Grupo Fibra encenando Brincando de brincar
Grupo teatral de Montes Claros, nas Minas Gerais, o Fibra nasceu em 1979,
dentro de uma escola da rede estadual, em função de um trabalho
de grupo realizado pela então professora de educação artística
Terezinha Lígia com seus alunos de sétima e oitava série
do ensino fundamental. O resultado foi a montagem de uma peça, que de
tanto sucesso acabou ajudando a fincar as estacas de um movimento que leva
cultura regional, através do teatro, música e dança, à crianças
e adolescentes da região.
— Aqui no Fibra acreditamos que falar de cultura para a criança é importantíssimo
para o seu futuro. E muito antes de escrever para crianças, dirigir
e atuar em espetáculos infantis, já tinha essa preocupação,
ao ver que as peças que existiam davam a criança um tratamento
de jovem ou adulto, sem entender que ela tem uma percepção
muito mais aguçada do que o adulto, e a sinceridade incrível — diz
Terezinha Lígia, que é pós-graduada em arte e educação.
— Creio que se uma pessoa fizer bem teatro para criança, poderá fazer
para qualquer adulto, por causa da sua sinceridade, que a faz expressar na
hora o gostar ou não gostar. Isso é algo que me encanta. Na
verdade, toda a minha vida profissional é direcionada para elas e
para as artes — fala.
— O grupo é muito voltado para a cultura regional, através
de textos, de figurinos com influências nas cores fortes e vibrantes,
e das músicas. O Brincando de brincar,
que já está na terceira edição e continuamos
apresentando, por exemplo, é um resgate das músicas regionais
chamadas hoje de folclore. É um espetáculo bem festivo, com
muitas cantigas de roda, cantigas de ninar, e muito mais, tudo teatralizado.
E tem sido muito apreciado pelo público — explica Terezinha.
Atualmente o Fibra conta com quatro atores fixos e um músico no palco,
que faz a sonoplastia, podendo surgir convidados tanto para encenar quanto
para dirigir. Também conta com um violonista, que faz a direção
musical das produções.
— São trinta anos de muita luta, muita dificuldade para manter
um trabalho onde as pessoas possam sobreviver do fazer teatral, o que praticamente é inviável.
Quem fica tem que se desdobrar com outros trabalhos paralelos, apesar de
fazer teatro sério, profissional, e dedicar-se muito a ele — diz
Terezinha.
— Trabalhamos na base do no peito e na raça. Normalmente vivemos
da venda dos nossos espetáculos e da bilheteria, sendo que a divisão
do dinheiro arrecado era revertido para o próprio grupo, em material
necessário para compor o cenário e figurino — comenta
entusiasmada.
— Em dezembro passado apresentamos nossa décima sexta montagem,
inaugurando, depois de todo esse tempo, a nossa sede. Com isso podemos fazer
uma pré-estréia, e agora uma longa temporada. Antes era inviável
porque aqui em Montes Claros não tem um bom espaço. Nos apresentávamos
em um auditório que tem aqui, mas é bastante defasado, e ainda
não nos dá condição de estarmos em dois finais
de semana seguidos — continua.
Além de ensaiar e apresentar seus espetáculos, o Fibra vê em
sua sede um espaço para divulgar e propagar cultura.
— Como ainda é bem recente essa aquisição, temos
mais projetos do que ação no local, entre eles a criação
de oficinas, que deve acontecer em breve, para aumentar as possibilidades
de se levar teatro, dança e música até crianças
e eventualmente adultos também, principalmente aqui na nossa região
que vive em situação tão precária, quando se
fala em teatro e cultura em geral — expõe.
Causos e lembranças em textos
Terezinha é autora da maior parte dos espetáculos do grupo,
e também atua como atriz e diretora.
— Quem me motivou a escrever foi o João das Neves. Na verdade
eu mesma não sabia que tinha condições para escrever
um texto teatral, até que fiz um texto para ele e foi logo me dizendo:
'Isso aqui é muito rico, vá escrever sobre cultura menina'.
No começo ainda fiquei insegura, mas agora depois de tantos textos
encenados, acredito que levo jeito. E isso é muito bom porque não é fácil
achar textos teatrais que atendam àquilo que queremos passar. Então
posso dizer que escrevo por intuição, gosto e necessidade — assume.
— E tem muito da minha infância no que escrevo, muitas vezes
sem que isso seja proposital, só percebendo quando vou organizar o
texto. Fico feliz porque acredito que temos mesmo que passar a cultura que
vivemos e ouvimos dos nossos pais e avós para os mais jovens para
que permaneça viva — defende Terezinha.
Diferente dos outros, Vem ver boi, espetáculo
atual, também escrito por Terezinha, é direcionado para adultos,
continuando no campo da popularização da cultura local.
— O texto levanta a questão da alienação do homem
contemporâneo quanto aos seus valores culturais, sempre com questionamentos
que fazem as pessoas discutirem o assunto. Fala de suas mazelas, usando as
lembranças do personagem ligadas às festas, adventos da cultura
regional. A direção é de um ex-integrante do grupo,
que saiu para estudar fora e agora trás para nós o que aprendeu — comenta.
— Mas continuamos com os espetáculos infantis, que nos caracterizam,
inclusive nos apresentando nas escolas e também para as mesmas, quando
fazemos um espetáculo em outro lugar, e ali as recebemos — explica
Terezinha, que no momento encontra-se em férias-prêmio na escola
que trabalha, dividindo seu tempo entre a Unimontes, onde leciona teatro,
e as pesquisas, ensaios e apresentações do Fibra.
— A partir de abril estaremos viajando com este e outros espetáculos
para cidades próximas daqui. Na verdade, nos sentimos felizes por
conseguir fazer isso em uma região onde não existe política
cultural e nenhum tipo de organização no sentido de valorização
do tipo de trabalho que fazemos. Neste sentido somos heróis — conclui.
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