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| A Militarização do Complexo do Alemão: Velho Estado impõe regime de exceção nas favelas do Rio de Janeiro |
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| Patrick Granja | |||
Entre os dias 30 de novembro e 4 de dezembro, AND esteve no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro na companhia de representantes do Conselho Popular e da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência para registrar uma série de denúncias de abusos cometidos pelas tropas do Estado. Segundo moradores das favelas, policiais civis e militares estariam arrombando casas; roubando pertences dos proprietários: eletrodomésticos, quantias em dinheiro e até roupas; depredando e revirando barracos; agredindo e humilhando trabalhadores e, ainda, ocultando corpos na pedreira entre a Vila Cruzeiro e o Complexo do Alemão, no alto da Serra da Misericórdia.
O Complexo do Alemão é composto por 13 favelas instaladas nas encostas e vales da Serra da Misericórdia e tem esse nome porque na década de 1920 era uma fazenda que pertencia ao polonês Leonard Kaczmarkiewicz, chamado pela população local de "Alemão". Durante décadas, esse homem loteou suas terras, que passaram a ser ocupadas por operários e famílias nordestinas recém-chegadas ao Rio de Janeiro. O Complexo abrange tradicionais bairros da cidade, como Penha, Olaria, Bonsucesso, Ramos e Inhaúma, e está situado ao lado da Avenida Brasil, uma das mais movimentadas vias da cidade. Ocupados desde o dia 29 de novembro pelas polícias civil, militar e pelas forças armadas, o Complexo do Alemão e a Vila Cruzeiro, têm os mais baixos índices de desenvolvimento social do estado. [ver box]. AND esteve durante cinco dias por lá para registrar a ocupação das favelas pelas forças militares. O que registramos nesse período foi, primeiro, a insatisfação dos moradores com a militarização, ao contrário do que o monopólio dos meios de comunicação insiste em noticiar. Em segundo lugar, era notável o receio dos que foram vítimas de sofrerem represálias das forças de repressão. Embora seja verdade que uma parte da população seja simpática à presença da polícia, isso se deve à particular perversidade do tráfico no conjunto de favelas do Alemão, e não uma aprovação dos métodos das forças de repressão. O que está sendo aplicado nessa localidade é o estado de exceção, com a suspensão de todos os direitos civis, de ir e vir, da inviolabilidade do lar, de expressão e outras "liberdades" tão incensadas pelos teóricos como prerrogativas de um tal Estado democrático de direito para todos, mas que só as classes dominantes tem o direito de exercer. O que o monopólio não mostraNo primeiro dia de nossa cobertura, fomos à favela da Matinha, no coração do Complexo do Alemão. Lá, visitamos uma moradora que não quis se identificar. Segundo ela, policiais militares teriam tentado arrombar a porta de seu barraco e, como não conseguiram, fizeram um buraco na parede. Dentro da casa, muita bagunça. Gavetas e roupas misturadas no chão, eletrodomésticos destruídos e o entulho da parede quebrada espalhado por todos os lados. Inconformada, a dona do barraco fez um desabafo. — Olha a minha casa toda destruída. O meu ventilador que eu acabei de comprar, espatifado no chão. A gente passa um sufoco para comprar as coisas, dar coisas boas para os nossos filhos e, em um segundo, perdemos tudo dessa maneira. Eles não podem fazer isso. E a gente fica com medo de ir lá embaixo, no ônibus da ouvidoria [que fica estacionado no início da Rua Joaquim Queiroz, principal entrada do Complexo do Alemão], pois eles podem voltar aqui — diz a moradora.
