A morte recente do presidente da Polônia, Lech Kaczynski, e
outras 96 pessoas, num acidente aéreo em 9 de abril, deu aos reacionários
de plantão pelo mundo mais um gancho para trazer à tona intrigas
e difamações contra a União Soviética e Stalin.
Acontece que a comitiva se dirigia a Katyn, localidade próxima de
Smolensk, na Rússia, para prestar "homenagens" a supostas vítimas
polonesas dos serviços secretos do Exército Vermelho. Imediatamente
o monopólio dos meios de comunicação do mundo todo ressuscitou
o caso, do qual se falou mais até do que da morte do presidente polonês.

Genocídio nazista é desmascarado. A grande mentira sucumbe aos fatos
O massacre de Katyn ficou assim conhecido através de uma intriga nazista
que data de 1943, quando acusaram o Exército Vermelho de ter executado
com tiros na nuca a cerca de 10 mil poloneses, principalmente militares. Os
nazistas anunciaram uma "investigação" no território ocupado
por eles, com a ajuda de um governo títere e de uma Cruz Vermelha coagida
e enquadrada, para chegarem a conclusão de que não foram eles,
e sim os soviéticos que cometeram tal atrocidade.
Para entender Katyn é necessário entender primeiro o papel desempenhado
pela Polônia no panorama europeu e o Pacto de Não-Agressão
assinado pela URSS e a Alemanha nazista.
A Alemanha, que saiu destroçada da Primeira Guerra Mundial, foi reerguida
e rearmada pelos países imperialistas e tinha propósitos expansionistas,
principalmente contra a URSS e o socialismo. No entanto, sabia que consolidar
uma posição forte na Europa era fundamental e abrir uma guerra
com dois fronts seria suicídio.
A URSS, por outro lado, não tinha dúvidas que um ataque nazista
a seu território era questão de tempo e por mais que as contradições
interimperialistas estivessem se agravando era ela, a pátria do socialismo,
o inimigo jurado de todas as potências imperialistas. Sabia que em caso
de agressão nazista deveria contar apenas com suas próprias forças
e ter uma estratégia precisa, pois os possíveis aliados esperariam
um desgaste das duas partes antes de intervir. Tais suspeitas se confirmaram
com a demora da abertura da segunda frente iniciada com o desembarque da Normandia,
já no fim da guerra. A URSS Precisava de tempo para se preparar política,
econômica e militarmente para o confronto inevitável. Não
por acaso a diplomacia revolucionária soviética trabalhou arduamente
toda a década de 1930 por um acordo de não-agressão com
a Inglaterra, França e inclusive com a Polônia, acordo jamais
realizado.
Em 23 de agosto de 1939, o Pacto de Não-Agressão entre a URSS
e a Alemanha é assinado e até hoje reacionários e oportunistas
de todos os matizes acusam a URSS de ter dado a senha para o início
da guerra. O que esquecem de se referir é que teria sido suicídio
não se preparar para enfrentar a Alemanha armada até os dentes
e que todas as potências imperialistas olharam para o outro lado, tanto
no caso da Polônia como da Tchecoslováquia, Bulgária, etc.,
até que os nazistas desfilaram em Paris. Com o Pacto, a URSS entrou
em um esforço monumental em que fábricas foram mudadas de lugar,
armas foram aperfeiçoadas e produzidas em massa, estradas abertas e
o principal, massas foram preparadas política, ideológica e militarmente
para enfrentar o inimigo. O fato é que o Pacto permitiu a preparação
e a ordem de resistir até o último homem em Moscou, Leningrado
e Stalingrado, sendo essas as duas pedras fundamentais da vitória sobre
o nazi-fascismo. Não é de se estranhar que sejam justamente elas
que mais queixas e lamúrias levantem da reação.
Neste cenário a Polônia desempenhava papel fundamental: era a única
barreira entre a Alemanha e a URSS, Hitler queria ocupá-la prontamente
e a necessidade de criar ali a primeira linha de defesa do território
soviético também era premente. Ademais, o pacto estabeleceu que
a URSS ocuparia apenas o território com maioria da população
ucraniana, bielorrussa e russa, que então compunham a união das
nações soviéticas.
A guerra se desenvolveu rapidamente e em 1941 parte significativa do território
soviético já estava ocupado, incluindo a região de Smolensk,
onde se situava Katyn.

