De tempos em tempos aparecem no USA os inimigos públicos nº1,
geralmente "malvados", portadores de "cultura bárbara e selvagem", irresponsáveis
e sempre na eminência de atacar a população estadunidense.
Cartaz oferecendo recompensa pela captura de Villa
Atualmente a propaganda ianque esforça-se por nos convencer
da existência de uma fictícia rede de terror, em que tudo que é antiimperalista
se transforma em Al Qaeda e árabe (mesmo que no Irã vivam
os persas, e não os árabes), dirigida de uma desolada caverna
pelo atual inimigo público nº1, Osama Bin Laden.
Mas, o que queremos mesmo contar é a história da única
invasão de um exército latino-americano em território
ianque e a derrota de sua retaliação ao inimigo público
nº1 do momento, entre 1916 e 1917, Pancho Villa
Segundo o historiador Friedrich Katz, o general revolucionário Francisco
Villa construiu durante a Revolução Mexicana o maior exército
revolucionário da América Latina. Embora suas façanhas
militares durante a Revolução Mexicana sejam notáveis,
sua maior ousadia foi invadir o território ianque, atacar uma cidade
e depois, perseguido por mais de 10 mil homens (alguns dirão 20 mil)
com aviões e artilharia, sair com sua saúde melhor do que antes
da invasão.
Antes que se formasse uma expedição para capturar Villa, o USA
já havia invadido o México pelo menos mais duas vezes. Primeiro
entre 1846 e 1848, quando depois de inúmeras batalhas conseguiram entrar
na Cidade do México, impondo um acordo onde o México perderia
metade do seu território, os atuais estados do Texas, Califórnia,
Nevada, Utah, Novo México, Arizona e partes do Colorado, Wyoming, Kansas
e Oklahoma em troca de 15 milhões de dólares. A segunda invasão
aconteceria durante o governo de Huerta, com a ocupação do porto
de Veracruz.
As invasões ianques deixaram um profundo espírito anti-gringo
na população mexicana, que seria capitalizado por Villa em 1916
e 1917.
O ataque de Villa a Columbus
Após a tomada da capital do México pelas tropas de Villa e Zapata
em dezembro de 1914, é instaurado um governo provisório.
As forças revolucionárias se dividem entre constitucionalistas
(Obregón, Carranza e Pablo González) e convencionalistas (Zapata
e Villa, que aceitaram os termos da Convenção de Aguascalientes)
Os constitucionalistas, contra todas as apostas, conseguem infringir importantes
derrotas a Divisão Norte de Villa e os zapatistas são obrigados
a retornar a Morelos.
Após uma sucessão de derrotas, traições e intrigas,
Francisco Villa volta para o norte, é abandonado por alguns de seus
generais e dissolve a Divisão Norte, continuando a luta revolucionária
com a utilização de táticas de guerrilha.
Em outubro de 1916 o USA reconhece Carranza como governante do México
e fecha a fronteira para a compra de armas por Pancho Villa. A Revolução
Mexicana foi feita em um país que não produzia armas e munição,
dependendo de um abastecimento frequente na fronteira ianque. Um comerciante
lituano que vivia no USA havia trapaceado, recebido o dinheiro villista, mas
não entregado o carregamento de armas. Outros, aproveitando das dificuldades
no exército de Villa chegariam a vender munição defeituosa.
Somando os problemas com a munição, o reconhecimento do governo
de Carranza pelo USA, a possibilidade de tomar um banco e se vingar dos ianques
pela ajuda dada aos carrancistas na Batalha de Água Prieta, Francisco
Villa começa a arquitetar o plano de invasão e tomada da cidade
gringa de Columbus. "Vamos bater os gringos em sua própria terra
e, de quebra, pegar aquele que nos roubou a munição!"
Villa reuniria suas tropas, pouco mais de 500 homens, e iniciaria uma marcha
sinuosa, complexa e que somente ele conheceria o destino. No dia 9 de março
de 1916 os villistas atacam a cidade de Columbus, Novo México, pegam
a guarnição militar de surpresa e enfrentam uma pequena resistência
da população civil. Conseguem pegar algum dinheiro no Banco,
armas, alguma munição e cavalos, mas não encontram o tal
comerciante.

