Criado em Olinda,
há 32 anos pelo mestre Salustiano, um ex-cortador de cana da Zona
da Mata pernambucana, o Maracatu de Baque Solto Piaba de Ouro é um
dos mais tradicionais grupos de cultura de terreiro. Com 220 componentes
fixos, e portas abertas para mais gente, é uma 'bandeira' fincada
pelo mestre 'Salu' para dar prosseguimento às brincadeiras do interior,
que hoje, após o seu falecimento, são bem defendidas por seu
filho Manuelzinho, herdeiro do amor por esse folguedo popular.

O Maracatu de Baque Solto Piaba de Ouro de apresenta pelas ruas de Olinda,
Pernambuco
— Meu pai criou o 'Piaba' pela necessidade de matar a saudade
da Zona da Mata. Ele era um típico homem do interior que teve que
vir para a capital, mas não esqueceu suas raízes: o maracatu
de baque solto, oriundo daquela região. Então ele se juntou
com dois companheiros, Augustinho Pires e Manuel Mauro, dando início
a nossa história de cultura popular 'limpa', sem contaminações,
que mantém a forma primitiva — explica Manuelzinho, presidente
do Piaba de Ouro.
O maracatu de baque solto, também chamado maracatu rural, começou
a aparecer na segunda metade do século IX, como uma espécie de
mistura de elementos folgueados populares, oriundos de locais próximos
a engenhos de açúcar.
Seus personagens são: 'caboclo de lança', que é considerado
um dos símbolos da cultura de Pernambuco, 'Arreia-mar' ou 'caboclo de
pena', que é o índio, 'catirina', 'catita', 'mateus', 'reis',
rainhas', 'vassalos', 'baianas', entre outros. Acompanhado por uma orquestra
de percussão e sopro, incluindo: tarol, cuíca, gonguê,
ganzá e trombone, apresenta-se pelas ruas de Olinda e toda parte, até no
exterior.
— Onde tiver um festival que faça menção a verdadeira
cultura de terreiro, podemos estar presentes. E convite não tem nos
faltado: no Brasil já rodamos praticamente todos os estados. Também
participamos de um festival de música em Nova Iorque, de uma 'festa
do fogo' em Cuba, de uma festa de cultura na Venezuela, e de um festival
de teatro na França— conta.
— Normalmente quando a apresentação é em um lugar
distante o Piaba não pode ir completo, por questões financeiras.
Então vamos conforme couber no ônibus, por exemplo, já conseguimos
sair daqui com quatro ônibus, e em outra ocasião, somente com
um ônibus menor. Quando é viagem para exterior então
são bem menos componentes, mas, o importante é mostrar a cultura
de terreiro para todos — diz convicto.
Contudo, Manuelzinho diz que o melhor momento do Piaba de Ouro é quando
está 'em casa'.
— A coisa mais maravilhosa é juntar todo o grupo e ir para a
Cidade Alta, na ladeira de Olinda, e passar pelo Recife antigo, seguindo
para o interior. Em todos esses lugares o povo vibra muito, porque é a
sua cultura. E isso acontece o ano todo, porque sempre tem os festejos populares
nos arredores — declara.
— Recentemente, por exemplo, participamos do carnaval de Olinda,
quando veio gente de outras regiões e estrangeiros para brincar o maracatu
conosco. Todos são bem recebidos, somente têm que chegar antes
para conhecer direito o que vem a ser o maracatu de baque solto — acrescenta.
- Fazemos questão de que a pessoa perceba que está adentrando
em um ambiente e, portanto, terá que respeitar as regras, isso para
que o maracatu seja preservado. E não cobramos a fantasia, porque
o nosso papel é divulgar a cultura de terreiro e fazer com que as
pessoas entendam que isso aqui é do povo, assim como o maracatu de
baque virado, o frevo, o côco e muito mais — continua.
O maracatu de baque solto ou maracatu rural, difere do maracatu de baque
virado ou maracatu nação, criado na cidade de Recife, em organização,
personagens e ritmo. Ambos bem tradicionais em Pernambuco.
O Piaba oferece oficinas de 'folgazão', nome dado ao brincante
de maracatu.
— Por estarmos na cidade, temos uma certa dificuldade para
conseguir pessoas para brincar nossos personagens, já que são coisas
bem do interior. Então procuramos trabalhar os jovens, através
de oficinas, ensinando-os a ser um 'caboclo de lança', 'arreia-mar',
e tudo mais. Também oferecemos oficinas diversas de qualificação,
geralmente ligadas ao artesanato — fala Manuelzinho.
— O nosso figurino, por exemplo, é todo confeccionado pelos
próprios componentes. Através do aprendizado eles vão
criando, desenhando, cortando e bordando com lantejoulas e miçangas
no veludo, os trajes dos personagens. Isso tudo acontece aqui na nossa sede,
na comunidade de Cidade Tabajara, em Olinda — acrescenta satisfeito.
Um dos personagens principais do maracatu de baque solto, o 'caboclo de
lança'
tem em destaque a gola e o surrão. A gola é feita em tecido de
cores vivas e brilhante, bordada minuciosamente com vidrilhos e lantejoulas,
representando seu maior orgulho e vaidade. O surrão é uma espécie
de bolsa de couro de carneiro, cobrindo uma estrutura de madeira onde são
presos chocalhos, provocando um som forte e primitivo na sua evolução.
— Quem brinca maracatu de baque solto geralmente são pedreiros,
serventes, enfim, pessoas simples que têm suas profissões e
a questão da cultura é uma opção. Às vezes
vendemos alguns artesanatos. Sou artesão de gola e trabalho com adereços
carnavalescos, mas nada que dê para sobreviver disso, é só por
amor mesmo — diz, a crescentando que o 'Piaba' já gravou
dois DVDs e ganhou três prêmios de cultura.
— Não fazemos discriminações, costumo dizer que
o Piaba de Ouro é igual coração de mãe. No momento
temos componentes de 3 até 80 anos de idade, incluindo pessoas que
brincam o maracatu há 50 anos, e vão passando os seus conhecimentos
aos mais jovens — comenta Manuelzinho com alegria.
Para participar do Maracatu de Baque Solto Piaba de Ouro, deve-se enviar e-mail
para:
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