Há 37 anos fazendo teatro de rua pelo sertão, capitais,
periferias e zonas rurais do Nordeste do Brasil, Júnio Santos atua
no coletivo Cervantes, que troca experiências com outros grupos,
promove oficinas e cursos em lugares onde o teatro não tinha chegado,
incluindo áreas camponesas. Entre os textos encenados estão
alguns didáticos, poesias ligadas aos folguedos e cordéis
produzidos pelos próprios alunos.

Cena da peça Cabeça de Papelão
— Nasci em uma família de oito filhos, todos artistas da música,
sendo o único a enveredar pela área do teatro. E essa militância
foi me descobrindo para a vida, me facilitando a ter acesso às informações
que possuo hoje. Posso dizer que é difícil, mas prazeroso,
fazer e viver de teatro popular em uma região tão complicada
de se conseguir isso. Se já é difícil nas grandes
capitais do Sudeste e do Sul, quanto mais aqui – fala Júnio.
— Não há apoio para aqueles que estão levando o
que sabem para o povo. Dizendo que teatro não é prioridade
de ninguém, e sim uma forma que todos os seres humanos têm de
se expressar através da arte. E o teatro é completo, abrangendo
a música, dança, literatura, artesanato, artes plásticas,
e mais. Trocamos tudo isso com a comunidade – continua.
Entre muitos trabalhos de oficinas e participações em diversos
grupos de teatro de rua no Nordeste e outras regiões do país,
Júnio atua no momento no coletivo Cervantes do Brasil. 
— O Cervantes não tem um número de pessoas definido, porque é aberto
para trabalhar com outras trupes. Participamos da Rede brasileira de teatro
de rua, e esse contato tem nos proporcionado atuar em diversos festivais
em São Paulo, Paraíba, aqui no Rio Grande do Norte, e outros
locais – conta.
— Quando conseguimos captar algum recurso, normalmente em editais, juntamos
com grupos menores, que ainda não conseguem fazer um projeto. Temos
tido sorte de alcançar esses recursos, ajudados também por nossa
experiência, mas isso não é fácil – expõe.
— Trabalhamos com muitos grupos, em assentamentos por exemplo, com
pessoas que aprenderam a ler agora, exatamente através do teatro. Além
disso, as escolas não costumam ensinar a fazer projetos. Alguns saem
até mesmo da universidade sem saber. Mas tenho orgulho de dizer que
hoje somos uma grande fábrica de cordéis, que nos trazem recursos
quando vendidos, e também são encenados – fala com
alegria.
Além dos cordéis produzidos pelos alunos, Júnio diz
que normalmente encena textos seus e outros que surgem dos trabalhos de oficinas
de dramaturgia e cursos.
— Normalmente procuramos falar sobre a comunidade e o que ela gostaria
de dizer para o mundo. Alguns são didáticos, voltados para situações
atuais, como prostituição infantil, tráfico de pessoas
e doenças que estão chegando ao local. Por exemplo, A
venda do mosquito, sobre uma prefeitura que acabou com o mosquito
da dengue e por conta disso parou de receber recursos. Então importa
novos mosquitos para si e para vender às outras – conta.
— Temos tido uma grande parceria com a comunidade, e isso nos fortalece.
Mas este ato provocou reações das mais distintas. Até cadeia
já tivemos, por motivos banais, fúteis, simplesmente pelo fato
dos poderosos não conseguirem absorver as críticas ditas pelo
povo. O espetáculo se transforma em uma obra de arte questionadora,
provocadora, buscando de todo jeito uma transformação – continua.
Praças proibidas
— Tenho sempre atuado ao ar livre, nas praças, mas, infelizmente
nos últimos oito anos elas têm deixado de ser do povo. Estão
sendo sucateadas, privatizadas, ficando disponíveis somente para ações
diretas do poder público. Isso nos lembra até a época
do regime militar, quando não se podia reunir um grupo em uma praça
que já era quadrilha. Hoje, qualquer grupo de teatro já é chamado
de quadrilha pelos poderosos – denuncia Júnio.
— Temos visto vários artistas sendo perseguidos. No último
dia 23 de outubro, no Rio Grande do Sul, um grupo de teatro foi posto para
fora da praça pela polícia, porque estava apresentando Brecht
para o povo. E como é um autor atual que faz pensar, refletir, eles
perseguem – acrescenta.
Júnio diz que essa proibição não está afetando
somente o pessoal de teatro, mas todo artista de rua, que usa as praças
como palco.
— Aquele companheiro que vai, por exemplo, cantar um coco, tocar uma sanfona,
fazer uma mágica nas praças, está sofrendo bastante. Isso é arte,
mas também é o seu trabalho. Ele está garantindo o seu
almoço, levando sustento para sua família. Mas é afrontado
pela guarda municipal e proibido de trabalhar – declara.
— Porém, na época das eleições os poderosos
empurram seus carros de som, com alturas acima do permitido por lei, e perturbam
a nossa paz com os panfletos. Isso não tem problema algum, porque agem
como se fossem os donos da rua, das praças, da comunicação.
E nos perseguem, proibindo de mantermos um elo com o povo. Muitos dos nossos
companheiros já foram presos por conta disso – acrescenta.
— No último 23 de agosto, dia nacional do artista de rua, muita
gente foi para as ruas dizer que as praças não são mais
do povo. As pessoas não sabem, mas temos que pagar taxas altíssimas
para usá-las. Em São Paulo chega a R$ 147, se não usar
discos de energia. É como se fossem pautas para o teatro. Em Belo Horizonte,
MG, recentemente o governo fechou uma praça com tapumes e cobrou dinheiro
para alguém se apresentar lá dentro – continua.
Mas Júnio não se intimida e circula com arte por várias
cidades. Segundo conta, Macau, RN, é a trigésima que reside.
— No litoral do estado, ela é muito rica na exploração
do petróleo, turismo e pesca. Ao mesmo tempo, muito pobre para o povo.
Basta dizer que acesso por telefone é coisa complicada. No momento
só dá sinal embaixo de uma árvore aqui perto. O pessoal
atende em casa e corre para debaixo da árvore. Imagina que situação – finaliza.
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