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Preparação física no futebol monocrático

Foto: arquivo pessoal de Javier Gonzalez

O preparador físico Javier Gonzalez realiza trabalho de fortalecimento muscular
com o jogador Rivaldo, na preparação para a Copa de 2002

Mesmo afogados numa enorme crise financeira, grande parte dos clubes de futebol não poupa esforços nem dinheiro para investir na preparação física de seus atletas. Algo que antigamente não tinha tanta importância, hoje é considerado a mola mestra de qualquer equipe que almeje a vitória. A preparação física dos jogadores chegou a um estágio tão avançado que não sabemos, ao certo, se lidamos com homens ou com máquinas.

Essa comparação ganha força com os estudos realizados pelo preparador físico Francisco Javier Gonzalez, que comprovam, por exemplo, o aumento da velocidade de jogo durante as partidas. Um jogador de meio-campo, no passado, corria durante um jogo cerca de quatro quilômetros e hoje essa média é três vezes maior. Com passagens pela Seleção Brasileira e clubes importantes, como Grêmio e Flamengo, Javier Gonzalez acredita que essa mudança na preparação física originou-se na Europa.

Os jogadores europeus começaram a ganhar muita força física e, consequentemente, velocidade. Então, essa preparação física veio passando para os outros países de maneira que as equipes ficassem mais competitivas.

O preparador lembra que a técnica não vence sozinha uma partida, ela deve estar aliada com a parte física e tática, sendo que o aspecto da preparação física ganhou mais evidência nos últimos tempos. Com essa evolução a musculação passou a ser fundamental na preparação dos atletas, coisa que no passado não se praticava. Antigamente se pensava que com a musculação e o ganho de massa, o jogador fosse ficar pesado e muito lento. Hoje sabemos que é completamente o contrário. O trabalho de força ajuda a ganhar velocidade e resistência.

Javier aproveita para lembrar que com a excessiva exportação de craques — os grandes jogadores foram vendidos para o futebol europeu ou asiático — o futebol brasileiro passou a ter na preparação física um diferencial nas competições, ou seja, vence quem estiver melhor fisicamente. Toda essa preparação do jogador ganhou força quando o futebol passou a ser profissional e, consequentemente, comercial. Os clubes passaram a ser grandes vitrines para um mercado exigente, onde a melhor mercadoria — o melhor atleta — é aquele que apresenta um preparo físico perfeito, ao menos no que diz respeito à prática do futebol.

Uma mercadoria em ascensão

Atualmente os investimentos são altos para oferecer ao atleta um ótimo condicionamento físico. Existe uma estrutura bem complexa por trás do jogador. Há apenas alguns anos uma comissão técnica era formada pelo treinador e um preparador físico. Hoje, além do técnico (treinador) e o preparador, essa comissão conta ainda com assistente técnico, fisiologistas, nutricionistas, fisioterapeutas e médicos, que cercam o jogador diariamente com um único objetivo: a perfeita forma física.

Essa busca pela perfeição fez com que muita coisa mudasse no futebol. Antigamente o jogador não era um atleta, pois não vivia exclusivamente para o futebol. Hoje ele é obrigado a ser um atleta, dedicando todo seu tempo ao esporte, mesmo porque passou a existir toda uma estrutura comercial na modalidade.

O que muitos podem questionar é se o futebol, com o passar dos anos e sua evolução técnica, passou a ter uma preparação física mais completa.

O futebol é completo no aspecto de valências físicas, não no aspecto da musculatura total do corpo, como o que ocorre na natação. O atleta de futebol deve ter uma boa velocidade, uma boa resistência, uma boa força, então esse conjunto faz com que em valência física seja um esporte bem completo, coisa que em outros esportes não se tem. No arremesso de peso, por exemplo, o atleta não precisa ter tanta velocidade, mas muita força — explica o preparador Javier Gonzalez, que aproveita para acrescentar: "Mesmo o futebol, ainda que não mexa com a musculatura total do corpo do atleta, vem exigindo muito da musculação, de uma maneira geral, durante a preparação física desse jogador, com o objetivo de proporcionar um melhor equilíbrio ao corpo."

O trabalho de preparação física realizado por Javier Gonzáles tem grande importância para o futebol cinco vezes campeão mundial. Meses antes da disputa do mundial na Ásia (julho de 2002), o preparador foi contratado pela Confederação Brasileira de Futebol para participar do tratamento dos craques Rivaldo e Ronaldo. Os dois passavam por momentos difíceis em suas carreiras depois de sofrerem graves contusões e estavam desacreditados para o mundial. Javier desenvolveu um trabalho específico de fortalecimento da musculatura de cada jogador e o resultado foi o mais positivo de todos.

O grande investimento dos clubes na fabricação de seus craques tem uma compensação futura, quando os jogadores são negociados, quase sempre para o exterior. Um exemplo de clube que faz esse investimento pesado é o Flamengo, que criou um projeto destinado especialmente para a preparação de seus jovens atletas. O caso mais recente do Projeto Soma, como foi denominado pelo Flamengo, é o zagueiro André Bahia. Os gastos para fazer o atleta ganhar altura e massa muscular chegam a R$ 500 mil por ano. Por outro lado, o clube já vem colhendo frutos do seu investimento: André Bahia é titular absoluto da equipe e capitão da seleção brasileira sub-20, sempre em alta no mercado, sendo observado por vários clubes estrangeiros.

Esse trabalho realizado no Flamengo teve um pioneiro. Quem não se lembra da preparação de Arthur Antunes Coimbra, o famoso Zico. Ele foi o exemplo mais claro do investimento do clube na criação de seus jogadores e que rendeu muito lucro. Outro exemplo de que a fabricação de jogadores vem dando certo é o São Paulo, que investiu pesado na preparação do jogador Kaká. O atleta do clube paulista já tem em seu currículo um título mundial pela seleção brasileira e recebeu propostas milionárias do futebol inglês.

Observa-se que o jogador de futebol, com a "evolução" do esporte, vem se tornando mercadoria extremamente valorizada, inclusive oferecendo menos risco do que possa parecer à primeira vista. Não é difícil encontrar por aí transações desfeitas logo após se descobrir que o atleta negociado tem algum problema físico. Como consequência desse defeito, o jogador é devolvido ao seu fabricante.

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