A expressão "falso positivo" normalmente nos leva a pensar em alguma
doença infectocontagiosa potencialmente letal diagnosticada erroneamente.
Assim, vemos: homem processa hospital depois de viver por anos com
diagnóstico falso positivo de AIDS, ou, mulher aliviada ao
constatar que seu diagnóstico de gripe suína era um falso positivo.
Também ouvimos "falso positivo" sobre o resultado equivocado que pode
apresentar um exame de gravidez caseiro. Mas, na Colômbia de Álvaro
Uribe, essas palavras são a única forma tolerada de se referir
aos assassinatos extrajudiciais promovidos pelo terrorismo de Estado.

Colombianos vão às ruas exigindo punição para crimes do Estado
O curta-metragem documentário La pobreza, un "crimen" que
se paga con la muerte (A pobreza, um "crime" que se paga com a morte) do
jornalista colombiano Felipe Zuleta nos conta uma
história do seu país bem diferente da oficial. Começa
nos apresentando a cidade de Soacha, colada a capital Bogotá, com
400 mil habitantes apinhados, morando em condições precárias,
ruas sem calçamento e todo tipo de violência. Lá vivem
duas mães cujos filhos, mesmo sem se conhecerem, tiveram histórias
bem parecidas. Eles, ante a pobreza e falta de oportunidades, decidiram
partir a procura de um trabalho que lhes permitisse melhorar a vida de
suas famílias. O sonho era poder comprar uma casa em um lugar melhor.
Eles receberam uma proposta de trabalho, viajaram em agosto de 2008 e não
deram mais notícias. Logo as mães percorreram hospitais e delegacias,
mas sem resultado.
Em um país onde todos os males são atribuídos às
Farc, elas ouviram das autoridades que os guerrilheiros os teriam assassinado,
e acabaram se conformando com essa resposta.
Mas, meses depois, é achada uma vala comum com 14 corpos a 500 km de
Soacha; ali estão os filhos desaparecidos. Depois de o governo ensaiar
versões contraditórias, o ministro da defesa declara que os mortos
eram guerrilheiros das Farc caídos em combate contra o exército.
O exercito tinha entregado os corpos à medicina legal e, como estavam
sem documentos, foram enterrados na vala comum.
As mães, atônitas e indignadas, tentaram argumentar. Porém,
longe de reconsiderar, o governo em peso — desde os militares até o
próprio Uribe — garantiram que os rapazes eram guerrilheiros.
A imprensa habitualmente adota o discurso oficial, mas desta vez era insustentável.
Lógico que não se atreveram a qualificar os militares de assassinos,
mas passam a os acusar, usando a linguagem tolerada. E especulam: seriam falsos
positivos os jovens de Soacha? Na Colômbia, "falso positivo" é dar
como exitosa uma operação militar do Estado sem ser verdadeira.
Pode se tratar da "frustração" de um plano terrorista fictício,
pode se culpar a guerrilha por uma chacina cometida pelos próprios militares,
etc. ou como neste caso assassinar civis acusando-os de guerrilheiros.
Então a luta incansável das mães levou á opinião
pública, jornalistas, ONGs e Procuradoria a forçarem uma investigação
que acabou desvendando a verdadeira história.
O plano macabro dos terroristas que governam a Colômbia consiste em
promover e premiar em dinheiro os militares que produzem mais cadáveres
para assim conseguir aumentar os orçamentos militares e somar apoio
político mostrando serviço tanto dentro como fora do país,
ademais de exterminar pobres. Movidos por esse incentivo, militares descaracterizados
percorriam favelas e subúrbios a procura de jovens empobrecidos e lhes
prometiam emprego. Os que mordiam a isca eram transportados para longe, assassinados
e apresentados como guerrilheiros das Farc mortos em confronto.
Em poucos dias de investigação, a quantidade de jovens assassinados
encontrados em valas comuns superavam a centena, sendo onze de Soacha. Ante
as evidências irrefutáveis, Uribe admite que "pode ter integrantes
das Forças Armadas envolvidos em assassinatos". 26 militares são
destituídos, mas sem alcançar nenhum general, comandante das
fascistas forças armadas nem o ministro da defesa. Ao invés de
punir os responsáveis, ocorre a blindagem de Uribe e seus sequazes.
Mas o drama das famílias não termina aí. Longe de receber
alguma indenização, pedido de desculpas ou explicação
oficial do governo, são elas que têm que ir atrás dos cadáveres.
Esta gente pobre é obrigada a viajar até a vala comum e com as
próprias mãos resgatar os corpos de seus entes queridos. Muitas
das mães de Soacha têm recebido ameaças de morte.
Em dezembro de 2009 a "justiça" colombiana começou a soltar
alguns dos militares implicados. O general Mario Montoya, maior figura alcançada
pelo escândalo, renunciou, mas foi premiado com o cargo de embaixador
na República Dominicana.
Em 15 de janeiro deste ano, quando foi terminada a produção
deste documentário, se contabilizavam 1.778 jovens assassinados pelo
Estado. Dias depois vinha a público a descoberta de outra vala comum
na cidade de La Macarena com mais de 2 mil corpos, comprovadamente vítimas
do Estado. Certamente novas valas serão achadas, já que o número
de desaparecidos nos últimos anos ultrapassa as 50 mil pessoas.
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