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No dia 26 de outubro, moradores de mais de 20 favelas do Rio de Janeiro
se reuniram na entrada da Favela do Metrô, zona Norte da cidade, para
uma passeata em direção à sede da prefeitura. Com o
apoio de várias organizações que lutam pelos direitos
do povo, os manifestantes carregaram faixas e cartazes de protesto contra
a política fascista levada a cabo pelo prefeito Eduardo Paes, de remoção
de favelas inteiras e expulsão de suas populações para
as mais remotas regiões da cidade. Durante a passeata, policiais descaracterizados
atacaram o militante da Rede de Movimentos e Comunidades Contra a Violência,
Maurício Campos, que foi preso e solto em seguida, graças à pressão
dos manifestantes.

Manifestantes foram intimidados por policiais que estavam no
Caveirão da PM
Eram 10h da manhã quando dezenas de moradores de várias favelas
do Rio de Janeiro preparavam-se para partir em direção à prefeitura
em uma grande manifestação contra os planos do prefeito Eduardo
Paes de expulsão em massa das favelas que ocupam as regiões nobres
da cidade para áreas remotas, algumas há 80 quilômetros
de onde esses trabalhadores vivem atualmente. Nas faixas e cartazes, estampava-se
a indignação dos manifestantes: “Os moradores só saem
mortos. Eduardo Paes assassino”, “Espírito Olímpico
para alguns e terror para as comunidades” e “Eduardo Paes: democrático
com os ricos e ditador com os pobres”.
Durante o ato, o militante da Rede de Comunidades e Movimentos contra
a Violência, Maurício Campos, foi arbitrariamente preso por policiais
descaracterizados. Momentos depois, pressionados pela massa, que cercou a viatura
da PM para impedir a prisão, os policiais soltaram Maurício e
a manifestação seguiu com mais força ainda.
— Eu estava fotografando um carro descaracterizado cheio de homens
mal-encarados que observavam a manifestação. Eles pararam o carro
do meu lado e disseram ‘me dá seu documento’. Eu perguntei
quem eram eles para me pedirem documento. Eles disseram ser policiais e eu
pedi para que eles primeiro me provassem que eram policiais, mostrando os seus
documentos, e depois eu apresentaria o meu. Eles não estavam em viatura
e não estavam uniformizados, porque eu ia ter que mostrar meu documento?
Para quem? Depois eles já saíram da viatura me agarrando e dizendo
que iam me levar preso de qualquer jeito — relatou Maurício
Campos à equipe de reportagem de AND.
Alguns metros à frente, um caveirão encontrava-se estacionado
no meio da rua. Quando o protesto passou ao lado do famigerado veículo
blindado da PM do Rio, policiais colocaram seus fuzis para fora provocando
os manifestantes.

Policais disfarçados tentam
prender militante
da Rede de Movimento e Comunidades
— Contra o povo das favelas, eles agem com truculência sempre.
Ainda mais em uma passeata. Eles não devem admitir que os moradores
de favelas, que para eles é um povo de bandidos, venham organizados
para a rua se manifestar — conclui Maurício.
Quando o ato chegou às portas da prefeitura, Eduardo Paes enviou um
de seus cães de guarda para convidar uma comissão de representantes
das favelas presentes para uma reunião, mas os manifestantes se recusaram
a conversar a portas fechadas com o executor do maior plano de remoção
de favelas que a cidade do Rio de Janeiro já conheceu.
— Nós não estamos dispostos a montar nenhuma comissão
para subir e conversar com a prefeitura, porque todas as propostas que fizemos
até hoje para qualquer órgão governamental não
foram ouvidas. Tudo indica que a questão é a limpeza social da
cidade. Mandar o povo pobre para longe e fazer da área principal da
cidade um cartão de visitas para os estrangeiros. O povo deveria ter
direito de montar a sua casa, do jeito que quiser ,e viver com dignidade, mas
a única coisa que temos é esse salário de miséria.
Por isso nós moramos em condições precárias. O
que ganhamos mal dá para sustentar a nossa alimentação.
Não queremos mais essa enganação — disse ao
microfone a moradora da Vila Autódromo, Jane Nascimento, de 54 anos,
que em seguida acompanhou atentamente a fala de seus companheiros de outras
favelas ameaçadas.
 — Temos que aproveitar o espaço aqui para demonstrar toda
a nossa indignação e mostrar para o prefeito que se ele continuar
nos enrolando, nós vamos começar a tomar atitudes radicais. Aqui
são pais e mães de família, são pessoas que têm
que ser respeitadas, mas não estão sendo. Infelizmente, nós
que moramos em comunidades, somos discriminados. É assim que nós
somos tratados pelos governantes, pela Rede Globo e a grande mídia.
E aí companheiros, se a gente não aumentar a mobilização,
se a gente não vier em peso aqui pra porta da prefeitura o tempo todo,
como fizemos hoje, a prefeitura vai continuar nos desprezando. Essa discussão
de moradia, para o Estado, é a mesma discussão da segurança
pública, onde a vida não é levada em consideração,
onde os trabalhadores são desrespeitados o tempo todo — desabafou
o morador da favela Céu Azul, Rodrigo Reis, de 44 anos. Há três
gerações sua família ocupa o local, na zona Norte da cidade.
— É um absurdo a gente construir a nossa casa durante anos,
com muita dificuldade e muito suor e a prefeitura chegar e tirar a casa da
gente, oferecendo vaga no projeto Minha Casa, Minha Vida. Porque nós
temos que sair das nossas casas, que a gente levantou, e ir para esses apartamentos,
tendo que pagar por eles. Ou senão você ganha 200 reais por mês
do aluguel social e aluga outro barraco em uma favela qualquer. Sem contar
que muitas pessoas aceitaram, se mudaram e agora vão para a rua porque
a prefeitura está suspendendo o aluguel social. Não adianta negociar.
Dia 14 de outubro nós tínhamos uma reunião com o subprefeito
da Barra e ele teve a capacidade de não comparecer. A prefeitura está nos
tratando como animais — disse a moradora do Parque Colúmbia,
na Pavuna, Claudete Porto, de 65 anos, há 29 no local.
— O Estado já se viu forçado a recuar em vários
pontos. Desde os jogos Pan-Americanos que a prefeitura planejava expulsar um
monte de comunidade. Mas a resistência lá de Jacarepaguá conseguiu
garantir que algumas comunidades ficassem. A prefeitura não conseguiu
expulsar o Canal de Anil, não conseguiu expulsar a Vila Autódromo
e várias outras. Depois de abril desse ano eles pensaram: ‘vamos
aproveitar essa questão das chuvas e remover várias comunidades’,
mas não conseguiram. Até as comunidades que foram pegas de surpresa,
como a Estradinha, ainda têm um grupo resistindo e a prefeitura não
conseguiu continuar com as expulsões — disse Maurício
Campos.
— Nossa luta está incomodando eles. Isso porque eles estão
tentando nos dividir de todas as maneiras, mas o ato de hoje prova que eles
também não estão conseguindo isso. Têm comunidades
aqui de todos os pontos do Rio de Janeiro, comunidades que nunca lutaram juntas
e hoje apoiam umas as outras. Nós passamos por um tempo de ilusões,
onde muitos foram induzidos a acreditar em promessas de políticos, mas
todos os políticos eleitos pelas comunidades, hoje trabalham ajudando
a prefeitura a removê-las. Agora nós acordamos com força
e o importante é manter a resistência e não retroceder — concluiu
Maurício Campos.
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