
Protestos contra arrocho e pacote antipovo avolumam-se na Grécia
Desde Paris e Estrasburgo, de Berlim e de Frankfurt, meia dúzia de
banqueiros exigiram, e os intermediários Nicolas Sarkozy e Angela Merkel
repassaram a ordem às gerências títeres de Portugal, Itália,
Irlanda, Grécia e Espanha: corte imediato de 5% nos salários
dos funcionários públicos da periferia da Europa, aos quais os
burgueses vem se referindo como a sujeira da Europa, aproveitando-se da sigla
formada pelas iniciais dos nomes em inglês dos países ora com
a corda do déficit público no pescoço: Piigs, que soa
como "porcos", na língua britânica. Os capachos empoleirados no
topo das burocracias de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha já obedeceram.
Na Itália, Berlusconi está a caminho de fazer o mesmo.

Na Grécia, há cerca de dois meses 80% dos funcionários
públicos ganhavam entre 700 euros e 1.500 euros por mês (os burocratas
do alto escalão recebem até 4 mil euros). A média de salários
entre esses trabalhadores era de 1.200 euros mensais. Com o arrocho exigido
e acatado pela gerência local dita "socialista", essa média vai
cair para 1.140 euros mensais, o que significa que, no geral, os servidores
do "baixo escalão" terão sua renda anual diminuída em
720 euros (o equivalente a cerca de R$ 1.600). Isso sem contar os aumentos
de impostos e a defasagem dos valores absolutos, porque não haverá reajuste
em um horizonte visível.
Os servidores públicos também vão perder 3 mil euros
por ano em pagamentos especiais de feriados, direito sumariamente cortado também
por exigência dos bancos da França e da Alemanha. Uma diretora
de escola de ensino fundamental na Grécia ganhava, antes de o paiol
grego ir pelos ares, cerca de 1.800 euros líquidos mensais. O pacote
de março lhe ceifou 125 euros dos seus ganhos, e as novas medidas lhe
custarão mais 75 euros por mês. Ao todo, em menos de 90 dias,
o Estado grego sob a ordens franco-alemães subtraiu-lhe 200 euros da
renda (o equivalente a cerca de R$ 440).
Progressiva precarização
O salário mínimo na Grécia está em torno de 700
euros, metade do que é estipulado na França, e a gerência
George Papandreou acena com a intenção de reduzi-lo ainda mais.
Os direitos histórica e justamente conquistados com muita luta do povo
grego contra o capital opressor garantiam aos trabalhadores aposentados 14
pagamentos anuais. Agora, quem ganha mais de 600 euros de aposentadoria (cerca
de 40% do total de reformados) receberá a renda apenas 12 vezes por
ano. A idade média para se aposentar na Grécia é de 61
anos, mas o governo pretende empurrá-la para 63. Há informações
de que está sendo preparada uma ofensiva para obrigar os trabalhadores
a permanecer na ativa até os 67 anos.
Comparados com os números dos salários e aposentadorias no Brasil, à primeira
vista a situação dos trabalhadores europeus, mesmo estes mais
precarizados, pode parecer até muito razoável, mas o que está acontecendo
neste momento em países como a Grécia é o gradual nivelamento
por baixo das condições de vida das massas. A exigência
dos bancos e dos monopólios é que seus salários, bem como
seus direitos e garantias, sejam dilapidados até bem próximo
do patamar de miséria e insegurança em todos os níveis
nos quais o imperialismo e suas instituições, como o FMI e o
Banco Mundial, deixaram os povos da América Latina, da Ásia e
da África em parceria com as sucessivas gerências oportunistas
e reacionárias locais.
Banqueiros-carrascos
Em Portugal, o governo que também se arvora "socialista" decretou novas
regras para o cálculo do seguro-desemprego. Um exemplo: um trabalhador
que estava empregado, recebendo 851 euros, e que acabou demitido sem justa
causa, passaria a receber subsídio 676 euros, mas agora terá o
auxílio cortado para 639 euros, e ficará obrigado a aceitar qualquer
trabalho que lhe remunere com 700 euros brutos. Descontados os 11% da Segurança
Social e os 4% do Imposto de Renda, essa renda cai para 600 euros líquidos,
250 euros a menos (o equivalente a cerca de R$ 550) do que ganhava antes de
ser injustamente demitido. Tudo por ordem das classes dominantes, que mandam
no primeiro-ministro José Sócrates e no presidente Cavaco Silva.
Dizem que 5% de corte nos salários é pouco, que os trabalhadores
aguentam, que é o mínimo necessário com o qual as massas
assalariadas podem "contribuir" com os esforços para mitigar a crise.
Falam no imperativo de o povo fazer "sacrifícios", mas o que exigem
de fato é que todas as conquistas do mundo do trabalho sejam levadas às
guilhotinas. Na verdade, os salários nos países em bancarrota
mais avançada já vêm sendo depreciados há tempos,
para muito além dos cortes de 5% há pouco exigidos pelo capital
financeiro. Na Irlanda, os funcionários públicos viram seu salário
diminuir 2% em janeiro de 2009, 6% em março daquele ano, e mais 6% em
janeiro de 2010.
O povo europeu não aceita arcar com os rombos orçamentários
causados pelos repasses das suas riquezas aos bancos em apuros. Bancos estes
que, uma vez salvos pelos chefes das potências e pelos gerentes dos "Piigs",
agora querem cobrar, em vez de pagar caro pelas consequências junto às
massas da crise sem fim. Mas, no fim das contas, do alto de sua ganância
e soberba, os banqueiros, financiadores dos monopólios e inimigos de
morte do povo, ajudam a atiçar a centelha revolucionária entre
aqueles que mais cedo ou mais tarde lhes darão o golpe de misericórdia.
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