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| Agentes do velho Estado matam o filho e destroem a casa da atriz Kátia D'Angelo |
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| Patrick Granja | |||
Depois de ter seu filho Ronny assassinado por PMs em 1997, a atriz Kátia D'Angelo — conhecida por notórias participações no cinema e na TV, como no filme O Caso Cláudia, em 1979, e na novela Pantanal, em 1990 — mais uma vez foi vítima do velho Estado. No dia 1° de junho do ano passado, equipes do 'choque de ordem' destruíram sua casa e a de outras famílias de uma modesta vila na Barra da Tijuca, zona Oeste do Rio de Janeiro, onde Kátia vivia há 47 anos. O episódio fez com que a atriz embarcasse em uma incansável luta por justiça e denúncia dos inumeráveis crimes do 'choque de ordem' de Eduardo Paes.
Três vezes vitimadaAnos antes da morte de seu filho, em 1991, a escola de teatro que Kátia coordenava — Grupo de Teatro Proscênio — foi fechada arbitrariamente por ordem dos moradores de um condomínio na Barra. Já em 2007, ela chegou a ser presa por 30 horas na 16ª DP (Barra da Tijuca) em uma cela solitária, fria, úmida e sem cama, por conta de um erro no computador da Vara de Execuções Penais. Até hoje, a atriz espera ser indenizada pelas duas arbitrariedades e pelo assassinato de seu filho. Como se não fosse o bastante, no dia 1° de junho de 2009, às 6:30h, Kátia e seus vizinhos foram acordados pelo barulho de carros, tratores e dezenas de operários, enviados pelo prefeito Eduardo Paes para destruir as cinco casas do condomínio Vivendas da Barra. — Eu e meu pai mudamos para aquela casa em 1963, quando a Barra não tinha um único prédio. Foi lá que tive meus filhos e onde vivi tranquila por todos esses anos. Eu perdi com essa demolição, no mínimo, 80% de tudo que eu construí ao longo da minha vida. Aquela era sim uma área de proteção ambiental, mas a região foi decretada APA, em 1991 e nós estávamos lá desde 1963. Eu trabalhei a minha vida inteira como atriz e professora de teatro e agora não tenho mais nada, moro na casa de amigos e parentes. Eles simplesmente pegaram tudo e destruíram com um golpe só. Não deixaram nem nós tirarmos as nossas coisas. Todo mundo sabe que eu já perdi um filho assassinado e agora perdi a minha casa — lamenta a atriz. Décadas de trabalho no lixoMuito abalada, Kátia relatou os momentos de pânico que marcaram a operação antipovo do 'choque de ordem'. — Eram 120 homens e dois tratores. Eu ouvi um barulho pela manhã e fui à janela ver o que estava acontecendo. Quando vi, o Rodrigo Bethlem, o delegado da 16ª DP e um funcionário da prefeitura chamado Alexandre estavam arrombando a porta do primeiro andar da minha casa, que nós alugávamos para uma moça chamada Adriana. O próprio Rodrigo Bethlem arrombou a porta e invadiu a casa. A Adriana tomou um susto e pulou da cama perguntando 'Quem está aí?'. Eles responderam 'É o choque de ordem. Você tem uma hora para tirar tudo. Pegue suas roupas e seus documentos e saia, pois a casa do lado já está sendo demolida' — denuncia a atriz.
Kátia D'Angelo também questionou os critérios da prefeitura para a delimitação das APAs (Áreas de Proteção Ambiental) e se defendeu das acusações de que o condomínio Vivendas poluía o canal da Barra. — A maioria dos condomínios da Barra está em terrenos invadidos e ninguém mexe com eles. Tínhamos fossa e sumidouro, poluíamos o canal muito menos que os condomínios de luxo que nos rodeavam. Quando chegamos, a Barra era um enorme matagal. Os novos condomínios deram as costas para o canal, instalaram em suas margens casas de empregados, quadras, churrasqueiras, lixeiras, tratando-o como os fundos do terreno, o fim da rua, um local desprezível. Mas ninguém vai mexer com eles porque eles são ricos. O poder só mostra as suas garras para os pobres — acusa Kátia. "Aonde eu vou morar?"Uma das vizinhas da atriz, a cabeleireira Rosilene Barcellos Santos, contou que, além de destruírem a sua casa, os homens da prefeitura invadiram o imóvel intimidando a sua família e roubando alimentos. — Eles chegaram 6:30h. Meu filho veio até mim e disse 'mamãe, nossa casa vai ser demolida. O Rodrigo Bethlem está aí'. Mandaram a gente sair da casa, mesmo chovendo muito. As crianças ficaram aterrorizadas quando ouviram da boca do secretário que a casa delas ia ser demolida. Os funcionários da prefeitura entraram na minha casa, invadiram a minha cozinha e começaram a comer o café da manhã que eu tinha preparado para os meus filhos. Não pediram nada. Entraram dizendo que estavam com fome e comeram tudo, mesmo vendo meu filho desesperado, chorando agarrado à minha perna. Aonde eu vou morar? — pergunta Rosilene. — Não basta ter perdido meu filho Ronny, assassinado por policiais militares, ter a minha escola fechada arbitrariamente, ter dormido uma noite na cadeia por erro da VEP, agora sou uma sem-teto. Sem a dignidade que deve o Estado a qualquer cidadão. Que Estado é esse que nos vê como inimigos? A demolição de nossas casas foi como a demolição de nossas vidas — lamenta Kátia D'Angelo. Depois do ataque ao condomínio Vivendas da Barra, as operações do 'choque de ordem' na zona Oeste do Rio continuaram reduzindo a pó dezenas de moradias, principalmente nos bairros da Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes, regiões consideradas 'nobres' de onde o povo pobre está sendo enxotado pelas políticas antipovo ditadas pelo gerenciamento Eduardo Paes e seu novo secretário de ordem pública Alex Costa.
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V. I. Lenine |
| Nº 89, maio de 2012 |
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