Apresentado nas ruas de Belém, PA — onde surgiu —, na ilha de Marajó,
na Marambaia e em toda região amazônica, o "cinema de rua" reúne
o povo e realizadores comprometidos com o cinema nacional, com perfil diferenciado
dos de circuitos dos shoppings , 'enlatados', considerado por
Francisco Weyl, idealizador e coordenador do projeto, como 'cinema pipoca'.

Nas ruas de Pacajá, Pará, o povo experimenta um cinema que fala de sua cultura
e realidade
— O cinema de rua é uma intervenção artística
e social, com uma dimensão necessariamente histórica. Essa
prática remonta os anos de 1970, quando diversos cineastas brasileiros
utilizavam essa ferramenta criadora para registrar as greves operárias,
as greves metalúrgicas no ABC. Alguns desses filmes ficavam prontos
a tempo de serem exibidos nas assembléias seguintes, o que fortalecia
em demasiado a luta política daquele período — explica
Francisco Weyl.
— A imagem em movimento tem um poder fabuloso, e essa dimensão
histórica do cinema de rua já acontecia na União Soviética,
quando operadores de câmera dirigidos pelo Dziga Vertov chegavam aos
rincões mais distantes para captar as imagens da revolução
em seu processo emergente, ou seja, o cinema de rua se relaciona com o cinema
de guerrilha, de resistência, de enfrentamento — acrescenta.
Francisco é poeta e realizador de filmes. Formado em cinema, com especialização
em semiótica, se intitula "carpinteiro de poesia e cinema", tendo seu
maior prazer nas exibições gratuitas em ruas e praças
de Belém, assim como muitas outras cidades que tem projetos considerados
parceiros.

— Quando montamos o 'circo' na rua, instalando o projetor, a caixa
de som, o telão, etc, naturalmente chamamos a atenção
dos transeuntes, tendo eles sido ou não previamente comunicados daquela
ação. Imediatamente há uma ruptura com o conjunto de
estruturas subjacentes que estão no ciclo do grande cinema, o cinema
industrial, que limita a criatividade humana, como simples expectador — explica
Francisco.
— A cidade com seus cidadãos passa a compor o cenário
do filme ao mesmo tempo em que se desenha um novo cenário desse mesmo
filme, feito desde e neste encontro confronto/convergência. É o
cinema chegando até as gentes para as quais a arte deve ser direcionada — continua.
Criar e exibir bons filmes
Para Francisco "cinema na rua" quer dizer "cinema do povo", motivo pelo qual
a responsabilidade de quem desenvolve essa prática é muito grande.
— Diariamente nós aqui da região somos bombardeados por
um conjunto de imagens, através da televisão, da publicidade,
ou dos grandes cinemas. Então nos interessa discutir esteticamente
se a nossa produção está de acordo com uma nova linguagem
ou se estamos apenas reproduzindo esses padrões, que afinal de contas
têm nos usurpado culturalmente — declara.
— Particularmente na qualidade de realizador que sou, tenho um compromisso
com a minha cultura, com o meu país, com a minha cidade, com a periferia,
de cinema para o povo, com compromisso ético, com perfil bem diferenciado
do grande cinema narrativo, do puro entretenimento, 'enlatados', o que chamo
de 'cinema pipoca'. Levamos para as ruas filmes feitos com critérios
que não é o do lucro financeiro — continua.

O cinema de rua exibe filmes de realizadores da região, ligados aos
projetos de outros locais e também de grandes nomes do cinema nacional.
— Mostramos Gláuber Rocha, Eduardo Coutinho, Nélson Pereira
dos Santos, e outros sensacionais. Também apresentamos obras como:
Brasil para trás, documentário
sobre o golpe militar em que registrei o ex-preso político e torturado,
Humberto Cunha; Contra corrente filme que
fiz com o jornalista Luís Carlos Pinto sobre liberdade de expressão;
Patativa do Assaré, do Rosemberg
Cariry; Chama Verequete, do Luís
Arnaldo, sobre o mestre Verequete, considerado o rei do carimbó, entre
muitos outros. No final de cada sessão realizamos debates — relata.
Francisco, que também coordena o Cineclube Amazonas Douro e sempre
está ligado a movimentos de resistência cultural, tem como parceiro
vários outros grupos que seguem a mesma linha de lutas, dentro e fora
de Belém.
— Levo para os locais todo o maquinário, meu projetor, os filmes,
os cabos, minha câmera de filmar e de fotografar e vou registrando
tudo e colocando para circular na internet. E vamos abrindo essas fontes
em um abraço com comunidades em favor da nossa cultura. Recentemente
realizamos sete oficinas de cinema e tivemos como resultado nove obras audiovisuais
coletivas — comenta com alegria.
— Nossa proposta é trabalhar com a organização
de coletivos, visando desaparecer a figura individualista do realizador,
colocando na cabeça da moçada que qualquer cidadão pode
ser artista, realizador de filmes. E não é porque nossa região é praticamente
excluída de verbas do Ministério da Cultura que não
produzimos arte. Temos uma grande e rica produção literária,
cênica e fílmica aqui na nossa região amazônica — expõe.
Esse trabalho é considerado como vocacional por Francisco e seus companheiros,
que o fazem com muita dedicação e coração.
— Sem nenhum tipo de apoio, por exemplo, o realizador Márcio
Barradas já fez dois longas e cerca de cinco curtas. Também
um professor de Marambaia fez uma pesquisa sobre a cabanagem, o que resultou
em um filme falando da revolução cabana, com a participação
de 65 alunos, sem um centavo de instituição alguma. Enquanto
querem submeter a todos ao 'cinema pipoca' tem um grupo de pessoas realizando
um trabalho sério e lutando bravamente para preservar nossos valores — conta.
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