O Stalin que se tenta esconder
Todos os anos uma avalanche de calúnias é despejada contra
os chefes do proletariado internacional, principalmente contra Stalin e Mao
Tsetung. Esta tarefa foi muitíssimo facilitada pela restauração
do capitalismo, após suas mortes, na URSS e na China, uma vez que
os regimes ali instalados contribuíram, principalmente o da URSS social-imperialista,
na divulgação de falsas acusações e ataques à ditadura
do proletariado.
Stalin em encontro com trabalhadores rurais
Stalin é frequentemente acusado de ter governado sozinho, como um
tirano, sem dar espaço para o debate, e que suas vontades eram sempre
a lei. Porém, inúmeros documentos, notadamente as atas das
reuniões do comitê central do Partido Comunista (bolchevique)
da União Soviética indicam o contrário, que Stalin se
submetia às decisões que nem sempre eram propostas por ele.
Há ainda trabalhos que revelam a luta de Stalin pela reforma democrática
na URSS na década de 30 e como foi derrotado pela resistência
ativa de vários elementos dentro do próprio partido e do Estado*.
O
texto abaixo demonstra claramente que não havia total unidade na
direção do partido e que Stalin é impedido de se afastar
da direção do partido e do Estado soviético, como já havia
tentado antes e tentaria também depois, numa clara demonstração
de compromisso com a classe operária e o socialismo e de que não
tinha nenhuma espécie de apego pessoal ao poder, como caluniam seus
detratores.
Discurso de Stalin no Pleno do Comitê Central do PCUS de 16
de outubro de 1952*
Celebramos o Congresso do Partido. Os trabalhos do Congresso
foram levados a cabo bem e pode parecer a muitos que exista entre
nós
uma total unidade. Sem embargo, esta unidade não existe1.
Alguns expressam desacordo com nossas decisões.
Se perguntam por que ampliamos
substancialmente a composição
do Comitê Central. É porque não está claro que
era preciso introduzir novas forças no Comitê Central? Nós
já estamos velhos, todos morreremos. E então não deveríamos
acaso pensar a quem deveríamos entregar o testemunho de nossa grande
causa? Quem a continuará? Para isto precisa-se de pessoas, representantes
políticos mais jovens, fieis. E o que significa fazer crescer um representante
político, um estadista? Para isso é necessário um grande
esforço. São necessários dez ou quinze anos para preparar
um homem de Estado...
Mas, não basta apenas desejá-lo. É possível preparar
homens políticos ideologicamente forjados na atividade prática,
no trabalho cotidiano para aplicar a linha geral do Partido, para vencer
a oposição de cada tipo de elementos oportunistas hostis, que
tendem a frear e minar a obra de construção do Socialismo.
Os representantes políticos de experiência leninista, educados
por nosso Partido, deverão derrotar na luta esses intentos hostis
e conseguir o êxito pleno para alcançar nossos grandes objetivos. 
Não fica claro que é necessário elevar o papel do Partido,
dos comitês do Partido? Como se pode descuidar do melhoramento do trabalho
do Partido entre as massas, como nos ensinou Lenin? Tudo isso requer uma
afluência de forças jovens e frescas no Comitê Central,
que é o quartel-general dirigente de nosso Partido. E desta forma
o temos feito, seguindo as indicações de Lenin. É por
isso que ampliamos a composição do Comitê Central. E
também, por sua vez, o Partido cresceu.
Nos perguntam por que liberamos
ilustres representantes do Partido e do Estado de importantes cargos ministeriais.
Que podemos dizer quanto a isso? Liberamos Molotov, Kaganovich, Voroshilov
e outros de seus cargos ministeriais e os substituímos por novos funcionários. Por
quê? Sobre que base? O trabalho de ministro é um trabalho duro.
Requer grande energia, conhecimentos concretos e saúde. Por isso é que
liberamos alguns camaradas com méritos dos cargos que ocupavam e nomeamos
em seu lugar funcionários novos, mais qualificados e decididos. São
pessoas jovens, cheias de força e energia. Temos que apoiá-los
em seu laborioso trabalho.
No que diz respeito a esses ilustres
representantes políticos e estadistas,
seguirão como tais, ilustres representantes políticos e estadistas.
Nomeamos-lhes vice-presidentes do Conselho de Ministros. Nem mesmo eu sei
quantos são meus vices.
Não podemos deixar de considerar o comportamento errático de
alguns ilustres representantes políticos, se falamos da unidade de
nossas ações. Refiro-me aos camaradas Molotov e Mikoyan.