Circulando pelas favelas, víamos diversas casas com bilhetes colados na entrada pedindo aos policiais para não arrombarem a porta. Um deles com os dizeres: "Nossa casa já foi revistada dia 28/11/2010. Estamos trabalhando e só estaremos de volta às 18h. Não arrombem nossa porta novamente!". Saques e prisões arbitráriasNo dia seguinte, muitos moradores, cansados de serem atacados pelas tropas do Estado, encorajaram-se e formaram longas filas nos ônibus da defensoria pública e das ouvidorias para denunciar inúmeros crimes cometidos por policiais civis e militares. — Isso é um absurdo. Eles estão pegando morador, que está com documento, carteira de trabalho, o que prova que são trabalhadores, e estão prendendo — protesta uma moradora, que aguardava na fila. Enquanto isso, um homem que havia sido agredido nas costas com uma coronhada, conversava com ouvidores. Sua esposa, desesperada, dizia que o marido foi atacado por policiais do Bope diante dos filhos. — Essas pessoas [policiais] estão entrando nas casas, arrombando portas, levando tudo que tem de valor. Na TV só mostra que estão apreendendo armas e drogas. E o dinheiro, e os pertences de quem foi roubado? Isso eles não mostram. Quem assiste lá de fora acha que aqui só tem coisa ruim, gente ruim, armas, drogas. Eles não mostram que o governador Sérgio Cabral está dando autorização para os seus policiais roubarem, espancarem e matarem aqui dentro. Eles agora estão prendendo até primo de terceiro grau de traficante. E para isso, os policiais colocam droga na casa da pessoa para incriminá-la — conta uma moradora da Vila Cruzeiro. — Eu pude constatar que várias casas, onde os moradores estavam trabalhando, policiais arrombaram portas e destruíram coisas. Inclusive têm relatos de que sumiram pertences dessas casas. Sumiram celulares, sumiu dinheiro. É muito triste ver que as pessoas trabalham duro para comprar as suas coisas e perdem dessa maneira — diz o membro do Conselho Popular do Complexo do Alemão, Nilton Gomes. Onde tudo começouNa quinta-feira da semana anterior à invasão do Complexo do Alemão, dia 25 de novembro, o monopólio Globo mostrou, ao vivo, traficantes fugindo da Vila Cruzeiro para a favela da Grota por uma pedreira que funciona no alto da Serra da Misericórdia. Após a fuga dos bandidos, a Vila Cruzeiro foi a primeira favela da região a ser invadida pelas polícias e Forças Armadas. Luiz Inácio, nos últimos dias de seu mandato, emprestou ao gerente estadual, Sérgio Cabral, blindados do tipo anfíbio, da Marinha, e nos dias seguintes, 1,3 mil soldados e fuzileiros navais para apoiar as polícias do Rio nessa onda de terror que está sendo levada a cabo contra as favelas da região.
No terceiro dia de nossa cobertura, fomos à Vila Cruzeiro, onde pudemos registrar com fotos e filmagens o rastro de destruição deixado pelos blindados das forças armadas. Enormes buracos nas ruas dificultavam a passagem dos moradores. Um deles teve o seu carro esmagado por um tanque. Outra moradora teve o seu portão derrubado e seu carro destruído por um blindado. Em outras denúncias, moradores disseram que foram roubados durante revistas policiais. É o caso do pastor Ronai Braga, de 32 anos. Ele teve a sua casa invadida por policiais que roubaram R$ 31 mil e destruíram móveis e eletrodomésticos. O dinheiro, segundo ele, seria usado para pagar o financiamento de uma casa fora da favela. O relato de uma vítima
— A gente ia ao banco para depositar o dinheiro, que era da carta de crédito para nós comprarmos nosso apartamento. Quando a gente estava indo para a Caixa Econômica, começou o tiroteio. Eu peguei o dinheiro no guarda-roupas e deixei em cima da mesa junto com o meu relógio e minha carteira de motorista. Fomos até a casa de outro pastor amigo meu e, quando os tiros pararam, voltamos para pegar as coisas e ir ao banco. Quando cheguei ao portão, pela janela, eu vi que a cama do meu filho estava virada e pensei: 'alguém invadiu a minha casa'. Quando entrei, o dinheiro não estava mais em cima da mesa e estava tudo destruído e revirado. Quero saber onde estão o governador Sérgio Cabral e o secretário de segurança José Mariano Beltrame, pois ninguém veio me procurar ainda — protesta Ronai. — Para juntar