
Farra dos bancos
Em março de 2008, publiquei artigo intitulado Ascensão
estratosférica dos lucros dos bancos. Dizia então:
"Os lucros de 31 bancos em atividade no Brasil aumentaram,
em 2007, para R$ 34,4 bilhões, com crescimento real de 43,3% em relação
a 2006, quando tinham atingido R$ 25,05 bilhões. O retorno sobre o
patrimônio aumentou de 21,2 para 24,3%.
Que temos então? Uma escalada em aceleração desde
o início dos oito anos de FHC, período em que a média
de crescimento real dos lucros foi 11% aa., ou seja, acumulou 130%. Nos dois
primeiros anos de Lula, a média anual subiu para 14% aa. De 2003 a
2007, para 19,8%, acumulando 147% em apenas 5 anos. Computando os dois períodos,
468%, ou seja, os lucros reais multiplicaram-se por quase seis".
2 Agora, dois anos depois, começam a ser divulgados os resultados
de 2009. Não saíram ainda todos, mas já se pode avaliar:
apenas cinco bancos já somam lucro de
R$ 37,3 bilhões, superando o lucro total dos 31 bancos computados
em 2007: Itaú-Unibanco – R$ 10,5 bilhões; Banco do Brasil – R$
10,5 bilhões; Bradesco – R$ 8 bilhões; Santander – R$ 5,5 bilhões;
Caixa Econômica – R$ 2,9 bilhões.
3 Entre esses, há dois bancos públicos, o BB e a Caixa, que
arcaram com o grosso dos financiamentos à produção agrícola
e industrial, à parte os cobertos pelo BNDES, o banco federal de desenvolvimento.
4Em função disso, o aumento do lucro do Banco do Brasil foi
bem menor que o dos bancos privados e estrangeiros, como o Santander. A Caixa
Econômica teve diminuído seu lucro em 22%, comparado com o de
2008.
5Já os privados seguem desfrutando de lucros em célere crescimento.
São mais eficientes? Não. A política econômica assegura-lhes
lucros, sem que eles desempenhem qualquer função útil à economia,
reservando-lhes ganhos sem risco, o contrário da economia de mercado
e competitiva.
6De fato, o Banco Central continua amamentando os bancos com taxas reais
de juros acima de 12% aa. nos títulos públicos, que tiveram taxas
negativas nos outros países. O ano de 2009 caracterizou-se pela depressão,
mesmo no Brasil, onde a produção industrial recuou muito.
7Os concentradores tripudiam sobre o País. Diante da depressão
que afunda o emprego, os salários e a produção, as taxas
de juros permanecem astronômicas, sob a benigna (para os banqueiros)
proteção do Banco Central e das "autoridades".
8O fato de os lucros dos cinco maiores bancos terem, em 2009, ultrapassado
os obtidos em 2007 pelos 31 principais, significa não somente serem
eles cada vez mais favorecidos pelo "governo", mas também que a concentração
teve peso importante no resultado.
9Com efeito, só durante esse curto período, houve, entre outras,
duas grandes transações concentradoras: a absorção
do Unibanco pelo Itaú e a compra pelo Santander das operações
do ABN-AMRO (holandês), que adquirira, há tempos, o Banco Real.
Crise e Santander
10O Santander, que paga as palestras de FHC aqui e no exterior, foi o beneficiário
da escandalosa privatização com a qual a União transferiu
a propriedade do Banespa, o maior banco estadual do mundo, àquele braço
da oligarquia financeira mundial.
11Mas quem é o Santander? É um banco com sede oficial na Espanha,
originário da região basca, controlado pelo Bank of Scotland
e, portanto, associado ao grupo Inter Alpha, dirigido pela família real
britânica. A mesma que faz arrancar do território brasileiro as
zonas mais ricas em minérios do mundo, situadas em Roraima e outros
estados do norte, a pretexto de serem áreas indígenas.