O mujique é nosso devedor. Estamos unidos aos camponeses por uma forte aliança. Concedemos a terra aos Kolkhozes para a eternidade. Eles devem dar ao Estado o devido. Portanto, não se pode estar de acordo com o camarada Mikoyan.Passemos agora ao camarada Mikoyan. Chegou a indeferir o aumento do imposto aos camponeses. Quem é nosso Anastas Mikoyan? O que não está claro para ele? O camarada Molotov tem em tão alta consideração sua companheira, que basta que tomemos uma decisão no Birô Político sobre qualquer problema político e a coisa será conhecida rapidamente pela camarada Zemcuzina. Parece que há um fio invisível que conecta o Birô Político à consorte de Molotov, Zemcuzina e seus amigos. E ela está rodeada de amigos dos quais não nos podemos fiar2. é evidente que este comportamento de um membro do Birô Político é inadmissível.Ademais, o que significa esta proposta do camarada Molotov de oferecer a Crimeia aos judeus? Isto é um grave erro do camarada Molotov. Por que o fez? Como pôde fazê-lo? Baseado em que o camarada Molotov formulou tal proposta? Já temos a república autônoma dos judeus. Isso não é suficiente? Que essa república se desenvolva. O camarada Molotov não pode servir de defensor das pretensões dos judeus sobre nossa Crimeia soviética. O camarada Molotov se comporta de maneira incorreta como membro do Birô Político e nós rechaçamos categoricamente suas propostas extravagantes.Molotov é um camarada fiel a nossa causa. Se for chamado, estou seguro de que sem o menor titubeio sacrificaria sua vida pelo Partido. Mas não se pode ignorar algumas de suas ações pouco meritórias. O camarada Molotov, nosso ministro do exterior, em uma recepção diplomática, “traído por algum copo a mais”, deu ao embaixador inglês a autorização para a publicação em nosso país de jornais revistas burgueses. Por que? Baseado em que considerou permitir isso? Se déssemos esse passo, eles exercitariam uma influência daninha, negativa, nas mentes e na visão de mundo dos cidadãos soviéticos, levaria ao debilitamento de nossa ideologia comunista e ao fortalecimento da ideologia burguesa. Este é o primeiro erro político do camarada Molotov.
[Mikoyan sobe à tribuna e se justifica fazendo referência
a certas contas econômicas.]
Stalin (interrompendo Mikoyan): Mikoyan é um Frumkin3 principiante.
Observem: se confunde a si mesmo e quer nos confundir também sobre
estas claras questões de princípio.
[Molotov sobe à tribuna, admite seus erros, se justifica e assegura
que foi e será um fiel discípulo de Stalin.]
Stalin (interrompendo Molotov): Besteiras! Eu não tenho discípulos.
Todos nós somos discípulos do grande Lenin.
[Stalin propõe resolver as questões organizativas, eleger
os órgãos dirigentes do Partido. A cargo do Birô Político
está a eleição do Presidium do Partido, substancialmente
ampliado, assim como o secretariado do CC do PCUS, composto por 36 pessoas.
Na lista, disse Stalin, estão todos os membros do antigo Birô Político,
com exceção de Andreiev. Quanto ao respeitável Andreiev,
tudo está claro, se tornou absolutamente surdo, não escuta nada,
não pode trabalhar assim, tem que se curar.]
[Voz desde a sala: É preciso eleger o camarada Stalin como Secretário
Geral do CC do PCUS.]
Stalin: Não! Me liberem dos cargos de Secretário Geral do CC
do PCUS e Presidente do Conselho de Ministros da URSS.
G. N. Malenkov
(da tribuna): Camaradas! Temos todos que pedir ao camarada Stalin, nosso
guia e mestre, unanimemente e em uníssono,
que seja todavia Secretário Geral do CC do PCUS!
Stalin (da tribuna):
Ao Pleno do CC não fazem falta os aplausos. É preciso
resolver os problemas sem emoções, de maneira prática.
E eu peço para ser liberado dos cargos de Secretário
Geral do CC do PCUS e Presidente do Conselho de Ministros da URSS. Já estou
velho. Não posso ler os documentos. Elejam outro Secretário.
S.
K. Timoshenko: Camarada Stalin! O povo não entenderá. Todos
nós, como se fôssemos um só homem, o elegemos nosso dirigente,
Secretário do CC do PCUS. Não existe outra solução.
[Todos se põem de pé e aplaudem calorosamente, apoiando Timoshenko.
Stalin fica um pouco de pé, olhando a sala, depois faz um gesto de contrariedade
com a mão e se senta.]
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NOTAS
Da redação de "Sovietskaia
Rossia"
*O discurso foi reportado no informe taquigráfico da sessão
por L. N. Efremov e foi publicado por "Sovietskaia Rossia", em
13 de janeiro de 2000, e traduzido para o italiano por Stefano Trocini. Da
ata se pode compreender que os acontecimentos relativos ao XX Congresso do
PCUS estavam já amadurecendo antes da morte de Stalin e que a direita
no Partido estava trabalhando para a viragem de 1956.
1 – Por exemplo, o texto Stalin e a loita pola reforma democrática,
de Grover Furr, disponível em http://stalinreforma.blogspot.com/ (em
galego).
2 – A afirmação de Stalin sobre a falta de total unidade
na direção do Partido alcança evidente confirmação
depois de sua morte. O grupo que toma a dianteira, ignorando as normas da
democracia do Partido e soviética, restringe drasticamente a composição
dos organismos dirigentes e faz de tudo para livrar-se das forças
juvenis e altamente qualificadas promovidas no XIX Congresso
do PCUS.
3 – Frumkin M. I., mencionado por Stalin, se inscreveu no Partido em
1898 e depois da Revolução de Outubro foi vice-comissário
do povo para produtos alimentícios, presidente do comitê revolucionário
da Sibéria, comissário do povo para o comércio exterior
e comissário do povo para as finanças. Foi expoente ativo da
oposição de direita.
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