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Nota da redação: Por ocasião
da passagem dos 88 anos da fundação do Partido Comunista do Brasil,
no dia 25 de março, A Nova Democracia publica trechos
do artigo Duas concepções, duas orientações
políticas , de autoria do grande dirigente
comunista Maurício Grabois. Datado de 1960*, o texto é uma crítica
a linha oportunista de direita assumida pelo PCB com a Declaração
de Março de 1958, principalmente quanto à questão do Poder.
Grabois desfecha uma crítica demolidora das posições
revisionistas e oportunistas de crença na "salvação"
do velho Estado, na via pacífica da revolução, na democratização
do sistema capitalista e outras que por décadas predominaram na história
do Partido Comunista do Brasil, muito embora, como revela o documento de Grabois,
sempre houve resistência a tais desvios de direita no seio do partido.
A crítica de Grabois cola como uma luva às posições
assumidas, hoje, pela sigla Pecêdobê, caudatária da social-democracia
petista e defensora do novo desenvolvimentismo.
Faz parte da prática
oportunista usar a glória do passado para
mascarar sua rendição no presente. Ironicamente Maurício
Grabois é o nome do instituto de estudos políticos do Pecêdobê.

Sede do PCB, na Rua da Glória, em 1946.
A Declaração de Março de 1958 não exprime
uma política justa, não corresponde aos interesses de classe
do proletariado. No essencial, tal documento defende uma linha oportunista
de direita. Exagera a importância do desenvolvimento do capitalismo,
toda a sua orientação decorre desse desenvolvimento, está inteiramente
a ele subordinada.
(...)
Oportunismo de direita da Declaração de março
de 1958
As tendências oportunistas de direita da Declaração se
manifestam com maior nitidez na questão do poder – problema fundamental
da revolução. Partindo da justa constatação de
que atualmente não há condições para alcançar
um governo democrático e antiimperialista, a Declaração
chega a uma conclusão falsa ao abdicar por completo da luta por esse
objetivo, limitando-se a reivindicar modificações parciais na
política e na composição de sucessivos governos, nos marcos
do regime vigente. Com essa tática gradualista, evolucionista, que contraria
frontalmente a teoria marxista-leninista do Estado, pretende-se atingir um
poder capaz de enfrentar as tarefas da revolução na presente
etapa, o que equivale a afirmar que se conseguirá transformar o atual
regime, em essência reacionário, num regime democrático
e antiimperialista e, por extensão, o próprio capitalismo em
socialismo. A Declaração considera que as forças revolucionárias
chegarão ao poder através da acumulação de reformas
profundas e consequentes na estrutura econômica e nas instituições
políticas. Mas como acumular tais reformas no atual regime e com o poder
nas mãos das forças reacionárias? A Declaração
indica um caminho idílico em que irão sendo gradativamente retirados
do governo os elementos reacionários e, também, gradativamente,
irão ingressando no governo elementos progressistas, até que
um dia se chegue a conquistar um poder democrático e antiimperialista.
Afirma a Declaração que a democratização é uma
tendência permanente na vida política nacional, uma decorrência
do desenvolvimento do capitalismo. Assim, a democracia aparece como inerente
ao capitalismo, tese tipicamente revisionista. Além disso, é uma
afirmação que não corresponde à realidade e leva
ao embelezamento do capitalismo. Em 38 anos de existência, o Partido
da classe operária só teve dois anos de vida legal; as organizações
sindicais estão jungidas ao Ministério do Trabalho e quando se
dispõem a uma ação independente, e não declarações
verbais que não têm correspondência com a prática,
são ameaçadas de intervenção e fechamento; o rádio
e a televisão – meios mais modernos e eficientes de propaganda – são
privilégios dos homens do poder; cidadãos suspeitos de serem
comunistas são impedidos de se candidatar a postos eletivos; grandes
massas do povo, principalmente os camponeses, por uma série de restrições,
não participam na vida política do país. Algumas liberdades
existentes, fruto da continuada e árdua luta do povo, são de
tal forma generalizadas e exaltadas na Declaração, que se tem
a impressão de que o Brasil vive numa autêntica democracia.
