O Senado paraguaio aprovou, em 25 de abril, a Lei de Estado de
Exceção,
aplicada por 30 dias nos departamentos (estados) do norte do país sob
o argumento de ampliar os poderes das forças de segurança e combater
a guerrilha do Exército do Povo Paraguaio (EPP). Esta iniciativa permite
ao gerente Fernando Lugo decretar toques de recolher, proibir reuniões
e manifestações públicas, ampliar os poderes das forças
armadas e realizar detenções sem ordem judicial nos departamentos
de San Pedro, Concepción, Amambay, Alto Paraguay e Presidente Hayes,
uma região dominada pelo latifúndio e, portanto, de resistência
do movimento camponês.

EPP: demonizado por Lugo e toda a reação com o fim de atacar as massas
O estado de exceção terminou em 25 de maio sem que o governo
alcançasse o proclamado objetivo de exterminar o EPP. No entanto, números
prévios dão conta da prisão de 167 pessoas neste período.
Determinado a continuar a repressão desenfreada ao povo, Lugo declarou:
— Buscaremos a figura legal para que os militares continuem
apoiando a segurança nestes departamentos de forma permanente.
Vendido pelo oportunismo latino-americano como um dos governantes progressistas,
da safra "socialismo do século XXI", Fernando Lugo completa dois anos
de seu gerenciamento à frente do degenerado e podre Estado paraguaio,
assumindo a tradição das classes (mafiosas) dominantes de manter
o povo, principalmente os camponeses, sob o terror de Estado.
Onde há opressão há resistência
O Movimento Popular Revolucionário Paraguai Pyahürã (MPRPP),
a Federação Nacional Campesina (FNC), a Corrente Sindical Classista
(CSC) e outros movimentos populares do Paraguai anunciaram, através
de um comunicado e de declarações de seus principais dirigentes,
que desacatarão o estado de exceção. Os dirigentes camponeses
e operários defendem que as liberdades públicas são uma
conquista do povo, e não podem ser suprimidas se não existem
razões válidas.
Militantes destas organizações realizaram uma distribuição de
panfletos no centro de Assunção, capital do Paraguai, e entregaram
igualmente um documento no Palácio do Governo. Eladio Flecha, secretário
geral do MPRPP, declarou:
— Não suspenderemos nossas atividades organizativas nem políticas,
e instamos companheiros e companheiras a realizar debates, assembleias nos
assentamentos, comunidades, escolas, colégios e fábricas, a respeito
do estado de exceção.
Defesa das liberdades públicas
As mencionadas organizações fizeram ainda um chamado a todos
os setores democráticos do país, "porque as liberdades públicas,
de organização e de mobilização são uma
conquista do povo, que neste momento e com estas práticas, estão
sendo quebradas". Afirmaram que é uma responsabilidade histórica
manter a luta do povo em defesa do processo de aprofundamento da democracia.
Odilón Espínola, secretário geral da FNC, lembrou a longa
trajetória de luta desta organização pela reforma agrária,
pela democracia e sua histórica postura de defesa das liberdades públicas,
demonstrada ao longo de seus 16 anos de existência como organização.
O velho Estado se revela
O Estado paraguaio continua o mesmo dos tempos do sanguinário Stroessner
que o consolidou como uma republiqueta dominada por latifundiários e
bandidos nacionais e internacionais cevados no tráfico de drogas, de
armas e no contrabando generalizado, servindo no fundamental aos interesses
do imperialismo ianque, mas, também, ao chinês e japonês.

O sonho do povo paraguaio, que lutou durante trinta e cinco anos para ver
o seu país livre da opressão e da exploração não
se concretizou após pôr abaixo o regime militar fascista gerenciado
por Alfredo Stroessner. A burocracia estatal, o judiciário, as forças
de repressão, assim como a composição de seu pseudoparlamento
continuaram as mesmas. O Partido Colorado, agrupação política
que representa todo o reacionarismo dominante naquele país, continuou
a gerenciá-lo até 2008 quando, cavalgando o anseio das massas
por profundas transformações e acenando-lhes com falsas promessas
para encobrir seus acordos com as classes reacionárias paraguaias, Fernando
Lugo assume a gerência do Estado iniciando uma conturbada administração
marcada, até agora, pela manutenção da velha ordem encoberta
por discursos cada vez mais vazios e por seus desvios de conduta no campo pessoal.
Nesses dois anos, Lugo deu continuidade à corrupção,
não cumpriu suas promessas de reforma do poder judiciário, protegeu
os executores de crimes de lesa-humanidade, perseguiu os refugiados políticos
do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR),
etc.
Repressão como resposta
Auxiliado que foi pelos oportunistas da América do Sul como Chávez,
Correa, Kirchner e brasileiros tendo à frente o PT e MST, Lugo, por
seus compromissos com as máfias, não consegue implementar nem
um reles reformismo e por consequência vê-se cobrado cada vez mais
pelos setores que acreditaram em sua bazófia e, agora, exigem a execução
das medidas que possam transformar efetivamente a realidade daquele país.