Foto da execução de prisioneiros em Katyn
encontrada com soldado nazista ao
fim da II Guerra
Em 11 de abril de 1943, autoridades nazistas começam a difundir a patranha
de Katyn. Afirmando que haviam descoberto, dois meses antes, covas coletivas
com cerca de 10 mil oficiais poloneses assassinados pelos soviéticos,
supostamente em 1940. Surpreende o fato de tal "descoberta" bombástica
ter sido feita apenas dois meses após a derrota dos nazistas em Stalingrado
e o consequente início da contra-ofensiva soviética.
O que ocorreu
em 1919, no fim da 1ª Guerra Mundial, estabeleceu-se a chamada "Linha
Curzon", que delimitava a fronteira entre a Polônia e a jovem pátria
proletária. Insatisfeitos, os poloneses se aproveitaram da fragilidade
militar dos revolucionários russos e avançaram a oeste da linha,
tomando grande extensão do território russo.
Em 17 de janeiro de 1939 a URSS ocupou o território a oeste da Linha
Curzon e imediatamente iniciou a distribuição de terras aos camponeses,
implementando também outras medidas populares e democráticas.
Durante a batalha para retomar estes territórios, 10 mil oficiais e
soldados poloneses foram feitos prisioneiros de guerra, sendo utilizados na
construção de estradas, etc.
Durante a invasão nazista à URSS em 1941, a Ucrânia foi
ocupada muito rapidamente e não houve tempo para a evacuação
de todos os prisioneiros, razão pela qual os poloneses se converteram
em prisioneiros de guerra alemães.
Eis que em abril de 1943 os alemães anunciam a descoberta das fossas
com as vítimas do massacre, atribuindo as mortes aos soviéticos
num momento crucial da ofensiva do Exército Vermelho. Não é difícil
imaginar o que houve com os prisioneiros poloneses, mas mesmo assim ainda há testemunhos
que confirmam a morte dos poloneses pelas mãos dos carrascos hitlerianos.
Maria Alexandrovna Sashneva, professora de uma escola primária local,
declarou a uma comissão especial organizada pela União Soviética
em setembro de 1943, imediatamente depois de o território ser libertado
dos alemães, que em agosto de 1941, dois meses depois da retirada soviética,
o que lhe disse um prisioneiro polonês fugitivo. Seu nome era Juseph
Lock e relatou dos maus tratos sofridos sob a ocupação alemã:
"Quando os alemães chegaram, se apoderaram do campo de prisioneiros
poloneses e estabeleceram um regime estrito. Os alemães não
consideravam os poloneses como seres humanos. Os oprimiram e humilharam de
todas as maneiras possíveis. Disparavam nos poloneses sem motivo algum.
Ele decidiu fugir..."
Outros relatos revelam as pressões sofridas pelas "testemunhas" do
massacre.
Parfem Gavrilovich Kisselev, habitante da região de Katyn, foi preso
torturado e obrigado a assinar um documento onde dizia ter testemunhado a execução
dos poloneses pelos soviéticos. Quando pensava que o pesadelo havia
acabado, foi novamente obrigado a testemunhar perante uma comissão polonesa,
mas não confirmou a versão nazista e de novo foi preso e surrado,
até que repetisse a história ditada pelos carrascos alemães.
Muitos confirmaram o depoimento de Kisselev e um exame confirmou as torturas
a que foi submetido.
Outros testemunhos dão conta de que seria impossível, no estado
que se encontravam os corpos, que os mesmos estivessem enterrados por três
anos, como diziam os nazistas. Os cadáveres não estavam decompostos,
como seria de se esperar de uma vala comum, mas com partes bastante íntegras
e mantinham os membros quando eram puxados para a superfície sem nenhum
cuidado.
Por fim, até o próprio Goebbels em mais de uma oportunidade
deixaria registrado que tudo não passava de propaganda contra a URSS.
Em seu diário, ele escreveu em 18 de maio de 1943: "desgraçadamente
a munição alemã foi encontrada em Katyn. É fundamental
que este incidente se mantenha em segredo. Se for conhecido pelo inimigo todo
o assunto de Katyn terá que ser abandonado."
A correspondência secreta
A campanha difamatória sincronizou a imprensa nazista e a imprensa
polonesa colaboracionista e é bastante esclarecedor acompanhar a correspondência
entre Stalin e Churchill1 neste período.
