O império sem força e sem razão

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Foto: Durval Silva

Professor Bautista Vidal em seu pronunciamento no Instituto Alberto Pasqualini

Especialista em energia e autor de vários livros sobre o assunto, o físico e engenheiro Bautista Vidal*, convidado para falar sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e os trabalhadores, surpreendeu a forma comedida com que a imprensa se refere à atual administração, pela objetividade de sua intervenção no auditório da Fundação Alberto Pasqualini, no dia 17 de maio, no Rio de Janeiro, durante a realização do encontro de sindicalistas filiados ao Partido Democrático Trabalhista.

De imediato, o Dr. Bautista Vidal resumiu sua apreciação sobre a atual administração, considerando-a profundamente contrária aos interesses nacionais, marcando a convicção de que a questão principal é o poder.

Demonstrando que o Brasil é o país que dispõe do maior potencial energético solar do mundo, mas que, seus dirigentes, a rigor, não desenvolvem e sequer consideram esta questão estratégica — o que revela não haver preocupação para com a independência e o desenvolvimento nacional — o cientista seguiu descrevendo como os Estados imperialistas se desesperam frente ao problema energético, provam as atrocidades perpetradas nas últimas décadas para garantir o domínio das populações e das fontes de energia.

A primazia é conferida pelos Estados imperialistas, situados nos climas frios, ao combustível fóssil — representado pelo carvão mineral e o petróleo que, todavia, se encontram no ocaso (reservas para 20 a 30 anos) -, um retumbante fracasso se vislumbra bem antes do prazo de esgotamento total das reservas.

A autodeterminação decisiva

Se num primeiro momento o combustível proveniente da biomassa pareceu, aos olhos de muitas das renomadas personalidades da ciência, nada mais que um paliativo para a questão energética, hoje ela se constitui basicamente na principal solução para o problema — não apenas em relação aos países dos trópicos (nem todos os países dos trópicos desfrutam dos mesmos privilégios que o Brasil, infelizmente) -, o caminho viável e mais imediato capaz de fornecer imensa contribuição à economia dos povos. Entre as inúmeras características positivas que apresenta,estão a de ser renovável, o baixo custo, etc. Nesse caso, todavia, o Brasil, desfruta novamente da posição mais privilegiada.

Dispensada qualquer identidade com os arroubos patrioteiros (com tiradas saídas do fundo da ignorância e da bestialidade fascistas, sub-imperialistas, tipo Brasil maior do mundo), o Dr. Bautista Vidal adverte para a imensa responsabilidade que recai sobre o Brasil diante da incontornável necessidade de erguer uma economia para si e capaz de ajudar toda a humanidade a libertar-se da crise terminal do petróleo — o que acrescenta à independência nacional maior relevância e contribuição no quadro da autodeterminação das nações. São as potências hegemônicas — e não os povos trabalhadores — as que apresentam carências cruciais em produtos naturais e absolutamente estratégicos, como a questão energética, dos minérios estratégicos, água e alimento.

No território ao norte da América, se faltar ao Estado dos magnatas ianques o socorro das colônias e semicolônias, as reservas de petróleo não suportarão cinco anos de consumo. Aquele território não tem água em abundância, nem minérios estratégicos. Supre essas dificuldades, no entanto, sua imensa capacidade de roubar e matar, no que deverá ser multiplicada ao pretender manter-se como império. O Japão, por exemplo, é uma grande potência tecnológica, mas sem o petróleo tende a virar sucata. A Alemanha vive a mesma condição.

A situação brasileira, a despeito de sua riqueza material, é catastrófica. O Congresso Nacional é composto, em sua grande maioria, por inimigos do povo. São canalhas. Entregaram os patrimônios estratégicos da nação. Portanto, é absolutamente necessário rever o papel que desempenham os setores que envolvem a sobrevivência nacional.

A exemplo da moral entreguista que se assenhoreou da política brasileira, o Dr. Bautista Vidal citou o Dr. Leonel Brizola, que, há décadas, denuncia as tais "perdas internacionais" — tempo em que o monopólio dos meios de comunicação investe contra ele, criando a falsa imagem do político obsoleto, ultrapassado. No entanto, onde está a coerência? No Dr. Brizola ou no monopólio dos meios de comunicação, especialista em divulgar as vantagens da submissão ao imperialismo? Onde reside a coerência? Por acaso é na crise parlamentar e na sua casa homologatória?

A administração atual destrói 68% do orçamento nacional com o pagamento dos juros da dívida, o que impossibilita o país de construir seu futuro próximo. Toma por empréstimo dinheiro que nem "papel pintado" é mais; não representa nenhum lastro econômico. Sobre que empréstimo, então, se pagam juros?

