O dia em que o sol nasceu no oeste

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I

No dia que o sol nasceu no oeste, Pedro teve um sonho esquisito. Acordou  atrasado, com o rádio relógio piscando. Faltara energia na madrugada. Conferiu no relógio de pulso, já eram 4:17 de uma manhã que ainda não começara. Esquentou um cuscuz de ontem, bebeu o café frio da garrafa, não teve tempo para se barbear. Em geral, o sono de Pedro era tão curto, que ele mal tinha tempo para sonhar. Sua noite era uma extensão do trabalho, um terceiro turno, onde a tarefa repousar obedecia a protocolos tão rigorosos quanto na linha de produção.

Mas naquela noite sonhara com uma viagem de ônibus. O bacurau*  percorria avenidas escuras com a velocidade natural das cidades vazias. As luzes amarelas dos postes enchiam de sombras avenidas que Pedro só conhecia na escuridão. Depois de uma curva acentuada a condução sofre uma forte barruada, porém contrariando a lei da inércia os poucos passageiros são lançados para trás. Foi aí que ele acordou, intrigado não com o significado implícito do sonho, mas com o próprio fato de ter sonhado.

A caminho da parada, procurou a réstia de luz que tornava azul e lilás um pedacinho do céu. Não encontrou. Apesar de ser verão, pensou alto:

— Hoje vai chover.

Se procurasse no sentido oposto, Pedro encontraria os sinais da alvorada. Mas ele ainda não sabia, que a partir daquele dia, o sol nasceria no oeste. Pensando na falta do guarda-chuva, penetrou na lotação. Apertado já se sentia no trabalho. Comprimido, após cumprimentar conhecidos, entrou no estado habitual de letargia provocado pela sonolência. Era impossível dormir e demasiado incômodo ficar acordado. A azia lembrava-lhe dos esforços que ainda estavam por vir.

II

Nazário acordou mais tarde. Naquele dia as cortinas blackout de nada serviram, pois às 8 da manhã o sol iluminava o poente. Seu ipad despertou na hora certa e ele nem ficou sabendo que faltara energia na cidade toda. Ao chegar na cozinha, a mesa estava posta. Enquanto tomava um café quente procurava notícias da cotação de minério de ferro na bolsa de Sidney. No entanto, era feriado na Austrália e não houvera pregão. Como sempre, Nazário sonhara muito, mas por desprezar qualquer tipo de sonho procurava esquecê-los preenchendo sua cabeça com cotações pragmáticas.

Ao sair de seu apartamento, no corredor, as luzes automáticas se acenderam. No elevador, lâmpadas fluorescentes iluminaram sua imagem alinhada no espelho. No carro, ligou o rádio a tempo de pegar o noticiário econômico. Acionou o ar condicionado e apertou a gravata. Os vidros fumês protegiam-no bem das luzes solares. Jamais se daria conta de que os raios daquela manhã batiam em sua janela esquerda e não direita. Chegou ao escritório satisfeito como quem volta ao lar. Ambiente amplo, limpo, organizado, pessoas bonitas, temperatura ideal e iluminação artificial. Nazário se sentia feliz.

III

No corre-corre apressado da urbe ninguém se deu conta que o mundo estava virado e as sombras agora cresciam para o lado contrário. Minto. Os meninos de rua, com suas garrafinhas cheias de cola, se divertiam com as sombras invertidas do chafariz da praça. Mas as pessoas não se deram conta daquela brincadeira, afinal aquelas crianças não são ninguém. Não tem nome, telefone, nem hora pra acordar

IV

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Beto não entendia porque na melhor parte do sonho, na hora que comeria a menina, ele sempre acordava. Dormiu, novamente, para ver se a história seguia, não adiantou, seu desejo estava em outra companhia e teve que resolver sua bronca sozinho. Adorava a liberdade de trabalhar no trecho, sem patrão nem mãe pra regular seus costumes. Colocou os pés no chão, protegidos pelas meias do dia anterior, e foi preparar o seu café e de sua turma.

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