúblicas
da América do Sul. No Brasil, o último país a aboli-la
formalmente, a escravidão chegaria às bordas do século
XX.
Depois de libertarem-se da França, os haitianos teriam que encarar
o USA. A invasão americana duraria até 1934, imporia a privatização
do Banco Nacional e proibiria que os negros, inclusive o próprio presidente
fantoche, entrassem nos hotéis, clubes e restaurantes exclusivos aos
estrangeiros. Curiosamente, a invasão americana de 1915 foi justificada
pelos mesmos "motivos humanitários" de hoje e aconteceu sob diversos
outros pretextos no mesmo período em outros países da região,
como Porto Rico, Cuba, Panamá, Nicarágua, República Dominicana,
Ilhas Virgens, Honduras e El Salvador.
Mais uma vez o povo haitiano se rebelou. Logo que os Marines
desembarcaram tiveram que enfrentar pesados golpes da resistência popular.
Charlemagne Péralte, um oficial do exército haitiano, se negaria
a aceitar a invasão e lideraria uma guerrilha nacionalista conhecida
como Cacos. Os Marines precisariam encontrar um traidor entre
os guerrilheiros de Péralte e infiltrar um agente para assassiná-lo
em 1918. Seu corpo seria crucificado na porta de uma igreja e a foto de sua
morte distribuída entre a população. Pensaram que assim
poderiam intimidar o bravo povo haitiano.
Por uma terrível ironia, embora seja a primeira república independente
da América Latina, é o país que tem sofrido o maior número
de intervenções estrangeiras e hoje caminha para voltar, na prática,
a viver sob o colonialismo e a escravidão. Não mais da França
de Napoleão, mas sob a tutela das tropas ianques e da Minustah, que
transformaram o país num lugar onde se paga os menores salários
possíveis, tem-se o mercado de trabalho mais "flexível" à exploração
capitalista e onde as multinacionais poderão arrancar as maiores margens
de lucro em local muito próximo do USA. Esse é o plano! Esses
são os objetivos da campanha "humanitária", da "solidariedade" de
celebridades hollywoodianas e dos planos de reconstrução de Hilary
Clinton.
Como nos conta Eduardo Almeida depois de sua viagem ao Haiti:
"O imperialismo está fazendo uma experiência.
Está instalando
aqui uma indústria de relativo baixo nível tecnológico,
com um grau de exploração que se aproxima da barbárie.
Um gigantesco exército industrial de reserva assegura a mão-de-obra
baratíssima e a pressão sobre os que trabalham, para que não
reivindiquem reajustes.
Nas fábricas existem uma organização
do trabalho moderna, os módulos. Grupos de trabalhadores fazem, por
exemplo, uma camisa, com cada um fazendo uma parte. Como ganham por tarefa,
se impõe
a disciplina do patrão pelos próprios trabalhadores, que cobram
qualquer um que se atrase. Esse é o capitalismo moderno, com claros
elementos de barbárie.
Novas zonas francas já estão
planejadas. Existe uma grande área já reservada ao lado de
Citè Soleil, para
que os trabalhadores possam ir a pé para o trabalho. Se conseguirem
implantar esse plano, terão uma nova referência de taxa de lucros".
Referências:
Felipe Deveza, Doutorando (História - UFRJ)
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