esse dinheiro, eu trabalhei na malharia Citycol por oito anos, onde eu juntei 20 mil reais. O resto, eu economizei me privando de sair com a minha esposa, me privando de dar um presente para os meus filhos, porque meu sonho era sair da favela. Eu queria dar para a minha família o que meu pai não pôde me dar. — diz o pastor. — As pessoas que dizem que eu sou bandido, que esse dinheiro era do tráfico, não sabem o que é você estar agarrado a um sonho, estar com ele em suas mãos e, de repente, ir tudo por água abaixo. Trabalhar e lutar pelo seu sonho e, em um instante, tudo desaparecer. É a maior dor que um ser humano pode sentir — lamenta. — Eu me sinto frustrado por ser um chefe de família que tenho esposa, dois filhos, sou um cidadão honesto, pago meus impostos [Ronai mostrou à nossa equipe suas declarações do imposto de renda], mas mesmo assim, estou sujeito a uma coisa dessas. — desabafa Ronai. — Meu filho mais velho tem 9 anos e veio me perguntar: 'papai, foram os policiais que fizeram isso?'. O que eu vou dizer para ele? Sempre ensinei meu filho a ser honesto. Outro dia ele chegou em casa com a borracha de um coleguinha do colégio e eu dei uma bronca nele por ter pedido emprestado e não ter devolvido. Agora a polícia vem aqui e faz isso? O que eu vou dizer para ele?— questiona. Agressões e intimidaçõesNa Vila Cruzeiro, também falamos com outros moradores vítimas de abusos, como o operário da construção civil, Jurandir Pereira, de 41 anos. Policiais abriram um buraco no quintal de sua casa, alegando que havia drogas e dinheiro enterrados no local.
— Policias do BOPE, das polícias civil e militar entraram aqui destruindo tudo. Olha aí o buraco que fizeram na minha casa. Intimidaram minha mulher e meus filhos. Trancaram minha família dentro de casa. Disseram que se eu não colaborasse, iam me enfiar a porrada. Esvaziaram minha caixa d'água e ainda roubaram as minhas ferramentas. Levaram tudo, minha picareta, minha enchada, minha pá — denuncia o operário. Outro morador que preferiu não se identificar disse que teve a sua casa invadida por policiais que o agrediram depois que ele não soube revelar o paradeiro do traficante conhecido como "FB". — Eles [os policiais] arrombaram a minha porta e queriam que eu e a minha família déssemos conta do FB. Mas a gente não sabe de traficante. Nós somos trabalhadores e não convivemos com o tráfico, não sabemos de nada. Como nós não soubemos responder, eles vieram espancando a gente dizendo que iríamos pagar caro se não disséssemos alguma coisa — relata o morador. — A gente já sofre aqui sem um esgoto, sem água, sem luz e ainda tem esses policiais, que sempre vêm aqui para fazer essas maldades com a gente. Nós não aguentamos mais isso. Para mim, esses homens são os piores bandidos que existem na sociedade. São bandidos de farda — protesta. Este é o velho EstadoDurante o nosso trabalho no Complexo do Alemão, nossa equipe foi recebida de braços abertos por líderes comunitários, entre eles o representante do Conselho Popular, Nilton Gomes. — Esse negócio de pacificar com tanques de guerra é uma incoerência, porque se o Estado não tivesse abandonado essa região nos últimos 40 anos, não precisaria de nada disso. Se o próprio Estado respeitasse a constituição, que diz que todo brasileiro tem direito a moradia, a saúde e a educação, hoje o Complexo do Alemão não estaria como está. Foi o abandono do Estado que deu origem a todo esse quadro de miséria — diz. — Esse Estado, na realidade, é um Estado opressor. Um Estado que garante o poder da burguesia e domina a gente que é da classe operária. Eu não acho que esse Estado trata todos os setores da sociedade de maneira igual. Eu acho que tem muita discriminação e nós somos os discriminados — conclui o líder comunitário. Visite blog.anovademocracia.com.br para assistir os vídeos exclusivos registrados por AND no complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro, assim como os documentos que comprovam a origem lícita do dinheiro roubado por policiais do pastor Ronai Braga. Dezenas de corpos estariam sendo ocultados pela polícia
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| Nº 89, maio de 2012 |
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