Maior movimentação neste sentido vem do movimento camponês
e este é, na verdade, o alvo do estado de exceção implantado
em cinco departamentos no fim de abril. Cansados de esperar pela iniciativa
governamental os camponeses passaram a invadir e tomar os latifúndios
para distribuir a terra entre os que nela trabalham. Esta iniciativa dos camponeses
através de suas mais combativas organizações, por outro
lado, assanhou o vespeiro do latifúndio, que além de colocar
na rua, como sempre fez seus capangas e pistoleiros, fez valer o seu peso na
estrutura do podre Estado, logo tendo como resposta o encaminhamento por Lugo
ao pseudocongresso a aprovação do estado de exceção
e o consequente envio de tropas para o campo com autorização
para praticar todo tipo de terror contra as massas camponesas.
Luta armada
Na esteira da insatisfação e rebelião das massas camponesas
surgem ações armadas assumidas pelo Exército do Povo Paraguaio,
organização que se reivindica marxista-leninista-guevarista,
propondo-se a desenvolver a violência revolucionária para a transformação
das estruturas daquele país. Logicamente a reação de dentro
e de fora do país, sem o menor questionamento sobre a justeza ou não
de suas propostas, logo saiu a campo para acusá-lo de ligação
com o narcotráfico e com as Farc. Outros, como o repórter Fábio
Pannunzio, da Bandeirantes, foram mais além, qualificando-os de simples
delinquentes, ancorando-se no fato de que esta organização é acusada
de ter praticado sequestros com a finalidade de angariar recursos para suas
atividades. Esta é também a posição oficial do
Partido Patria Libre, que em comunicados defende que Lugo teria "criado o EPP" para
justificar a repressão às massas.
Este também é o mote para a perseguição de refugiados
políticos, notadamente três paraguaios que vivem no Brasil sob
a proteção da ACNUR. O Jornalista Anuncio Marti, o poeta Juan
Arron e Victor Colman, militantes do Movimiento Patria Libre (agora Partido
Patria Libre). Anuncio e Juan foram acusados de um sequestro em 2001, sendo
eles próprios sequestrados e barbaramente torturados pela polícia
judiciária paraguaia. Localizados pela família de Juan, foram
libertados e partiram para o Brasil, onde conseguiram asilo. Desde então,
as classes dominantes paraguaias tentam obter o fim do asilo e sua expatriação.
Agora, os três são acusados de chefiarem o EPP a partir do Brasil
e estão na lista de procurados pelo governo paraguaio.
Uma curiosidade: Anuncio Marti escreveu em 13 de abril de 2008, para a página
na internet da Fundação Lauro Campos do PSOL, em Brasília,
um longo artigo fazendo um histórico sobre o processo eleitoral do Paraguai
e demonstrando a sua simpatia pela candidatura de Fernando Lugo. Ora,
o EPP foi fundado em 2008, ano em que ocorreu a eleição de Lugo
com o apoio do Partido Patria Libre, sendo o próprio Lugo acusado pelos
colorados de manter relações com as Farc. Agora Lugo, aliado
da oligarquia mafiosa paraguaia, usa o "demônio" das Farc para acusar
Marti e seus companheiros refugiados no Brasil, daí o pedido de extradição
movido pela gerência paraguaia.
São as massas que fazem a história
O Exército do Povo Paraguaio — EPP surge em 1º de março
de 2008 e tem entre seus membros egressos do Partido Patria Libre. Segundo
seus comunicados se define como marxista-leninista-guevarista e reivindica
a autoria de algumas ações armadas nos últimos dois anos.
Apenas 15 dias após sua fundação o EPP queimou o maquinário
agrícola de um latifúndio pertencente ao brasileiro Nabort Boht,
no distrito de Santa Hermínia, departamento (estado) de Concepción.
O latifúndio tem 20 mil hectares e vinha sendo denunciado pelos camponeses
pela fumigação de agrotóxicos que estariam contaminando
as pessoas.
Em 31 de dezembro de 2008 o EPP atacou o quartel militar de Tacuatí,
expropriando armas e incendiando as instalações. Em 29 de abril,
uma bomba foi encontrada no Palácio de Justiça em Assunção.
Os militares explodiram a bomba no pátio do prédio. O EPP também
reivindica esta ação.
Há também casos de sequestros que teriam sido praticados pelo
EPP, principalmente de latifundiários, cujo resgate teria sido pago
com alimentos para os camponeses e bairros pobres das cidades. Em 21 de abril
num tiroteio em Horqueta (Concepción), membros do EPP teriam justiçado
três pistoleiros e um policial.
Uma de suas consignas é "Por um socialismo revolucionário juramos
vencer". Os comunicados do EPP geralmente são emitidos por seus membros
presos, como Carmem Villalba, sua porta-voz.
Ainda pairam muitas dúvidas sobre a linha política, de massas
e as ações do EPP, mas toda a situação faz crer
que, ao reivindicar um certo guevarismo, tende a se repetir as já velhas
tendências tão conhecidas na América Latina, do militarismo,
do reformismo e revisionismo armados.
Demonizando o EPP, Lugo não só se soma ao coro da reação
dentro e fora do país, como maneja o velho ardil para atacar as massas
camponesas e a todos revolucionários consequentes. Como em todo mundo,
as massas populares necessitam de direção proletária para
elevar sua luta de libertação. No Paraguai, elas necessitam varrer
tanto a reação como sua linha auxiliar, o oportunismo e o revisionismo.
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