Desde o princípio do gerenciamento de Eduardo Paes na prefeitura
do Rio de Janeiro — marcado pelas truculentas ações do 'choque
de ordem' contra o povo pobre — os guardadores de carro, cadastrados ou não,
têm sido algumas das muitas vítimas das operações
fascistas coordenadas de perto pelo secretário de ordem pública
e declarado inimigo do povo, Rodrigo Bethlem.
Combativo protesto de flanelinhas parou o centro do Rio
Ao mesmo tempo em que são
atacados pela prefeitura, os populares flanelinhas também sofrem com
extorsões diárias de grupos paramilitares, presentes inclusive
em bairros próximos à sede da prefeitura, como a Tijuca, onde
semanalmente o 'choque de ordem' prende muitos desses trabalhadores. Ironicamente,
a partir de agora, por determinação de Cabral e Beltrame, os
flanelinhas detidos estão sendo encarcerados sob a acusação
de extorsão e formação de quadrilha.
Em 2008, mais de dois mil flanelinhas perderam o emprego depois que a prefeitura
deu para a empresa Embrapark a administração de 9.049 vagas de
estacionamento público nos bairros da zona Sul da cidade do Rio de Janeiro.
Desde então, muitos dos trabalhadores que perderam o emprego buscam
se realocar em outras regiões, sofrendo todo o tipo de represália
dos cães de guarda do choque de ordem, que desde 2008, já prendeu
728 guardadores de carros em diferentes localidades.
No total, o Rio tem 5.100 guardadores credenciados na Delegacia Regional do
Trabalho e outros 4 mil que trabalham por conta própria, tendo que pagar
propinas regulares para a polícia.
Por determinação do gerente estadual Sérgio Cabral, em
apoio ao choque de ordem, desde o final de março os flanelinhas presos
são encaminhados diretamente para a Polinter, autuados por extorsão
e formação de quadrilha. Para justificar as prisões, os
jornais do monopólio dos meios de comunicação empenham-se
para criminalizar esses trabalhadores, acusando-os de serem bandidos foragidos
da polícia, sendo que a maioria esmagadora ou trabalhava na zona Sul,
antes de ter seu emprego autoritariamente retirado por Eduardo Paes, ou trabalhava
regularmente, utilizando o colete de identificação, antes de
ser reprimida e achacada por grupos paramilitares que se apoderaram do negócio
com a conivência dos gerenciamentos de turno.
É o caso de Anderson dos Santos, de 26 anos. Morador do morro da Matriz,
no Engenho Novo, ele conta que agora, ao invés de pagar uma mensalidade
ao sindicato ele tem que pagar uma propina diária aos paramilitares
que dominam a região da Tijuca, onde ele trabalha há 10 anos.
— Eu sou guardador de carros há 10 anos em um local da Tijuca
que eu prefiro não revelar. Sempre trabalhei de colete. Para isso
tive que pagar ao sindicato 100 reais, 20 reais do meu colete, mais o talão
todo mês, isso para poder trabalhar tranquilo. Mas um dia parou um
carro no meu ponto, desceram vários homens se identificando como policiais,
armados até de escopeta, dizendo que agora quem mandava ali eram eles,
que para trabalhar, ao invés de 60 por mês, como eu pagava,
teria que pagar 15 reais por dia, sem colete. Eu expliquei que era legalizado,
que pagava o sindicato e eles disseram que quem mandava agora eram eles,
da cooperativa São Miguel, que é uma cooperativa fantasma.
Dizem que pertence à milícia e deve ser verdade, porque todos
os homens que pegam dinheiro comigo são policiais — denuncia
o trabalhador.
Ele conta que, mesmo temendo represálias, foi à delegacia da área
saber dos policiais de que maneira ele poderia reivindicar os seus direitos,
mas descobriu que a quadrilha paramilitar que o extorque até hoje é bem
maior do que ele imaginava.
— Depois disso, fui à 18ª delegacia de policia, na Praça
da Bandeira, com os documentos que eu precisava para provar que tenho licença
para trabalhar e pegar um comprovante para trabalhar sem colete. Quando contei
o que aconteceu, eles disseram que não podiam registrar ocorrência,
pois a ordem superior era de que a área realmente estava sendo administrada
pela "milícia" e não mais pelo sindicato e pelas
cooperativas legalizadas. Como pode isso? Em uma delegacia, os policiais
dizem que é a
milícia que administra o sistema de estacionamento na Tijuca, um dos
maiores bairros do Rio. E o que eu vou fazer? Se quiser levar alguma denúncia
para frente, tenho que ir na defensoria e na corregedoria unificada da polícia,
mas se eu fizer isso, me matam, pois sabem onde eu moro, onde eu trabalho,
tudo a meu respeito — lamenta Anderson.
E não para por aí. Segundo ele, o choque de ordem representa
uma ameaça ainda mais indigesta aos guardadores de carro, principalmente
na região onde trabalha ao lado do estádio Maracanã, onde
em dias de jogo, dezenas de trabalhadores são presos.
— E ainda por cima eu continuo trabalhando, pagando mais caro para
a milícia e ainda correndo dos caras do 6° batalhão porque
estou tendo que ficar sem colete, porque se eles te pegam, você não
vai em cana, mas perde um bom dinheiro. E se o choque de ordem aparecer,
os agentes levam você preso na hora. E fica agarrado na cadeia. Não
sai não, nem com fiança. Como pode? Isso está acontecendo
com dezenas de colegas meus. Vários já foram presos e o que
você vê na televisão é uma mentira das piores que
eu já ouvi. Falam que a gente é bandido, mas a maioria desses
que aparecem no jornal sendo presos, são trabalhadores, pais de família — protesta
o flanelinha.
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