Charge mostrando Villa castigando a reação ianque
Nas palavras de Galeano: "Chove para cima. A galinha
morde a raposa e a lebre fuzila o caçador. Pela primeira vez na história,
soldados mexicanos invadem os EUA. Com a desconjuntada tropa que lhe resta,
quinhentos homens dos milhares que tinha, Pancho Villa cruza a fronteira
gritando Viva México! Assalta a tiros a cidade de Columbus"
A cidade de Columbus não era grande coisa, possuía menos de
mil habitantes, mas entraria para a história como o destino da única
invasão militar latino-americana ao USA, o que não é pouca
coisa e demonstra uma tremenda ousadia de Villa.
A fracassada Expedição Punitiva
O governo ianque, que desde essa época já utilizava a artimanha
de eleger um inimigo estrangeiro como bode-expiatório para suas ações
militares, transforma Pancho Villa em inimigo público nº1, distribui
avisos com uma recompensa pela sua cabeça e forma uma expedição
militar para capturá-lo.
Alguns dirão que foi intencionalmente, outros dirão que não,
mas o fato foi que a invasão das tropas ianques no México em
busca de Villa causou um grande embaraço para o governo de Carranza,
já que este pretendia capturar Villa. Por outro lado, a aceitação
da presença de tropas do USA era sinal de traição nacional
do governo, inadmissível para uma população que conhecia
o imperialismo ianque desde que metade de seu território fora usurpado
no século XIX. Muitos tinham avôs mortos nas batalhas contra os
gringos e as histórias do heroísmo eram contadas e cantadas nos
povoados nortenhos.
O então presidente do USA, Woodrow Wilson, ordena a formação
de uma campanha militar, inicialmente de pouco mais de 5 mil soldados e oficiais,
que cruzam a fronteira em busca de Villa. A expedição conhecida
como "expedição punitiva", chegaria a mobilizar mais de
10 mil homens, entre os quais estariam os futuros generais da 2º guerra
mundial, Patton e Eisenhower — este último seria também
presidente.
Francisco Villa, não podendo enfrentar diretamente as tropas ianques,
passou à atividade guerrilheira, acossando, despistando e confundindo
os gringos; dividia e reagrupava suas tropas, enviava tropas de reconhecimento,
provocava, marchava em outra direção. Sumia, aparecia, tomava
povoados, expropriava banqueiros, recrutava novos combatentes e dispersava
novamente.
Algumas histórias são famosas, como a emboscada de um avião
que sobrevoava uma possível região onde estaria Villa. Ao ver
uma bandeira do USA, pousou. Eram villistas que com esse artifício capturaram
um avião e o utilizaram para localizar as posições inimigas.
Villa havia recebido um tiro na perna em combate contra os carrancistas, o
que o deixou doente por um tempo. Crendo que morreria, por diversas vezes a
imprensa do USA armaria um alvoroço em torno de sua morte, abririam
possíveis covas de Villa, para logo depois descobrirem vacas e ossos
de outros animais. O próprio Villa os enterrava para confundir o inimigo
e colocava uma cruz com os dizeres: "Aqui jaz Francisco Villa".
Enquanto perseguiam Villa, enterravam-se em território cada vez mais
hostil, chegavam a povoados e recebiam pedradas, marchavam pelo deserto, por
montanhas que desconheciam e nenhum sinal de Villa. Contra homens que já lutavam
naquele terreno a quase uma década, todo o equipamento ianque era inútil.
Salinas Carranza ironizaria a velocidade da macha das tropas gringas: "nossas
mulheres, a pé, percorriam essa distância".
Com um amplo sistema de informação, o apoio da população
camponesa e um profundo conhecimento do terreno, Villa conseguiria não
ser capturado, e inclusive evitaria as tropas carrancistas, ganhando mais apoio
popular para um novo ressurgimento.