12Observadores competentes apontam a Espanha como epicentro do colapso da
união monetária européia, previsível para este
ano e já desencadeado com a bancarrota da Grécia. Esta tenta
conseguir a reestruturação de suas dívidas, a qual, concretizada,
conduzirá às da Itália, Espanha, Portugal e Irlanda. O
conjunto envolve quantia equivalente a US$ 2 trilhões, mais que o triplo
do custo da quebra do Lehman, em 2008, a qual precipitou o colapso financeiro
em Nova York.
13O Santander é o banco com maiores problemas na Espanha, e os prejuízos
dele agravam a crise da City de Londres, onde, proporcionalmente, as intervenções
com dinheiro dos contribuintes para salvar bancos que deveriam falir, superam
as efetuadas nos EUA.
14Só na Espanha e só de bancos alemães, os créditos
montam a 240 bilhões de euros (US$ 330 bilhões), i.e., 44% dos
empréstimos germânicos na eurozona, que somam 540 bilhões
de euros (US$ 730 bilhões). Na Grécia estão apenas 8%
desse total.
15A Espanha é recordista de desemprego, com oficiais 18,8% já no
final de 2009. Sua degringolada provém, em boa parte, da depressão
reinante no continente, a qual acarretou aguda queda nas receitas do turismo.
Absurdo mundial e no Brasil
16O euro já se desvalorizou 10% em relação ao dólar,
desde o recente começo da crise monetária européia. Tal é a
falta de seriedade dos mercados financeiros, que o dólar, embora não
valha muito mais que lixo, vem sendo imaginado como refúgio de valor
por muitos que se livram do euro. Como piada, isso não seria mau, mas
acontece e agrava a tragédia da economia mundial, arrasada pelas jogadas
da oligarquia.
17O Brasil continua, de um lado, a propiciar lucros imensos aos bancos estrangeiros
em função das taxas de juros internas incrivelmente altas. De
outro, mantém, com prejuízo, reservas de quase US$ 240 bilhões,
aplicando-as a juro zero, com a inflação do dólar a 4%
aa. Pior: a desvalorização cambial sofrida em 2009 é oito
vezes maior que isso, e perspectiva futura de queda afigura-se desastrosa.
18Enquanto isso, não está distante o reflexo sobre o país
das encrencas dos bancos estrangeiros em suas bases no exterior. Um dos primeiros
da fila é o Santander, o quarto maior banco múltiplo em atividade
no Brasil.
Nota sobre a privatização
do Banespa
A União
entregou-o ao Santander nas condições mais vergonhosas
que se possa imaginar, depois de o ter federalizado e de nele gastar mais de
20 bilhões de reais em pretenso "saneamento". As privatizações
dos bancos estaduais envolveram empréstimos do Tesouro Nacional aos
tesouros estaduais através do Banco Central e do Programa Especial de
Reestruturação dos Bancos Estaduais (PROES).
Essas operações
até 2000 custaram cerca de US$ 48 bilhões
(6% do PIB da época), e os empréstimos não foram pagos,
a não ser na parte convertida em dívida dos estados com a União,
ficando, de qualquer forma, o prejuízo para o erário público.
Não bastasse isso, o Banespa, além de recursos em caixa, e de
fabuloso patrimônio, tinha créditos fiscais a receber de R$ 2,9
bilhões.
No final de 2000, sob os ridículos pretextos de que "graves
lesões às
ordens econômica e pública" poderiam resultar da suspensão
e de que a avaliação do Banespa estaria correta1,
o ministro Carlos Velloso, então presidente do STF, cassou as liminares que suspendiam
a privatização, não obstante grosseiras inconstitucionalidades
e irregularidades, inclusive o preço mínimo para o controle absurdamente
subestimado.
Esse foi R$ 1,85 bilhão, equivalente hoje ao lucro em quatro
meses. Ademais, os regulamentos das privatizações permitem o
pagamento em títulos podres. Houve ágio inusitado de 281%, mas
os "compradores" recebem
créditos fiscais em quantia equivalente ao ágio.
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1 Os avaliadores
foram o Banco Fator, laranja de bancos estrangeiros, e o Consórcio Booz-Allen,
empresa de consultoria norte-americana.
* Adriano Benayon é Doutor em Economia. Autor de "Globalização
versus Desenvolvimento", editora Escrituras.
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