
"Choque de ordem": roubos, prisões e revolta
No carnaval do Rio de Janeiro, os blocos de rua são uma das poucas
opções para quem não tem condições de pagar
para assistir o luxuoso desfile das escolas de samba do grupo especial — onde
os ingressos atingem a faixa de dois mil reais. Ali, misturam-se foliões
e trabalhadores pobres, que há décadas aproveitam o carnaval
para complementar a renda do mês vendendo bebidas e alimentos. Este ano,
o "choque de ordem" fechou o cerco nas ruas da cidade para reprimir ambos,
uns criminalizados por trabalharem e outros por urinarem nas calçadas.
Vale lembrar que a gerência municipal disponibilizou 4 mil banheiros
químicos para o carnaval, sendo que em blocos, como o tradicional Carmelitas
de Santa Tereza, que reuniu quinze mil foliões, haviam meros
20 sanitários. No desfile do mais popular de todos os blocos, O
Cordão do Bola Preta, mais de 1,5 milhão de pessoas se
engalfinharam para utilizar os 115 banheiros químicos disponibilizados
pela prefeitura. Na ocasião, 30 pessoas foram presas por urinar na rua.
No total, em todo o carnaval do Rio, 302 pessoas foram presas por urinar nas
ruas da cidade. Elas foram enquadradas no artigo 233 do código penal — ato
obsceno — podendo ser condenadas a um ano de prisão.
— Não aguentei. Sei que não é nada certo, mas
fiquei quase uma hora na fila do banheiro. Se esperasse mais ia urinar nas
calças. Tinha mais gente esperando na fila do que atrás do
bloco. Se você curte o carnaval na rua, tem que se sujeitar a isso.
Um absurdo. Eles não querem saber. Saem te algemando e te arrastando
como se você tivesse matado alguém. Foi uma covardia. Agora
estou impedido de prestar um concurso público. Estou estudando há meses.
Só saí da prisão porque minha família pagou minha
fiança. Quem não tem alguém pra pagar fica preso — disse
Daniel Saddi, de 26 anos, morador da Tijuca preso por urinar na rua durante
o desfile do bloco Azeitona sem Caroço , no bairro
do Leblon.
Outros que também foram duramente perseguidos durante o carnaval — como
já acontece ao longo do ano — foram os vendedores ambulantes. Para esses,
o carnaval não trouxe alegria alguma. No Centro da cidade, onde 360
guardas foram designados por Eduardo Paes para reprimir camelôs, dezenas
de trabalhadores tiveram suas mercadorias roubadas pelo "choque de ordem".
Camelôs resistem
Na sexta-feira de carnaval, camelôs já se organizavam para reagir.
Nos arredores do sambódromo, cerca de cem trabalhadores atacaram uma
equipe do "choque de ordem" deixando um dos agentes gravemente ferido. Neste
dia, que abriu o carnaval 2010, um total de 2.103 itens foram roubados dos
vendedores ambulantes em todos os locais de folia pela cidade.
Antes do carnaval, a repressão já tomava níveis insultuosos.
Nas praias da cidade, no dia 23 de janeiro, o "choque de ordem" apreendeu 230
cadeiras de praia, 130 guarda-sóis, 90 cadeiras de plástico,
25 isopores e 10 mesas de plástico. O material foi roubado de camelôs,
muitos deles, como o senhor Moacyr Pereira, de 63 anos, que há décadas
depende do trabalho informal praiano para sobreviver.
— Trabalho há 28 anos aqui em Copacabana. Nunca achei que seriamos
tratados assim por ninguém, muito menos pelos governos, que deveriam
cuidar da gente. Agora, estou passando dificuldade, pois não vou me
sujeitar a passar vergonha na praia sendo roubado e humilhado, como aconteceu
com muitos colegas meus. Prefiro parar de trabalhar. Pelo menos enquanto
estiver essa pouca-vergonha que o nosso prefeito está fazendo contra
o trabalhador — protesta Moacyr.
Além disso, na terça-feira que fechou o carnaval, 12 flanelinhas
foram presos pelo "choque de ordem" no tradicional bairro da Lapa e, no mesmo
dia, um depósito na Rua da Alfândega, Centro da cidade, com mais
de 25 mil itens que pertenciam a camelôs foi saqueado por agentes da
prefeitura, que com o apoio do monopólio dos meios de comunicação
e sem nenhuma perícia, declaram tudo como material pirata.
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