O imperialismo ianque desarmou e depois destruiu o Iraque com bombas. Assim, age com o mundo inteiro, variando apenas a forma de destruição. Dos territórios nacionais, interessa ao império transformá-los em protetorados. Hoje, destroem o Brasil, e boa parte da humanidade, via sistema financeiro internacional. Mentem para o povo brasileiro. Mentem, quando falam que a Previdência está na bancarrota. Mentem, quando falam nas aposentadorias milionárias, sem informar a existência de dispositivos que se encontram disponíveis e podem imediatamente coibir quaisquer abusos nesse aspecto. "Querem é se apoderar do dinheiro dos anciãos; levá-los ao mais completo desamparo!", afirma. Tudo isso faz parte de uma legislação antitrabalhista, selecionados que foram para impô-la ao povo. O que há de popular, de trabalhador e de poder nisso?

Existe um pacote de crueldades, do qual 60% Cardoso se incumbiu de aplicar. Os outros 40% ficaram a cargo da administração atual, que significam a entrega do Banco Central para os gangsters internacionais e o que sobrou da estrutura produtiva nacional.

Para o professor Bautista Vidal, um dos processos mais perversos que permite arruinar uma nação, é a destruição do trabalho. Sem trabalho, o ser humano perde a sua dignidade e morre de desgosto. O Brasil, ao ter sua estrutura produtiva destruída, perdeu postos de trabalho e viu o desemprego crescer de forma inimaginável.

A Alca é o processo que culmina com a destruição da América Latina, com a escravização do povo trabalhador de todo Continente.

Legislação antitrabalhista e protetorado

O país tem uma agricultura imbatível. Tem 24% da água doce do mundo. Situado em continente tropical, cai sobre o território brasileiro enorme quantidade de energia produzida pelo sol. A planta capta a luz do sol e produz energia, fazendo esse sistema com que o maior reator do mundo, produza enormemente, o que nada custa para a nação. O óleo de dendê, o álcool da cana de açúcar, por exemplo, são combustíveis derivados da biomassa; não se exaurem havendo sol, são renováveis e facilmente se reproduzem neste país-continente de um idioma só. É evidente que cada povo está apto para encontrar suas soluções, mas esse imenso patrimônio (energético, mineral, genético, aquífero, assim como o homem, a técnica; todas essas forças produtivas encontradas em nosso país) não pode ficar nas mãos das corporações estrangeiras hegemônicas, para o bem do nosso povo e de todos os povos do mundo.

Com a Alca, vão implantar no país o sistema das grandes plantations, que expulsam o homem do campo, determina os tipos de cultivares que deveremos ou não semear, o que poderão levar de nossa terra, que resto de comida poderemos comer e que remédios também teremos de comprar de seus laboratórios. Significa o engessamento da economia e das nossas vidas pelos juros, pelo crescimento de uma dívida que, em absoluto não existe, acrescida de mais juros, de mais dívidas, de mais juros...

O Brasil tem a grande oportunidade de, imediatamente, abastecer o mundo de energia (e para os próximos 5 bilhões de anos, porque o sol não vai morrer antes disso!). A abundância solar, grandes extensões de terras e de água, dão às regiões tropicais brasileiras condições excepcionais para serem o grande fornecedor de combustíveis limpos e renováveis do futuro. O Brasil é a única região do planeta, que tem um reator à fusão nuclear que é o sol. Este é o aspecto crucial que coloca o país como a possível grande potência deste século; porém uma potência a serviço de seu povo e dos povos trabalhadores de todo o mundo.

Entretanto, se o país não tiver um sistema de governo que se traduza em poder consistente — o domínio da energia, sobre as forças armadas devidamente aparelhadas, dirigentes com a mente descolonizada, conscientes de que a ciência e a técnica devem servir ao povo -, jamais será rompido o ciclo de dependência, e toda a riqueza de que dispomos será dirigida pelo império; servirá para nos explorar ainda mais e contribuirá para escravizar e arruinar definitivamente as demais nações do globo.


* Dr. Bautista Vidal é físico, engenheiro, pesquisador, autor (premiado) de diversos livros em que defende o uso da biomassa aliada às mais justas causas nacionais. Foi o principal responsável do Pró-Álcool, é consultor de várias instituições (civis) internacionais que se dedicam aos estudos estratégicos dos avanços técnico-científicos em benefício dos povos. (ver AND 1, 4, 8 e 9).

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