A Declaração prega a "via pacífica" da
revolução
No que concerne ao caminho da revolução, a Declaração
afirma que o Brasil é um dos países para o qual se abre a possibilidade
real da via pacífica. Partindo de uma análise profundamente subjetiva,
traça um caminho róseo, sem comoções sociais e
choques violentos para realizar as tarefas da revolução. Levando
ao absoluto a possibilidade do caminho pacífico, na prática,
a Declaração o torna de fato o único caminho. Toda a orientação
que estabelece é baseada nesse caminho, desarmando, assim, o proletariado
e seu Partido para qualquer outra eventualidade. Por isso, a advertência,
feita de passagem, de que no caso dos inimigos empregarem a violência é indispensável
ter em vista a solução não-pacífica, não
tem a menor significação. Embora, na presente situação
do mundo, se deva ter em conta a viabilidade do caminho pacífico, não
se pode, nas condições brasileiras, torná-lo absoluto.
Os comunistas preferem esse caminho. Mas cometeriam grave erro se nele apoiassem
toda a sua atuação, porque nada ainda tem comprovado que o caminho
da revolução brasileira seja o caminho pacífico. A experiência
passada e recente dos países da América Latina mostra que não
foi pacífico o caminho para derrubar a ditadura. Mesmo no Brasil, a
prática mostra que as mudanças na estrutura econômica do
país ou nas instituições políticas, não
se fizeram sem o apelo à força armada, embora nem sempre se verificassem
choques sangrentos.
A Declaração de Março de 1958 é, assim, um documento
que encara os problemas da revolução brasileira do ponto de vista
da burguesia, conduz à negação da luta revolucionária, à adaptação
ao capitalismo e ao evolucionismo sob o disfarce de caminho pacífico.
Isso favorece a penetração da ideologia burguesa entre as massas,
o que dificulta ganhá-las para as posições do proletariado.
(...)
A posição do Partido face ao governo do senhor Juscelino Kubitschek é dúbia.
Durante longo período não se fez nenhuma crítica ao governo.
Quando os dirigentes comunistas vieram para a atividade pública legal,
foram dadas entrevistas que implicavam praticamente no apoio em bloco à política
governamental. Posteriormente, começou-se a apoiar os lados positivos
do governo e a criticar os negativos, mas dava-se tanta ênfase ao apoio
e as críticas eram tão tímidas e inconsequentes que, para
as massas, a posição dos comunistas se apresentava como favorável
ao governo. É característico que, depois do combate à política
econômico-financeira do governo, se tenha passado a combater unicamente
certos aspectos dessa política. A apresentação de soluções
positivas sem que, simultaneamente, se desenvolva a crítica à política
do governo, transforma os comunistas na prática, em seus colaboradores.
A ação dos comunistas que assume maior relevo tem sido a de apoiar.
Geralmente, apóiam promessas que não se tornam realidade ou medidas
de fachada que logo são anuladas por outros atos reacionários.
Tudo isso contribui para que amplos setores do Partido tenham uma atitude de
conformismo, de passividade ou mesmo de concordância diante do governo.
Se não se combate energicamente a política errônea do governo,
as forças mais reacionárias utilizarão em seu favor, como
já vêm fazendo, o descontentamento popular.
A orientação de luta por um governo nacionalista e democrático,
através de sucessivas mudanças na política e na composição
do atual governo, vem fracassando. O que se conseguiu com a aplicação
dessa tática? No que se refere à política do governo,
esta se mantém, no fundamental, antipopular e de capitulação
ao imperialismo norte-americano. No que concerne às modificações
na composição do governo, se é certo que saíram
da pasta da Fazenda o senhor Lucas Lopes e, do BNDE, o senhor Roberto Campos,
verdade é também que ingressaram no ministério os senhores
Armando Falcão, Amaral Peixoto, Horácio Lafer, Paes de Almeida,
além do senhor Lúcio Meira, na direção do BNDE.
Na realidade, as mudanças verificadas no governo fortaleceram as posições
dos reacionários e entreguistas.
(...)