"Em todo lugar e em lugar nenhum"
Depois de avançarem até Parral, uns 800 km desde a fronteira,
o Governo do USA decide retirar suas tropas, afirmando terem alcançado
seu objetivo de esmagar as forças villistas, mas quanto ao objetivo
real, capturar Pancho Villa, um informe a Carranza seria mais realista: "Francisco
Villa está em todo lugar e em lugar nenhum" . Acabava assim
a "Expedição Punitiva", que não conseguira punir ninguém,
mobilizara uma força descomunal contra apenas um homem e se retirava
do México sem ter nem arranhado Pancho Villa. As tropas ianques terminariam
com pelo menos 300 baixas e algumas centenas de feridos. Decerto que Villa
não era o único objetivo, e certamente o USA pretendia influenciar
os rumos da política mexicana. Mas, frente à resistência
popular, tampouco conseguira esse objetivo oculto.
Pershing, o comandante da expedição, comandaria depois as tropas
ianques na 1ª Guerra Mundial, onde teria mais êxito.
Após a retirada dos gringos, Pancho Villa recompõe novamente
parte de seu exército, reagrupa guerrilheiros, reencontra o general
Felipe Ángeles e novamente alcança vitórias sobre os carrancistas.
Em 1919 morreria Zapata, em 1920, Carranza. Com as eleições e
a vitória de Obregón, uma nova ordem parecia se firmar no país.
Com algumas reformas e promessas de medidas que garantissem melhorias para
os camponeses e pobres do México, Villa aceita os termos de uma rendição
ao novo governo.
Entre os termos do acordo está a saída de Villa da vida pública,
a anistia e a incorporação dos soldados villistas no exército;
a distribuição de terras aos órfãos e viúvas
dos combatentes e a entrega de uma fazenda em Canutillo para que ele e alguns
membros de seu exército pudessem trabalhar e retirar o seu sustento.
Mesmo dissolvendo seu exército Villa permaneceu com uma escolta de cerca
de 50 homens.
Durante pouco menos de 3 anos, Villa, com algum apoio do governo, construiu
uma escola, reformou o povoado de Canutillo e conseguiu produzir nas terras
da colônia.
Francisco Villa não era socialista, nem mesmo havia participado de
partidos ou organizações anti-imperialistas. Suas opções
políticas foram se construindo a partir de sua revolta contra a opressão,
entre combates e batalhas, pelas opções que a situação
real apresentava diante de si.
Columbus cresceria, e como muita coisa no USA se transforma em Disneylandia.
Foi criado um parque em homenagem ao homem que protagonizou a invasão
ao seu território, o Pancho Villa State Park .
Villa declarou algumas propostas curiosas, como a de construir uma vala entre
o USA e o México, e também uma distinta perspectiva para a sociedade
pós-revolucionária, esboçada em uma entrevista ao jornalista
John Reed, que em parte era o projeto da Fazenda Canutillo:
"Quando se estabelecer a Nova República, não
haverá mais
exércitos no México. Os exércitos são o maior
apoio à tirania. Não pode haver ditador sem exército.
Poremos o exército a trabalhar. Serão estabelecidas em toda
república colônias militares, formadas por veteranos da Revolução.
O Estado lhes dará posse das terras agrícolas e criará grandes
empresas industriais para dar-lhes trabalho. Trabalharão três
dias na semana e trabalharão duro, porque o trabalho honrado é mais
importante do que lutar, e só um trabalho assim produz bons cidadãos.
Nos outros dias receberão instrução militar, e por sua
vez, instruirão todo o povo, para ensiná-lo a lutar. Então,
se a Pátria for invadida, tomando-se apenas o telefone do Palácio
Nacional na Cidade do México, em meio dia se levantará todo
povo mexicano em seus campos e fábricas, bem armado, equipado e organizado
para defender seus filhos e seus lares. Minha ambição é viver
minha vida numa dessas colônias militares cercado se meus queridos
companheiros, que sofreram tanto e tão profundamente ao meu lado.
Creio que desejaria que o governo estabelecesse uma fábrica de curtume,
onde pudéssemos fazer boas selas e freios, pois sei como fazê-los;
o resto do tempo, desejaria trabalhar na minha granjazinha criando gado e
semeando milho. Seria magnífico, creio, ajudar a fazer do México
um lugar feliz."

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