Em 21 de abril Stalin escreveu "... A campanha de
difamação
contra a União Soviética, iniciada pelos fascistas alemães,
a respeito do extermínio, por eles, dos oficiais poloneses na zona
de Smolensk, em território ocupado pelas tropas alemãs, foi
imediatamente acolhida pelo governo do Sr. Sikorski e alçada por todos
os meios pela imprensa oficial polonesa. O governo do Sr. Sikorski, não
só não fez nada frente a essa calúnia fascista contra
a URSS, como nem sequer achou necessário dirigir-se ao governo soviético
para pedir explicações ..."
Stalin comenta então que os dois governos, nazista e polonês,
chamaram a Cruz Vermelha para participar da investigação, que
se viu obrigada a fazê-la em um regime de terror. Comenta ainda que a
forma sincronizada como tal campanha foi iniciada indicava a existência
de acordo entre os dois governos.
Finaliza a carta afirmando que o governo soviético concluiu pela necessidade
de romper relações diplomáticas com o governo polonês
no exílio.

Cena do filme Katyn, do polonês Andzej Wajda, que tenta reacender
a intriga nazista
No dia 23 Churchill responde "... Nos oporemos energicamente,
está claro,
a uma ‘investigação' da Cruz Vermelha Internacional ou de qualquer
outro organismo em território dominado pelos alemães. Uma investigação
deste gênero seria uma enganação e seu veredito seria
obtido por intimidação. Mr. Eden se reunirá hoje com
o Sr. Sikorski para pedir-lhe que renuncie a dar apoio moral a uma investigação
feita sobre a proteção dos nazistas. ..."
Churchill passa então a falar da "posição difícil" de
Sikorski, que se ele fosse substituído poderia ser pior, e a tentar
convencer Stalin a não romper relações. Sem dúvida,
manter relações com governos reacionários era importante
para Churchill e a difamação da URSS em nada lhe atingia, ao
contrário. Mas para a URSS, manter relações com o governo
reacionário polonês era, no mínimo, admitir a possibilidade
de culpa. Assim sendo, em 25 de abril Stalin, em um curto bilhete, agradece
o envolvimento de Churchill, mas afirma que já havia tomado as providências
para o rompimento.
Nas cartas seguintes, datadas de 25 e 30 de abril, Churchill demostra seu
caráter dúbio. Afirma que existiam diferenças entre as
posições polonesas e nazistas, que os poloneses haviam inquirido
os soviéticos sobre o assunto e que após enérgica intervenção
britânica Sikorski havia se comprometido em não insistir em que
a Cruz Vermelha fizesse a investigação. Logicamente tais iniciativas
eram apenas de fachada, uma vez que o estrago já estava feito e os nazistas
não parariam por causa dos protestos do governo títere da Polônia.
Churchill repassa uma petição do governo polonês para
que seja autorizada a saída de poloneses em território russo
e iraniano para sua incorporação no exército.
Insiste ainda no problema do rompimento de relações estre a
URSS e a Polônia e se compromete a "chamar à ordem e à disciplina"
"a
imprensa polonesa em Londres, que obviamente também participava da campanha
difamatória". Afirma ainda que "... Até agora
tem sido uma vitória de Goebbels. Este se inclina atualmente com o maior
zelo à idéia
de que a URSS organizará um governo polonês em território
russo e só negociará com ele. Nós, naturalmente, não
poderíamos reconhecê-lo e seguiríamos mantendo relações
com Sikorski ..."
Stalin responde em 4 de maio afirmando que até a data da carta a campanha
difamatória não havia encontrado resistência em Londres,
que julgava desnecessário desmentir a articulação de um
governo polonês em território russo e que o governo soviético
nunca havia imposto obstáculos à saída de soldados poloneses
da URSS.
O fato é que ao desfraldar a patranha de Katyn, Hitler prestava um
grande serviço a seus colegas imperialistas. Tentava vender a imagem
de que os comunistas eram tão ruins como os nazistas. De fato, após
a aniquilação do nazismo pelo Exército Vermelho, Katyn
vem sendo usada para difamar o socialismo e tentar diminuir a importância
da URSS na guerra.
Não por acaso, em 2009 estreou o filme Katyn, do polonês Andrzej
Wajda, requentando a intriga nazista. Porém, apesar de filmes sobre
a Segunda Guerra terem rendido muita bilheteria para Hollywood, quer enaltecendo
a invasão da Normandia, quer tentando "queimar o filme" da URSS, o papel
destacado do povo dos sovietes liderados pelo Marechal Stalin é indelével.
Seguirá sempre nas mentes e nos corações dos povos como
a lição de bravura e desprendimento de um povo para derrotar
a besta mais reacionária que já surgiu.
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1 Primeiro-ministro britânico.
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