Uma defesa falsa de uma linha oportunista
Mas, as Teses e a Declaração de 1958, ao tentar a inovação,
caem no gradualismo oportunista. Admitem que o Brasil é um dos países
para o qual se abre a possibilidade real da via pacífica. Baseiam-se,
no entanto, em premissas que, quando não são falsas, são
hipóteses ou constatações unilaterais. Assim, a tese da "democratização
crescente da vida política" não corresponde à realidade.
Embora o país, atualmente, viva num clima de relativa liberdade, não
se pode assegurar a democratização como uma tendência permanente
na vida brasileira, uma vez que as forças reacionárias se mantêm
no poder e sempre que seus interesses são atingidos, apelam para a violência
e atentam contra as liberdades democráticas, como tem se verificado
em vários pontos do país. No que tange ao "ascenso do movimento
operário", ainda que tenha grande influência no curso dos acontecimentos
políticos, a verdade é que a unidade e a organização
da classe operária estão num nível tão pouco desenvolvido
que não podem servir de base para se proclamar a existência de
uma possibilidade real do caminho pacífico. Não se pode também
basear essa possibilidade no "desenvolvimento da frente única nacionalista
e democrática", porquanto as próprias Teses (item 26) afirmam
que "o movimento nacionalista é, em certo grau, fluido e disperso" e
as forças que o compõem "não seguem um plano unificado
de ação nem mesmo possuem uma plataforma comum". São,
por isso, inconsistentes as premissas em que se apóia a Declaração
para fundamentar o caminho pacífico. Em consequência, idealiza
o caminho da revolução antiimperialista e antifeudal. "O povo
brasileiro – afirma aquele documento – pode resolver pacificamente os seus
problemas básicos com a acumulação gradual, mas incessante,
de reformas profundas e consequentes na estrutura econômica e nas instituições
políticas, chegando até a realização completa das
transformações radicais colocadas na ordem-do-dia pelo próprio
desenvolvimento econômico e social da nação". Poder-se-ia
traçar um quadro mais róseo, evolucionista e reformista para
a marcha da revolução brasileira? A seguir, a Declaração
diz ser preciso para avançar nesse caminho a conquista de um governo
nacionalista e democrático. As Teses indicam os meios prováveis
para conquistá-lo: a) pressão pacífica de massas para
afastar do poder os entreguistas e substituí-los por nacionalistas;
b) pela vitória dos candidatos nacionalistas e democratas nos pleitos
eleitorais; c) pela ação das massas e dos setores nacionalistas
do Parlamento, das Forças Armadas e do governo contra as tentativas
de golpe dos entreguistas e reacionários.
O rumo precário da Declaração e das Teses
São bastante discutíveis esses meios prováveis de conseguir
um governo capaz de "encaminhar a solução dos problemas vitais
do povo brasileiro". Além disso, as três soluções
são apresentadas desligadas umas das outras. Vacilando, em relação à eficácia
de tais meios, as Teses mais adiante afirmam acacianamente que "o complexo
desenvolvimento da vida nacional é que determinará os meios concretos
para a conquista de um governo nacionalista e democrático".
Em linguagem de simples mortais: tudo pode acontecer, mas os meios prováveis
para conquistar aquele governo são os mesmos que se encontram nas Teses.
Por essas veredas, o Partido não irá longe. Se a prática é o
supremo critério da verdade, qual a experiência concreta, uma
vez que tais meios prováveis já constavam da Declaração?
O balanço dos progressos obtidos em mais de dois anos de aplicação
dessa tática é melancólico. O governo do Sr. Juscelino
Kubitschek, como foi visto acima, tem hoje, do ponto de vista da democracia
e da luta antiimperialista, uma composição bem pior do que no
início de 1958. Isto mostra o quanto é precário o rumo
traçado na Declaração e nas Teses no concernente ao caminho
pacífico.
Notas
*Quando da publicação de Duas concepções,
duas orientações políticas , Grabois fazia
parte dos quadros do comitê central do PCB. As profundas divergências
entre Grabois e outros quadros dirigentes marxistas-leninistas e a direção
prestista conduziu à luta de duas linhas que culminou na ruptura e
o processo de reconstrução do Partido com a sigla PCdoB em
1962.
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